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Tolerância e Sabedoria
 

Campo do Elvira

  Uma das personagens mais conhecidas em Jacareí durante a minha infância foi a Maísa, uma travesti mulata, de 1,80m, capoeirista e musculosa, que andava por toda a cidade de vestido e sandália. Lembro-me de ir com meu pai algumas vezes nos domingos de manhã ao Bar do Mané, aonde eu comia kibe com Guaranita enquanto ele e seus amigos jogavam dominó. A Maísa entrava, fazia uma festa com todos, cumprimentava o meu pai pelo nome ("Tadeu") e a mim pelo apelido ("Tadeuzinho"). Dentro do bar muitos faziam piadas e brincadeiras com a Maísa, mas meu pai não gostava disso. Além de ser um postura de tolerância, também havia muita sabedoria em sua atitude, como descobri depois. Em certo domingo o JAC disputava no Campo do Elvira uma partida pela 2ª ou 3ª divisão do Campeonato Paulista, e no intervalo do jogo eu, meu pai e meu irmão descemos das arquibancadas para irmos à lanchonete, quando então vimos a Maísa abrir um clarão no meio dos espectadores ao pegar pela gola da camisa um cidadão que antes havia lhe insultado. Ela levantou o rapaz até deixá-lo suspenso no ar e tascou-lhe um beijo na boca, enfiando-lhe a língua enquanto as pernas do indivíduo balançavam desesperadamente sem tocar o chão. Terminado o ato, Maísa jogou o cara contra o alambrado, deu-lhe uma encarada e saiu no meio do pessoal, que abriu passagem. Meu pai aproveitou a oportunidade para compartilhar um ensinamento: - Viram isso, meus filhos? Independentemente de sexo, cor ou religião, é muito importante tratar os outros com educação e respeito. Eu e meu irmão consentimos com a cabeça, pelo que meu pai então completou: - Principalmente quando esse outro é muito mais forte do que você... *** A Maísa morreu faz algum tempo. O Estádio do Elvira foi demolido para virar um condomínio. E o meu pai também já se foi, hoje completam-se 12 anos.    

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