maio 182021
 

 

 

“E aí, carinha?”

Não sei se você ainda falava desse jeito. Faz bastante tempo que não conversávamos, a vida nos distanciou nesses últimos anos. A separação física nem era tanta assim, estávamos mais ou menos perto um do outro, mas o cotidiano, os afazeres, os interesses e tudo o mais que envolve ser “adulto” cria barreiras.

Barreiras que se tornam um nada num instante.

É num instante que estou de volta ao ônibus, indo para Comevalp em Cachoeira Paulista contigo. Ou num cinema lotado em São José, com gente sentada no corredor para assistir Ghost. Ou numa mesinha do Gordo, com meu primeiro copo de chopp na mão.

Tem uns trinta anos isso tudo, é? Parece que passou tão de repente!

Tudo passa rápido demais. Como a doença, que chegou e te levou tão cedo.

Posso te confessar uma coisa, meu amigo? O que estudamos juntos na doutrina espírita conforta e esclarece, mas está difícil tirar do meu peito a indignação. Eu estou muito puto por não poder ir abraçar nossos outros amigos em sua despedida, estou puto porque já deveríamos estar vacinados, estou puto porque sei que você se cuidava mas tem muita gente aglomerando, e estou muito puto porque a pandemia saiu de controle por inércia do mais incompetente, idiota e sádico presidente que o país poderia ter.

Me perdoe então por não ir ao teu velório, mas tenha certeza que rezar por você, pela Shirlei, por seus filhos, por nossos amigos todos de Mocidade. Vou rezar pelos meus outros amigos que estão internados. Vou rezar por aqueles que ainda ficarão doentes. E vou rezar muito para que a indignação se multiplique e ganhe força.

Até um dia, meu amigo Will.