mar 032012
 

 

 

Caro G. Singer

 

Você me escreve dizendo que está confuso, como se estivesse entre tribos e tribunais, em dúvida se deve seguir a faculdade de engenharia ou montar uma banda de rock.

Meu amigo, nós somos quem podemos ser, por  isso vou tentar explicar para você o que aprendi vendo filmes de guerra e canções de amor que passavam quando eu era um estrangeiro, passageiro de um algum trem, acho que no Havaí. Você perceberá que a lição parece um refrão bolero, mas não é novidade, pois essa história se repete embora a força deixe a história mal contada.

Ouça o então o que eu digo: não ouça ninguém. Isso é importante, pois todos são iguais, mas uns mais iguais que os outros.  Mesmo que você corra o risco de ser vítima do pop, que não poupa ninguém, essa lição é fundamental para quem está longe demais das capitais ou nas grandes cidades de um país tão surreal. Esse aprendizado permitirá seguir numa infinita highway a cento e dez, cento e vinte, cento e sessenta, só pra ver até quando o motor aguenta, e fazendo isso você poderá encontrar com qualquer um,  já que todo mundo é uma ilha a milhas de qualquer lugar.

Eu sei que essas palavras parecem uma sopa de letrinhas, entretanto, como parabólicas e paralelas que se cruzam em Belém do Pará, basta um pouco de atenção para sanar as dúvidas e obter alívio imediato.

Se você é um garoto que como eu amava os Beatles e os Rollings Stones, siga seus instintos mais sacanas e assim você não vai andar só, como só eu sei andar. Mas faça isso com segurança, senão você dança.

Bom, é isso. Pra ser sincero, prazer em vê-lo, até mais.

Seu vidente, El Gigio.

 

 

jan 212012
 

 

O rapaz de olhos verdes esperava na sala há algum tempo, e cada vez ficava mais injuriado. Na mesa à sua frente havia apenas um cálice, que ele afastou com uma das mãos para não derrubar, e uma folha de papel na qual estavam escritos vários nomes de mulheres: Carolina, Yolanda, Joana, Bárbara… Antes que ele terminasse de ler, contudo, El Gigio entrou e foi logo se desculpando pelo atraso:

– Mil perdões! Sai pela cidade para olhar as vitrines e perdi a hora vendo a banda passar… Estava tão bonito que quando ela foi embora parece que levou um pedaço de mim… Mas diga-me, Julinho, o que você precisa?

– Não, eu não sou Julinho, meu nome é…

– Não é Julinho ainda. – interrompeu o vidente.

O rapaz não entendeu, mas decidiu ir direto ao assunto:

– É que eu sou universitário, faço arquitetura, mas estou pensando em largar tudo pra ser jogador de futebol. Não sei o que fazer! Eu sou bom de bola, mas largar a faculdade… Estou tão confuso… Estou me sentindo… Como posso dizer?

– Como quem partiu ou morreu.

– Isso! Eu sempre fui muito seguro, sempre tive muita certeza do que fazer, mas agora estou perdido. Estou com tantas dúvidas que se tiver mais uma…

– Pode ser a gota d’água.

– Isso!

– Pois é, vejo que você desatinou, mas não se afobe não que nada é pra já. Isso vai passar e amanhã há de se outro dia.

– Espero que passe, El Gigio, mas o que eu faço?

O vidente levantou-se e ofereceu ao jovem um calmante. Pegou no armário um excitante, que tomou com um copo de gim, e pôs na cabeça a faixa branca com olho desenhado que estava atrás da porta. Sentou-novamente, passou a mão na testa e falou:

– Terceiro olho, quero ver o que você diz.

Houve um silêncio que pareceu durar horas, até que El Gigio voltou a falar:

– Escute. Para furar esse filó como você sonha, só se fosse o Rei. Por outro lado… Não, também não vejo você numa construção planejando tijolo por tijolo, num desenho mágico.

– Mas El Gigio! Isso me faz entender que meu futuro não está nem no futebol, nem arquitetura! O que será de mim então?

– Calma, meu guri! Se dizem que Deus dá, Deus dará.

O rapaz então mirou o olho desenhado na faixa e percebeu que ele estava verde, mais verde do que os olhos dele próprio. De repente sua cabeça pareceu fervilhar e aquele momento transformou a sua vida:

– El Gigio, você me deu umas ideias… Tome, esse é quase todo dinheiro que eu tenho! O que me sobrou vou investir num violão! Muito obrigado mesmo!

