jun 212021
 

 

 

Eu sei, é estranho escrever obituário com agá, mas não diga que é errado. Certa vez eu disse em tom de deboche para o meu amigo que seu nome, Hailton, deveria ser sem o agá e ele se ofendeu, achou que eu estava caçoando dos pais dele, que são pessoas simples. Eu pedi desculpas, ele compreendeu, a vida seguiu.

Seguiu até o último dia 16, quando ele se foi.

Não me lembro da primeira vez que conversamos, mas certamente foi início de março de 1994, quando começou o ano letivo da UNESP. Éramos um bando de jovens saídos de vários lugares que foram estudar em Franca, e eu não tinha ouvido falar de Monte Aprazível até que conheci dois dos filhos daquela terra: Sérgio, que é alto, virou “Montão”; e o Hailton, que era baixo, ficou “Montinho”. Assim foi até que aprendêssemos os nomes de todos, e que outros apelidos fossem dados ao colega – Porpeta, Barney, Peppa, etc.

 

De pé: Zaupa e Alessandro;  sentados: Igor, Hailton, Helton, Fernando; cansados: Orlins e Adauto

 

Já nos primeiros dias de convivência ele demonstrou possuir um gosto bem peculiar para piadas ruins e trocadilhos ainda piores. Era tão característico isso que toda vez alguém dizia algo de humor duvidoso acrescentava um “essa é pra você, Hailton!”, o que servia como agrado ao amigo e pedido de desculpas aos demais.

Outra característica marcante era sua paciência curta. Hailton não levava desaforo para a república. O tal do Xava, um veterano que dava trotes que passavam dos limites, até hoje deve ter calafrios ao se lembrar da vez em que o baixinho não só rechaçou uma brincadeira sem graça mas ainda lhe passou a mão dizendo que “iria comer aquele bundão”. Mais que um desaforo, aquilo foi uma ameaça que o veterano não quis pagar para ver.

 

Hailton e a Saudosa Maloca (de pé: Alessandro, Hailton, Wagner e Helton; fazendo marra: Tomás)

 

A pouca paciência e o jeito resmungão me fazem lembrar do Hailton toda vez que vejo o George Constanza na TV. E assim como esse personagem da série Seinfeld, meu amigo cometia suas presepadas.

Certa vez, na ânsia de colar numa prova, ele foi tão afoito que copiou tudo da colega que sentava à sua frente – inclusive o nome dela. Em outra oportunidade, tirou cara e coroa com um colega para saber quem continuaria a paquerar a moça que estava sentada entre eles no bar. Hailton ganhou na moeda, mas perdeu na cantada, e o colega acabou ficando com a garota (e depois namorou, casou, teve filha e estão juntos até hoje).

Acostumado ao calor da região de São José do Rio Preto, Hailton sofria com os dias frios que às vezes fazia em Franca. Isso não justifica, porém, ele ter colocado fogo na casa em que morava com o Leandro ao improvisar um “aquecedor” com uma lata com querosene no banheiro.

 

Atletas em repouso – Hailton, Helton, Wagner e Aureo

 

Um dia fomos para a estrada tentar carona até São Paulo, oportunidade em que o Hailton teve muito do que resmungar. O sol estava inclemente e ninguém parava para aqueles dois estudantes no acostamento. A salvação veio de um caminhoneiro, já no final da tarde, mas o alívio durou pouco. O trabalhador estava cansado e dormiu no volante, e quando percebemos a sua cabeça tombando demos um berro para acordá-lo. O motorista nem se assustou e disse tranquilamente: “calma, gente, eu já estou acostumado!”.

Saber que o caminhoneiro estava acostumado a dormir no volante obviamente não nos deixou mais calmos, mas adotamos aquela frase como um bordão para cada vez que cometíamos uma burrada:

– Cara, você esqueceu em casa o trabalho que é para entregar hoje?

