jun 212021
 

 

 

Eu sei, é estranho escrever obituário com agá, mas não diga que é errado. Certa vez eu disse em tom de deboche para o meu amigo que seu nome, Hailton, deveria ser sem o agá e ele se ofendeu, achou que eu estava caçoando dos pais dele, que são pessoas simples. Eu pedi desculpas, ele compreendeu, a vida seguiu.

Seguiu até o último dia 16, quando ele se foi.

Não me lembro da primeira vez que conversamos, mas certamente foi início de março de 1994, quando começou o ano letivo da UNESP. Éramos um bando de jovens saídos de vários lugares que foram estudar em Franca, e eu não tinha ouvido falar de Monte Aprazível até que conheci dois dos filhos daquela terra: Sérgio, que é alto, virou “Montão”; e o Hailton, que era baixo, ficou “Montinho”. Assim foi até que aprendêssemos os nomes de todos, e que outros apelidos fossem dados ao colega – Porpeta, Barney, Peppa, etc.

 

De pé: Zaupa e Alessandro;  sentados: Igor, Hailton, Helton, Fernando; cansados: Orlins e Adauto

 

Já nos primeiros dias de convivência ele demonstrou possuir um gosto bem peculiar para piadas ruins e trocadilhos ainda piores. Era tão característico isso que toda vez alguém dizia algo de humor duvidoso acrescentava um “essa é pra você, Hailton!”, o que servia como agrado ao amigo e pedido de desculpas aos demais.

Outra característica marcante era sua paciência curta. Hailton não levava desaforo para a república. O tal do Xava, um veterano que dava trotes que passavam dos limites, até hoje deve ter calafrios ao se lembrar da vez em que o baixinho não só rechaçou uma brincadeira sem graça mas ainda lhe passou a mão dizendo que “iria comer aquele bundão”. Mais que um desaforo, aquilo foi uma ameaça que o veterano não quis pagar para ver.

 

Hailton e a Saudosa Maloca (de pé: Alessandro, Hailton, Wagner e Helton; fazendo marra: Tomás)

 

A pouca paciência e o jeito resmungão me fazem lembrar do Hailton toda vez que vejo o George Constanza na TV. E assim como esse personagem da série Seinfeld, meu amigo cometia suas presepadas.

Certa vez, na ânsia de colar numa prova, ele foi tão afoito que copiou tudo da colega que sentava à sua frente – inclusive o nome dela. Em outra oportunidade, tirou cara e coroa com um colega para saber quem continuaria a paquerar a moça que estava sentada entre eles no bar. Hailton ganhou na moeda, mas perdeu na cantada, e o colega acabou ficando com a garota (e depois namorou, casou, teve filha e estão juntos até hoje).

Acostumado ao calor da região de São José do Rio Preto, Hailton sofria com os dias frios que às vezes fazia em Franca. Isso não justifica, porém, ele ter colocado fogo na casa em que morava com o Leandro ao improvisar um “aquecedor” com uma lata com querosene no banheiro.

 

Atletas em repouso – Hailton, Helton, Wagner e Aureo

 

Um dia fomos para a estrada tentar carona até São Paulo, oportunidade em que o Hailton teve muito do que resmungar. O sol estava inclemente e ninguém parava para aqueles dois estudantes no acostamento. A salvação veio de um caminhoneiro, já no final da tarde, mas o alívio durou pouco. O trabalhador estava cansado e dormiu no volante, e quando percebemos a sua cabeça tombando demos um berro para acordá-lo. O motorista nem se assustou e disse tranquilamente: “calma, gente, eu já estou acostumado!”.

Saber que o caminhoneiro estava acostumado a dormir no volante obviamente não nos deixou mais calmos, mas adotamos aquela frase como um bordão para cada vez que cometíamos uma burrada:

– Cara, você esqueceu em casa o trabalho que é para entregar hoje?

– Calma, gente, eu já estou acostumado…

Existe muito mais para ser dito sobre o Hailton, e muitas outras histórias poderiam ser mencionadas, como as piadas com a careca do Helton, a foto do João, a predileção por Heineken, o quase swing, o socorro ao Dumbo contra o livreiro corno, entre outras. Minha cabeça não é tão boa para lembrar de tudo, e rememorar (e aumentar e modificar) nossas histórias é parte do ritual do nosso grupo todas as vezes quando nos encontramos, então é melhor deixar algumas coisas em aberto.

 

Hailton, Aureo, Júnior e Wagner

 

Mesmo depois de 20 anos de formados, nossa turma (“Os Escrotos”) não perdeu o contato e mantém conversas praticamente diárias, primeiro graças a uma lista pela qual mandávamos e-mails abertos a todos, agora através grupo do Whatsapp. O falecimento do Hailton foi a primeira perda que tivemos, e como disse o Cardoso, foi o momento mais triste que vivenciamos em conjunto desde que nos conhecemos.

Eu comecei o texto falando da minha implicância com a grafia do nome do meu amigo, e todas as vezes que escrevi Hailton o corretor do Word sublinhou em vermelho, como se eu estivesse escrevendo errado. Talvez não seja mesmo certo usar o bendito agá, mas errado de verdade é alguém morrer tão cedo, vítima de uma pandemia que saiu do controle graças à inépcia e à maldade do nosso presidente e daqueles que o cercam. Já são 500.000 erros, e não sabemos até quando isso continuará.

Hailton, pegue leve nas piadas com São Pedro. Nós aqui vamos preparar uma homenagem para você no próximo encontro – um campeonato de buraco, o tresmilzinho, o que acha?

Fique em paz, meu amigo. Já sentimos sua falta.

 

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maio 182021
 

 

 

“E aí, carinha?”

Não sei se você ainda falava desse jeito. Faz bastante tempo que não conversávamos, a vida nos distanciou nesses últimos anos. A separação física nem era tanta assim, estávamos mais ou menos perto um do outro, mas o cotidiano, os afazeres, os interesses e tudo o mais que envolve ser “adulto” cria barreiras.

Barreiras que se tornam um nada num instante.

É num instante que estou de volta ao ônibus, indo para Comevalp em Cachoeira Paulista contigo. Ou num cinema lotado em São José, com gente sentada no corredor para assistir Ghost. Ou numa mesinha do Gordo, com meu primeiro copo de chopp na mão.

Tem uns trinta anos isso tudo, é? Parece que passou tão de repente!

Tudo passa rápido demais. Como a doença, que chegou e te levou tão cedo.

Posso te confessar uma coisa, meu amigo? O que estudamos juntos na doutrina espírita conforta e esclarece, mas está difícil tirar do meu peito a indignação. Eu estou muito puto por não poder ir abraçar nossos outros amigos em sua despedida, estou puto porque já deveríamos estar vacinados, estou puto porque sei que você se cuidava mas tem muita gente aglomerando, e estou muito puto porque a pandemia saiu de controle por inércia do mais incompetente, idiota e sádico presidente que o país poderia ter.

Me perdoe então por não ir ao teu velório, mas tenha certeza que rezar por você, pela Shirlei, por seus filhos, por nossos amigos todos de Mocidade. Vou rezar pelos meus outros amigos que estão internados. Vou rezar por aqueles que ainda ficarão doentes. E vou rezar muito para que a indignação se multiplique e ganhe força.

Até um dia, meu amigo Will.