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Uma tarde qualquer
 

taxi

  James pensava em como pagar a prestação da faculdade de sua mulher enquanto esperava o semáforo abrir. Aquele não tinha sido um bom mês para o taxista, e a proximidade do dia do vencimento da mensalidade o fazia odiar ainda mais sua profissão, o trânsito e São Paulo, de onde prometeu sair na primeira oportunidade. Mas tal oportunidade só viria depois que Sarah terminasse os estudos e arrumasse um emprego fora, então ele teria que continuar a viver naquela cidade de trânsito infernal por mais algum tempo. O taxista não tinha terminado de remoer tudo isso quando o semáforo abriu. Ele deu saída com o carro lentamente, mas foi interrompido por um homem que pulou na frente do veículo: - Está livre? Aquela abordagem assustou James e ele quase foi embora, mas o táxi estava sem passageiro e era preciso trabalhar para garantir os estudos de Sarah, então fez sinal para o homem entrar. - Preciso ir ao metrô mais próximo, com urgência! Qual a estação mais próxima? - perguntou o esbaforido passageiro - Quanto tempo até lá? - A estação mais próxima daqui acho que a do Masp. Nesse trânsito, uns 10 ou 15 minutos. - Tá ok, vamos então! James ligou o taxímetro e olhou no retrovisor. Viu o passageiro agitado, teclando algo no celular enquanto o suor escorria pelo rosto.  Era um homem de cerca de 30 anos, bem vestido, mas que aparentemente tinha corrido muito para chegar até o seu carro. Antes que o motorista pudesse conjecturar mais o próprio passageiro passou a falar: - No ponto da avenida de baixo não tinha nenhum táxi, corri três quadras procurando até que você apareceu... Me diga uma coisa, daqui até a Barra Funda é muito longe? - É do outro lado, tem que enfrentar esse trânsito aí... Eu posso seguir pelo corredor de ônibus, o que deixa a viagem um pouco mais rápida. - E quanto ficaria a corrida? - Uns cinquenta contos... - Nossa... mas vale a pena? Vou chegar mais rápido do que se for de metrô? Por mais que precisasse do dinheiro, James não poderia deixar de ser sincero: - Veja bem, do jeito que o trânsito está hoje não posso prometer isso não...  Mesmo usando os corredores o negócio trava. É melhor ir até o metrô mesmo pois... A frase foi interrompida por dois estampidos altos, tiros disparados da calçada. Quando James olhou para fora viu um homem com uma pistola preta nas mãos vindo em direção ao táxi. O homem armado tentou abrir a porta de trás, mas foi impedido pelo passageiro: - Larga! - gritou o homem armado. - Não! - respondeu o passageiro. - Solta a porra dessa porta! - gritou novamente o homem do lado de fora. - Sai fora! - respondeu ainda mais alto o homem do lado de dentro. Vendo que perdia um tempo precioso, o homem armado soltou a porta e correu pelo meio do trânsito em movimento. O taxista não sabia se considerava o passageiro um herói ou um maluco: - Você não viu que o cara estava armado? - Eu vi, mas ele que vá correr atrás de um táxi livre! Deu trabalho achar esse aqui! James continuou a dirigir xingando e agradecendo ao passageiro em silêncio. Já tinha sido vítima de roubos, mas nunca reagira como o rapaz. Toda vez que teve a arma apontada para si o peito encheu de ódio, mas ele pensou em Sarah e fez o que era certo. Quando chegavam próximos ao destino o passageiro perguntou: - O senhor vai ter troco pra R$ 100,00? - Não. - Aceita cartão? - Não. - Xiii... A corrida ia ficar em menos de R$ 15,00 e o passageiro não tinha dinheiro trocado. - Olha, o senhor pode parar então em frente àquela agência do banco que eu tiro dinheiro e pago a corrida. James até ficou com dó do passageiro que estava com tanta pressa, mas não podia trabalhar de graça. Estacionou em um lugar nada apropriado e o rapaz desceu do carro. Pouco depois veio à cabeça do motorista a possibilidade daquilo ser um golpe para que a corrida não fosse paga, mas antes que pudesse se sentir um idiota completo viu que o passageiro voltou correndo para o táxi. Andaram mais algumas quadras e chegaram então em frente à estação Trianon-Masp do metrô. O passageiro deu uma nota de R$ 20,00 ao motorista e desceu sem esperar pelo troco, mas antes de ir ainda virou para James e disse com um sorriso no rosto: - Tudo isso por causa de uma mulher, acredita? James pensou em Sarah e acreditou.     .

2 thoughts on “Uma tarde qualquer

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