– Calma, gente, eu já estou acostumado…

Existe muito mais para ser dito sobre o Hailton, e muitas outras histórias poderiam ser mencionadas, como as piadas com a careca do Helton, a foto do João, a predileção por Heineken, o quase swing, o socorro ao Dumbo contra o livreiro corno, entre outras. Minha cabeça não é tão boa para lembrar de tudo, e rememorar (e aumentar e modificar) nossas histórias é parte do ritual do nosso grupo todas as vezes quando nos encontramos, então é melhor deixar algumas coisas em aberto.

 

Hailton, Aureo, Júnior e Wagner

 

Mesmo depois de 20 anos de formados, nossa turma (“Os Escrotos”) não perdeu o contato e mantém conversas praticamente diárias, primeiro graças a uma lista pela qual mandávamos e-mails abertos a todos, agora através grupo do Whatsapp. O falecimento do Hailton foi a primeira perda que tivemos, e como disse o Cardoso, foi o momento mais triste que vivenciamos em conjunto desde que nos conhecemos.

Eu comecei o texto falando da minha implicância com a grafia do nome do meu amigo, e todas as vezes que escrevi Hailton o corretor do Word sublinhou em vermelho, como se eu estivesse escrevendo errado. Talvez não seja mesmo certo usar o bendito agá, mas errado de verdade é alguém morrer tão cedo, vítima de uma pandemia que saiu do controle graças à inépcia e à maldade do nosso presidente e daqueles que o cercam. Já são 500.000 erros, e não sabemos até quando isso continuará.

Hailton, pegue leve nas piadas com São Pedro. Nós aqui vamos preparar uma homenagem para você no próximo encontro – um campeonato de buraco, o tresmilzinho, o que acha?

Fique em paz, meu amigo. Já sentimos sua falta.

 

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maio 182021
 

 

 

“E aí, carinha?”

Não sei se você ainda falava desse jeito. Faz bastante tempo que não conversávamos, a vida nos distanciou nesses últimos anos. A separação física nem era tanta assim, estávamos mais ou menos perto um do outro, mas o cotidiano, os afazeres, os interesses e tudo o mais que envolve ser “adulto” cria barreiras.

Barreiras que se tornam um nada num instante.

É num instante que estou de volta ao ônibus, indo para Comevalp em Cachoeira Paulista contigo. Ou num cinema lotado em São José, com gente sentada no corredor para assistir Ghost. Ou numa mesinha do Gordo, com meu primeiro copo de chopp na mão.

Tem uns trinta anos isso tudo, é? Parece que passou tão de repente!

Tudo passa rápido demais. Como a doença, que chegou e te levou tão cedo.

Posso te confessar uma coisa, meu amigo? O que estudamos juntos na doutrina espírita conforta e esclarece, mas está difícil tirar do meu peito a indignação. Eu estou muito puto por não poder ir abraçar nossos outros amigos em sua despedida, estou puto porque já deveríamos estar vacinados, estou puto porque sei que você se cuidava mas tem muita gente aglomerando, e estou muito puto porque a pandemia saiu de controle por inércia do mais incompetente, idiota e sádico presidente que o país poderia ter.

Me perdoe então por não ir ao teu velório, mas tenha certeza que rezar por você, pela Shirlei, por seus filhos, por nossos amigos todos de Mocidade. Vou rezar pelos meus outros amigos que estão internados. Vou rezar por aqueles que ainda ficarão doentes. E vou rezar muito para que a indignação se multiplique e ganhe força.

Até um dia, meu amigo Will.

maio 112020
 

 

 

No final de 2006 o Brasil vivia a crise do “apagão aéreo”, que foi o colapso do sistema de transporte aeroviário no país. Equipamentos falhavam, voos atrasavam, aeroportos lotavam. Um dos muitos episódios de falência estrutural que fazem parte do cotidiano do brasileiro e que só virou escândalo à época porque atingia a classe média.