– Deus lhe pague! Quem te viu, quem te vê, hein! Mas não precisa agradecer, meu caro amigo!

E então o jovem Francisco saiu, batendo o portão sem fazer alarde, tão aliviado que se pegou cantando, sem mais nem por quê.

 

nov 282011
 

 

O casal entra na sala escura e senta-se nas duas cadeiras postas à frente de uma pequena mesa redonda, coberta com uma toalha branca, aonde repousavam uma caneta, poucas folhas de papel e uma caixa de madeira.

Ambos estão ansiosos: ela, para saber sobre o futuro, ele para ir embora o mais rápido possível.

Entra pela porta dos fundos um homem vestido todo de branco,

com cabelos castanhos repartidos ao meio e usando um medalhão dourado com um jacaré em alto-relevo ao centro.

– Boa tarde, amigos, o quê os traz à morada de El Gigio?

– Aff! Se fosse vidente mesmo não precisaria fazer essa pergunta! Vamos Cidinha, vamos embora daqui!

O anfitrião olha serenamente e diz:

– As respostas El Gigio já conhece todas, meu filho, eu quero saber agora é se vocês conhecem as perguntas.

– Viu, Chicão, tomô? Fique quieto e sente aí! O senhor nos desculpe, é que estamos nervosos! Nós estamos com alguns planos e queremos ouvir do senhor se eles vão dar certo.

-Não se preocupe, minha filha, El Gigio está acostumado com a incredulidade.

Chicão sentou-se bravo e ficou quieto. Não queria estar ali e não queria palpite de ninguém. E também não se conformava por ser chamado de “filho” por alguém que parecia ser mais novo do que ele.

El Gigio acomodou-se lentamente na cadeira, pegou a caixa que estava sobre a mesa e tirou de dentro uma faixa branca que amarrou em volta de sua cabeça. Nessa faixa havia um tosco desenho de um olho, feito à caneta e pintado com marca texto amarelo.

– Meus filhos – disse El Gigio – este é aquele que tudo vê. Este é o honorável Terceiro Olho!

– Terceiro Olho? Terceiro olho pra mim é o…

– Calaboca, Chicão! – interrompeu Cidinha – Olha o respeito! El Gigio, o quê o senhor vê?

O vidente olhou fixamente para Chicão antes de fechar os olhos. Depois de alguns segundos, respirou fundo, passou a ponta dos dedos no olho desenhado na faixa, como se estivesse limpando uma lente, e disse:

-Eu vejo que você, minha filha, um dia vai morrer.

-Oh! – surpreendeu-se Cidinha.

-“Oh” por quê? – indignou-se Chicão.

-Shhhhh! Deixe ele terminar! Vai ser logo? Vai demorar?

-O tempo vai ser aquele necessário, nem mais, nem menos. Será contado a partir de agora até o momento final, transcorridos todos os entrementes, os intermédios e as intercorrências naturais e excepcionais que ocorrem no cotidiano, excluídos sempre aqueles outros que sucedem no dia-a-dia, ainda que de noitinha. O tempo sofrerá influência daquilo que é o foco, que é obrigatório, e não o que é supérfluo, sendo que o que é supérfluo não deve ser focado, ou desfocado, na mesma medida ou desmedida daquilo que é obrigatório. Ou não.

– Ah, entendi! – disse ela, pensativa.

– Entendeu?!? – disse ele, surpreso.

-Entendi sim… supérfluo… – disse ela em voz baixa, mas olhando firmemente para ele.

Cidinha se levanta, põe um dinheiro debaixo da caixa de madeira sobre a mesa e sai apressando Chicão, dizendo que precisam ter uma conversa. Ela estava muito satisfeita com a consulta, sua serenidade era completamente diferente do nervosismo da chegada.

Chicão, por sua vez, estava completamente desorientado, mais ansioso do que antes da consulta. Pensou em dizer alguns palavrões para El Gigio antes de sair, mas, depois que olhou para o vidente, as palavras não saíram de sua boca.

A partir daquele instante uma dúvida passaria a lhe assombrar por toda a vida: foi apenas sua imaginação, ou aquele olho mal desenhado à caneta realmente teria dado uma piscadela?