Numa sexta-feira qualquer daquela crise, eu estava no aeroporto do Galeão, aguardando para embarcar de volta para São Paulo, entre centenas de milhares de pessoas que lotavam o saguão de espera. Eu tinha ido à trabalho ao Rio, e se terno e gravata já não combinam bem com a Cidade Maravilhosa, a vestimenta ainda ficava pior num ambiente no qual o ar condicionado não conseguia dar conta da sua missão. Os famosos que frequentam a ponte aérea suavam tanto quanto os anônimos, todos em igual situação de desconforto.

Havia um indivíduo, porém, mais inquieto que os demais. Vestido de calças e jaqueta jeans, óculos escuros e com um violão nas costas (por que ele não despachou aquilo com as bagagens?), a figura se portava como se estivesse no palco do Gugu, e talvez fosse para lá que ele estivesse indo mesmo. Era do Dado Dolabella, ator/cantor que surgiu na Malhação, fez algum sucesso na Globo, mas que depois começou a decair até se tornar mais famoso pelas notícias policiais do que pela sua música.

Pensando melhor, acho que ele nunca foi famoso pela música.

No meio do saguão, Dado se movimentava como se estivesse numa sessão de fotos, ao tempo que parecia incomodado por ninguém lhe pedir um autógrafo. Andava um pouco e parava fazendo pose, claramente querendo chamar atenção, mas ninguém lhe dava bola, o que fazia que ele ficasse ainda mais irrequieto.

Formou-se a fila de embarque – que até não demorou tanto, tenho que admitir – e lá estava ele, pronto para embarcar no mesmo voo que eu. E, como não poderia deixar de ser, o figura sentou-se na mesma fileira de poltronas que eu sentei, apenas o corredor nos separava. Pior que isso só se estivéssemos indo de Cometa para Franca.

Eu percebi que quando ele entrou fez um gesto de cumprimento para alguém, mas não foi possível ver quem estava na janela, também na nossa fileira.

Durante o percurso o artista continuou inquieto. Contorcia-se na poltrona e chamava a comissária. Chamava a comissária e levantava. Levantava e contorcia-se. Achava que brilhava, e parece que estava cheio de brilho mesmo.

Quando desembarcamos pude ver que a pessoa que ele cumprimentou era a atriz Regina Duarte. Pensei comigo como eram discrepantes as atitudes. Ele, que não era ninguém na fila do pão dos artistas, deu um show durante o tempo todo, e ela, que era uma atriz renomada, uma das maiores estrelas da Globo, portou-se de forma discreta, quase imperceptível. A partir de então fiquei com uma boa impressão da Regina Duarte e contava essa história como um testemunho de demonstração de um combate entre a vaidade e a humildade.

Julgamos conhecer as pessoas e criamos juízos de valor sobre elas a partir de fragmentos e concepções que nada têm a ver com a realidade. Hoje, passados quase quinze anos dessa história, me pergunto se o Dado foi tão insuportável naquela tarde mesmo, ou se eu tive essa impressão porque já tinha uma imagem ruim daquele cara. Do mesmo modo, o que me levou a pensar que Regina Duarte seria um exemplo de modéstia se o que ela fez não foi nada além de se portar com um mínimo de educação no voo?

Regina, aliás, demonstrou nesses últimos anos ser uma pessoa ruim, de mau caráter, completamente dissociada da realidade. Está certo que ela já tinha dado sinal disso quando fez a famosa presepada do “eu tenho medo” em 2002, mas acho que eu quis acreditar que aquilo se deu em meio à efervescência eleitoral da época.  Nos últimos tempos, porém, ela revelou ser alienada ao declarar seu apoio ao quadrúpede que exerce a presidência e, ao aceitar um cargo no governo, assumiu a idiotia e a canalhice que foram verbalizadas na já histórica entrevista à CNN Brasil.

Talvez Dado não seja tão cusão quanto eu imagino (tá, duvido que não), assim como Regina não é a boa senhora que eu pensava. O que sei é que não podemos tirar conclusões de episódios únicos ou sobre fatos que mal conhecemos. Alguém que acha que me conhece pelo blog, por exemplo, pode ter a impressão de que eu sou um cara legal, o que não é endossado por quem convive comigo.

Os que me aturam, todavia, têm a tranquilidade de saber que, mesmo que eu sofra um apagão mental, jamais apoiarei a corja que hoje está no poder.

 

 

 

 

 

 

jul 042019
 

OU: DO TEMPO EM QUE EU GANHAVA MILHÕES

 

Meu pai olhava da porta do quarto, com indignação, o filho que ainda estava na cama apesar de já ter passado das 9h da manhã:

– Muita moleza isso aí. Você poderia levantar e sair pra procurar um trabalhinho, que tal?

E assim foi, pois era 1990, eu tinha quase dezesseis anos e até aquele tempo eu não contrariava meu pai. Batemos de frente poucas vezes, na verdade, o que até lamento. Gostaria de ter tido mais tempo com ele para que eventualmente nos estranhássemos mais.

Como não tinha experiência com nada, achei que o mais fácil seria encontrar uma vaga como vendedor. Saí pela cidade e passei por várias lojas, começando pelas maiores: Casas Bahia, Lojas Cem, Ponto Frio, Arapuã. Nas menores procurava por algum anúncio ou por alguém conhecido que pudesse me ajudar.

Na Arapuã eu poderia ter vendido essa máquina de escrever, que custava 61.990,00 à vista ou 151.176,00 à prazo. Uma pechincha!

Não tive sucesso nos primeiros dias. Eu estudava em São Silvestre na época e tinha outros amigos na mesma situação, então decidimos procurar emprego juntos. A estratégia mudou para a busca através de agências, tanto de Jacareí quanto de São José dos Campos. Preenchíamos fichas e éramos informados que entrariam em contato quando surgisse uma possibilidade. Nunca surgiu.

Certo dia o Adriano, um topetudo baixinho que tinha o apelido de Tatu, me perguntou se eu sabia usar máquina de escrever e pediu para ver minha letra, pois havia uma vaga no escritório de contabilidade em que ele trabalhava. Como eu havia feito curso de datilografia na escola Olivetti e tinha uma letra razoável, estava credenciado para fazer uma entrevista com o Fermin, um espanhol muito alto e de vasta cabeleira branca.

O Fermin me contratou mas disse que não era para eu me apegar muito ao escritório, já que ele estava cansado daquela vida e pretendia largar tudo em pouco tempo e ir morar na praia com a Dona Maria, sua esposa. Passados quase trinta anos, creio que ele ainda diz a mesma coisa aos novos funcionários.

O meu trabalho era fazer a escrituração fiscal. Num grande livro eu lançava os dados das notas fiscais dos clientes do escritório, registrando tanto as entradas quanto as saídas de mercadorias. Como no livro não poderia haver rasuras, escrevia com uma caneta tinteiro que usava nanquim diluído e que poderia ser apagado com um pouco de aguarrás. Também preenchia formulários, de muitos tipos e tamanhos, usando papel carbono na máquina de escrever para garantir a exatidão de cada via – mesmo faltando cerca de dez anos para 2001, eram tempos de burocracia analógica. Quando o primeiro computador foi instalado no escritório parecíamos os primatas em volta do monólito.

Eu gostava do Fermin e dos meus colegas de trabalho. Trabalhávamos bastante, mas éramos todos meio moleques naquele tempo – só havia homens no escritório, por exigência da Dona Maria. As guerras de dardos de papel eram inacreditáveis, e as brincadeiras com os office boys às vezes passavam da conta, mas as brigas eram raras e nos dávamos bem.

Além do Adriano Tatu havia o Chico, que é filho do Fermin e trabalha com ele até hoje; o Dito, sempre à espera do pior; o romântico Renato e o Adriano Sacomani, que era um bom amigo cujo contato perdi depois que entrei na faculdade. Muitos caras legais passaram por lá, como o Lázaro, o Gerson, o Luciano, o Droopy e outros. A  rotatividade entre os office boys era grande, principalmente porque o salário não era grande coisa.

     O office boy era a cara do Droopy

Ah, o salário! Os mais jovens não sabem a emoção de receber mais de um milhão por mês! Milhões de cruzeiros, que não valiam nada, e que graças a inflação descomunal perdiam valor a cada dia. O momento de receber era sempre um suspense: a inflação fazia com que o salário tivesse que ser renegociado a cada pagamento. Íamos um a um na sala do Fermin, e a pergunta para quem saía de lá era “E aí, com está o homem hoje? Generoso?”. Nunca estava.

Os milhões que recebíamos não davam para muita coisa. Como eu estudava em escola pública, o dinheiro era gasto com roupas que comprava na Rosvaldo e na Infinity, com HQ’s e nos finais de semana na New Wave e no Banana Split, as danceterias que marcaram nossa época. Quando a grana estava mais curta, íamos à Eclipse e às domingueiras do Elvira, geralmente para nos arrependermos no dia seguinte.

Em julho de 1993 disse para o meu pai queria deixar o escritório, que queria me dedicar aos estudos para a faculdade e ele aceitou sem ressalvas (quando anunciei que precisávamos ter uma conversa séria ele imaginou que seria sobre ser avô, então a notícia não foi tão dramática quanto ele temeu).

Pouco tempo depois, numa sexta-feira, meu pai veio me avisar sobre o fim das inscrições para o vestibular na Unicamp, mas isso é uma outra história.

 

De pé: Renato e Adriano Sacomani Sentados: Luciano e Adriano Tatu

 

Lázaro e eu, em Campos do Jordão

 

jul 272017
 

 

Certa vez, em um 27 de julho, eu estava com o carro parado na rotatória quando uma van atravessou a preferencial e acertou uma Kombi que voltava da feira. A Kombi foi arremessada contra o meu veículo, que foi atingido sem que eu pudesse ter qualquer reação. Os peixes que o feirante levava se espalharam pela rua, e um deles repousou melancolicamente sobre o meu para-brisa.

Em outra oportunidade, na mesma data, eu ganhei na Mega Sena. Como foi apenas com uma quadra, e tinha feito a aposta num bolão, o dinheiro não deu para quase nada.

Quando eu era moleque, eu fui perseguido, num 27 julho, por todos os outros moleques da rua Santa Cecília. Não adiantou eu tentar me esconder em casa, eles vieram atrás de mim sem qualquer cerimônia, e me alvejaram com um ovo quando eu tentava pular a janela do quarto dos fundos. Um ano depois, tentei fugir escalando a área de serviço, mas fui cercado pelos meninos que me aguardavam do lado do muro. Ovo de novo.

Num domingo, 27 de julho de 1986, Adilson Maguila Rodrigues enfrentou o argentino Daniel Falconi numa revanche. Nocaute para o brasileiro. Eu assisti a luta sentado entre meu pai e meu avô.

Nesse mesmo dia, mas em outro ano, assamos pizza na área grande. Estava frio, era um dia de semana, mas foram todos os meus tios, primos e amigos, e naquele dia fui dormir me sentindo prestigiado e privilegiado.

Há alguns anos atrás, num 27 de julho, teve um show de uma banda cover dos Beatles, em São José dos Campos.

Graças ao dinheiro que ganhei num ano, comprei o Dois, do Legião Urbana. Em outro ano, o Psicoacústica do Ira!, um discão, como já contei aqui.

E teve um 27 de julho, há muito tempo atrás, que eu nasci.

 

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out 112016
 

 

dois

 

Você se lembra como foi seu dia 20 anos atrás?

Geralmente não sei nem o que fiz ontem, mas daquela sexta-feira, 11 de outubro, eu não me esqueço: estava almoçando no Restaurante Universitário quando me contaram sobre a morte do Renato Russo. Desisti então de passar a tarde na biblioteca da faculdade e resolvi voltar para a república, que ainda era aquela na rua Prudente de Moraes. Cheguei a tempo de ver o Jornal Hoje e as várias reportagens que seguiram pelo dia, inclusive a do jornal Aqui Agora, com um texto banal e desinformado narrado sobre as imagens do clipe de Strani Amore.

“DOIS” foi o primeiro disco que comprei na vida, com o dinheiro que ganhei do meu avô como presente de aniversário. “MÚSICA DE ACAMPAMENTO” comprei para dar de presente de Natal, mas ao chegar em casa resolvi que ficaria com o disco para mim. “AS QUATRO ESTAÇÕES” eu tinha em fita K7, copiado do LP que meu primo ganhou de amigo secreto  – naquela mesma oportunidade eu ganhei uma fita com os maiores sucessos da Joana. Sério. “V” tem “Metal Contra as Nuvens”, que embalou a primeira grande dor de cotovelo que tive na vida.  “O DESCOBRIMENTO DO BRASIL” eu comprei no Carrefour. Também em fita em tive o primeiro LP (“LEGIÃO URBANA”) e “A TEMPESTADE” foi o primeiro que adquiri em CD.

Apesar desses discos todos, eu não poderia ser chamado de um verdadeiro fã. Nunca tive um pôster na parede, e deixei de ir aos shows quando tive oportunidade por achá-los caros demais. Também não acompanhava tudo sobre a banda e não sabia que Renato estava tão doente, por isso a minha surpresa com a notícia da sua morte.

Eu já disse alguma vez que “Tempo Perdido” é a grande música da minha geração. Impossível ouvi-la sem lembrar de coisas, de pessoas e histórias que se perderam pelo… tempo. E muitas outras músicas da Legião ainda mantém o apelo original, mesmo com as patacoadas que os membros sobreviventes têm realizado.

Não é possível saber como estaria Renato Russo hoje. Seria o grande porta voz das novas gerações? Seria um velho chato e amargurado como o Lobão? Estaria fazendo shows em festivais agropecuários cantando as mesmas canções do passado? Seria coxinha? Ou mortadela? O que temos como fato é que a Legião se mantém relevante e atual, o que é instigante e assustador. É só ouvir “Perfeição” para nos darmos conta de como ainda é impossível responder que país é esse.

Apesar dos vinte anos, a máxima ainda vale: Urbana Legio Ominia Vincit.

 

 

 

set 212016
 

 

figurinhas-copa

 

A Santa Terezinha é uma rua que inicia plana, mas depois de uns trezentos metros começa a subir de um jeito que me cansa só de lembrar. A escola ficava ainda nessa parte baixa, de fronte a uma outra via em que até hoje às quintas acontece a feira livre do bairro. Todas as ruas próximas terminam em morros, e quase todos nós morávamos no alto, então ir para a aula era sempre mais fácil que voltar para casa, o que não me impedia de chegar sempre atrasado.

Mas eu morei próximo à escola apenas nos primeiros meses de aula. Em setembro, no feriado do dia 7, nos mudamos para a rua Santa Cecília, e embora estivesse mais longe nunca mais perdi a hora: o motorista da Kombi que me levava era nosso vizinho e eu era o primeiro a embarcar e o último voltar para casa.

Era 1982. Ano da Guerra das Malvinas, da Copa da Espanha e da primeira série C com a professora Vera, no Centro Educacional Sesi nº 160.

Antes das aulas, nos dias mais quentes, íamos buscar água que saía de uma bica incrustrada no quintal de um dos vizinhos da escola. A água era fresca e cristalina, de um jeito que hoje é impossível conseguir em pleno centro da cidade.  Com as garrafinhas das lancheiras abastecidas, aguardávamos o sinal para fazer fila e entrar na sala de aula trocando figurinhas dos álbuns do chiclete Ping Pong. As coleções das Copas de 82 e 86 e da Fórmula Um faziam tanto sucesso com a molecada quanto com os dentistas.

O pátio da escola era um pouco maior do que uma quadra de vôlei, único esporte que se praticava nas aulas de educação física (também havia o mini-vôlei, que os meninos jogavam com bolinhas de papel ensacadas em embalagens de pipoca, numa rede improvisada entre os mastros das bandeiras, mas isso era atividade extracurricular, assim como o pega-pega, o cinco-corta, a competição de aviões de papel, etc.). O chão da quadra era de cimento crespo, o que proporcionava maior emoção a cada tombo, mas isso não nos impedia de correr e pular o tempo todo.

Eu e alguns outros garotos aprendemos a jogar vôlei de verdade no Esporte Clube Elvira, e isso favoreceu o crescimento de uma rivalidade com o pessoal mais velho, que se formaria em 1988. Tenho certeza que os maiores jogos do esporte mundial foram travados naquela quadra cimentada do Sesi, pois já disse o poeta que nenhuma partida foi mais bela do que aquelas que ocorreram na minha aldeia (ou algo assim).

As meninas sempre foram mais maduras que os meninos, tanto emocional quanto fisicamente. Isso promoveu alguns desencontros amorosos nunca remediados: enquanto elas se espelhavam na Madonna e suas polainas e começavam a “gostar” dos garotos, nós só queríamos ter um carro igual a Super Máquina e jogar Atari para chegar ao fim do River Raid. Quando então passamos a gostar delas, elas só queriam saber dos caras mais velhos, e assim rivalidade cresceu para além das quadras, chegando aos bailinhos que tinham dança da vassoura e ponche de frutas.

Antes da hora do recreio, saíamos da aula para a merenda, trazida da Cozinha Piloto e servida pela Dona Isabel e pela Dona Maria em pratos de alumínio e canecas de plástico. Achocolatado, sopa de macarrão, sopa de macarrão com caldo de feijão, canjica, pão com salsicha. O cardápio era limitado e talvez sem grande valor nutricional, mas não éramos exigentes.

A escola tinha apenas 8 salas de aula, a cantina, a direção, os banheiros e uma oficina, aonde éramos introduzidos aos ofícios da cerâmica e da madeira. Era um prédio velho e todos os móveis escolares também eram antigos. Durante vários anos estudei em grandes carteiras de madeira e ferro, aonde sentávamos em duplas, e o cheiro daquelas salas ainda sobrevive em um canto qualquer da memória.

A memória, aliás, me prega peças. Recordo de conversar na porta da oficina com o Robson sobre Smells Like Teen Spirit, do Nirvana, mas essa música só foi lançada em 1991, depois que eu já tinha perdido o contato com esse amigo que nunca mais vi.

Pouco depois que me formei na oitava série, em 1989, o Sesi construiu instalações novas com salas e móveis modernos, além de quadras de verdade, piscina e campos de futebol. O prédio em que estudei hoje abriga uma outra escola, mas aquele mundo ficou lá atrás, num outro século, numa vida tão diferente que só existe em fotos de baixa resolução e em lembranças embaralhadas pelo tempo.

 

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Centro Educacional SESI nº 160

Jacareí, 21 de setembro de 2016

Hoje o dia está nublado.

 

***

Quem Eu Sou e Como Vim a Ser (I)

Quem Eu Sou e Como Vim a Ser (II)

 

 

 

 

 

 

 

abr 252016
 

 

 

Quando Michael Jackson morreu eu enviei um email para muitos amigos, para falar do tempo que passou desde que o Rei do Pop dançou o moonwalk e de como nos transformamos nesse período, e essa mensagem acabou de certa forma gerando a ideia de ter um blog. Nunca fui fã do Michael, mas ele sempre esteve presente em nossas vidas, mesmo que não percebêssemos.

A morte de Prince igualmente entristece quem viveu os anos 80. Também não era fã d’O Artista, mas When Doves Cry era onipresente nos programas de videoclipes de TV, Kiss tocava na New Wave e em todas as danceterias do mundo e não havia festa sem Purple Rain para fazer os casaizinhos dançarem. Isso sem falar de Nothing Compares 2 U, que fez sucesso com Sinead O’Connor, mas foi composta pelo Prince.

Talvez os jovens não tenham se dado conta de quem ele foi, mas Prince fazia parte do grande triunvirato da música pop, juntamente com Madonna e Michael Jackson. Foram as escolhas extravagantes que fez na carreira que acabaram por afastá-lo das novas gerações, mas para quem quiser saber sobre sua história e sua relevância sugiro este texto,  que é melhor do que qualquer coisa que eu possa escrever.

O que me importa é que outro representante da minha infância/adolescência se foi. E mesmo que eu não tenha nenhum disco do Prince em casa, acho que, de alguma forma, sou quem sou porque um dia ouvi Batdance e festejei como se fosse 1999.

 

***

 

Bruce Springsteen homenageou Prince cantando Purple Rain. Ficou foda:

 

 

Honey, I know, I know
I know times are changing
It’s time we all reach out
For something new, that means you too
You say you want a leader
But you can’t seem to make up your mind
I think you better close it
And let me guide you to the purple rain

 

 

jan 262016
 

 

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“Tempo é relativo”, me diz o Óbvio, sentado ao meu lado enquanto escrevo estas linhas.

Já se passaram muitos dias desde a última postagem e ele está aflito, esperando ser alimentado. Tenho me contido durante esse período para não me render ao seu chamado, mesmo que seja tentador e às vezes coberto de razão.

Em relação à relatividade do tempo, por exemplo, ele está certo: ontem fez 21 anos desde aquele show do Lulu Santos do Ibirapuera mas parece que foi… ontem. Minhas férias inteiras duraram menos que as horas que sentei em frente ao computador depois que voltei ao trabalho.

Mas tenho lutado para não me render ao Óbvio e seu sorriso vazio de satisfação. Por mais que ele continue a me espreitar a cada bate-papo, a cada mensagem trocada, a cada olhada no Facebook, aguardando pacientemente minha resposta a um comentário qualquer.

Essa minha resistência, todavia, tem causado o hiato nas postagens e algum ressentimento. O dia mais emblemático foi quando David Bowie morreu.

Assim que soube da morte do cantor o Óbvio ficou ululante. Abriu o notebook e leu cada comentário sobre a genialidade artista rindo de si mesmo, enquanto aguardava a minha participação no rol de homenagens sem fim. Ele sabia que sou fã do Bowie e que isso certamente renderia um post consagrador a ele (consagrador ao Óbvio, quero dizer).

Mas minha decisão de não escrever por entender que não haveria algo original para postar foi um golpe duro, que o deixou decepcionado comigo. Depois de tantos anos enriquecendo suas fileiras, o Óbvio se sentiu traído pela minha atitude.

Aos poucos, porém, vejo que ele está se recobrando e se sentindo mais forte, mais confiante. Ambos sabemos o porquê. É certo que, por mais que eu tente, cedo ou tarde não resistirei aos seus apelos e voltarei a colaborar com ele.

Quando digo “com ele” me refiro ao Óbvio, claro.

 

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dez 212015
 

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Mesmo descalço, ele decidiu seguir pela estrada de cacos de vidro.

Embora não soubesse aonde poderia chegar, a canção dizia que a vida é a jornada e não destino, então ele foi em frente. Às vezes os pés doíam, alguns cacos eram grandes e machucavam muito, mas o caminho recompensava cada passo.

Ele viu paisagens até então desconhecidas. Encontrou pessoas e lugares novos. Provou coisas que jamais sonhara e então imaginou que jamais deixaria o caminho.

Mas, após uma curva, a surpresa. Um caco grande demais machucou os pés desgastados. A ferida sangrou e foi preciso parar. Não havia como prosseguir naquelas condições.

Sentado à beira da estrada, ele se perguntava: depois que se se entra em uma rota sem volta, o quê fazer quando não se tem mais para onde ir?

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