abr 222013
 

 

 Taça Tabacaria

 

Eu não frequentei muitos bares em Franca por um motivo singelo: faltava dinheiro para tanto. Era mais barato comprar cerveja no supermercado e levar para a casa de alguém – e mais barato ainda comprar uma garrafa de cachaça e fazer caipirinha.

Mas em Franca havia nos anos 90 opções para todos os gostos, que iam desde o Copo Sujo, perto da faculdade, até o Café, Tabaco e Drinks, a famosa Tabacaria, que talvez tenha sido o bar mais chique que conheci durante os meus anos de Unesp.

O Copo Sujo, na Saldanha Marinho Major Claudiano, foi fundamental para iniciação de muitos na faculdade. Depois dos bixos cumprirem o rito de fazer pedágio para angariar os fundos necessários, íamos todos para aquele bar para bem gastar o dinheiro arrecadado. Muita gente bebeu em Franca pela primeira vez lá. Muita gente lá bebeu pela primeira vez.

(Existe até uma lenda que envolve esse bar: certa noite estaria uma turma tomando sua cerveja no local quando parou um luxuoso carro em frente. Dele desceu o motorista, que conversou alguma coisa com o cara no balcão e voltou para abrir a porta de trás do veículo. Saiu de lá então um homem de terno branco, barba e cabelos grisalhos, com um corte tipo “cuia” – era o Ray Connif, que tinha uma apresentação no ginásio de Franca naquela data, e que precisou fazer um xixi no nada glamuroso banheiro do Copo Sujo).

 

O pub atrás do Ray Connif não tem nada a ver com o Copo Sujo

O pub atrás do Ray Connif não tem nada a ver com o Copo Sujo

 

No começo da faculdade o pessoal da minha turma frequentava muito o bar do Cacá, que também ficava próximo do antigo prédio da Unesp, mas eu nunca entendi bem o motivo da escolha. Toda vez que íamos lá ele errava na conta – sempre para mais, claro. Na hora de pagar havia desconfiança, briga, xingamentos, mas no dia seguinte os caras voltavam para serem roubados outra vez.

Durante algum tempo fez sucesso o Sal Grosso, que ficava salvo engano, na rua Padre Anchieta  na Estevão Leão Bourroul, esquina com a Saldanha Marinho. O ambiente era legal, era frequentado por francanos e unespianos e algumas mesas ficavam ao ar livre, nos fundos do bar. Foi lá que certa vez um amigo achou que poderia escalar a parede do banheiro, no episódio que ficou conhecido como A Noite do Homem Aranha.

O point da noite francana sempre foi a Champagnat, e vários bares abriram e fecharam naquela avenida que sempre ficava cheia nos finais de semana. O maior sucesso era o Picanha na Tábua, que funciona até hoje. Muitos sábados foram passados do lado de fora do Picanha, com uma cerveja na mão, comprada em um bar mais barato.

Dentre os vários estabelecimentos que existiram na avenida lembro de um bar mais alternativo, acho que o nome era Trindade Tapekuá. O ambiente rock and roll/bicho-grilo não agradou a todos e por isso aquele bar não durou muito.

Também não teve vida longa a já a citada Tabacaria, que era o inverso do Tapekuá, pois apostava na sofisticação e buscava um público mais selecionado. Eu me lembro de ter ido uma única vez, e só porque era o Dia do Pindura. Na saída nós trouxemos dois copos como “lembrança” do estabelecimento, e um desses estava guardado com o Helton e ele me devolveu no final do ano, como demonstra a foto acima.

Não mencionei o Bar do D.A. entre esses todos porque ele era um caso à parte. Muitas coisas aconteceram ali, e talvez a maioria delas não deva sequer ser lembrada…

 

 

 

mar 192013
 

 

Reforma Madre Rita

 

 

Eu já contei que cheguei em Franca e fui recepcionado pelo Adolfo, que me levou para ficar uns dias em sua casa. Também contei que montamos a República Saudosa Maloca, e que esta teve dois endereços: na Prudente de Moraes, perto da Prefeitura, e na Madre Rita.

A mudança de uma casa para outra aconteceu em 14 de março de 1997. Lembro-me com exatidão da data porque no mesmo dia foi o aniversário do Tomas, que chegou pouco antes para morar conosco. Para fazer uma graça, eu, o Helton e o Alessandro combinamos de não parabenizar o aniversariante e surpreendê-lo no final do dia, depois de já instalados no novo domicílio.

Foi uma grande ideia estúpida. No final da mudança estávamos cansados demais para comemorar qualquer coisa, e quando demos os parabéns para o Tomas não pareceu que fazíamos uma surpresa, mas sim que nós tínhamos nos esquecido de seu aniversário e que improvisamos uma comemoração xôxa.

Contei essa história porque o dia 14 passou e eu não liguei para o Tomas para dar os parabéns. Será que desta vez ele acreditará que foi para fazer uma surpresa?

 

 

dez 122012
 

 

 

A minha colação de grau aconteceu em um sábado, no mesmo dia do baile de formatura. Passei festa toda sem ingerir uma só gota de álcool porque logo na manhã seguinte teria que encarar a prova da primeira fase do Exame da Ordem.

Essa foto aí, com esse modelo desengoçado, foi feita logo na entrada do salão, no dia 12 de dezembro de 1998.

A XI Turma de Direito, que recebeu o nome “Prof. Dr. Nelson Nery Junior”, já tem 14 anos.

 

 

nov 202012
 

 

 

Ir para Franca era uma viagem que tomava, pelo menos, sete horas do meu dia.

Na maioria das vezes eu ia às segundas, e embarcava em Jacareí às 9h para pegar o Cometa das 10h45. Era meio corrido mas eu gostava desse horário porque geralmente o ônibus ia mais vazio. No terminal do Tietê eu só tinha tempo para comprar uma água, um jornal ou uma Veja (pois é, eu fiz muita besteira quando mais jovem) antes das 5 horas de estradas que viriam em seguida.

Naquela época não havia Ipad, smartphone, mp3 nem gameboy, então para matar o tempo eu tinha um walkman e umas fitas k7 – eventualmente levava um tetris. Sentado sempre na poltrona 43 (a última do lado direito, antes do banheiro), eu me esparramava torcendo para ninguém ter comprado a 42, e seguia para muitas horas de calor no indefectível Flecha Azul, que não tinha ar condicionado e cheirava desinfetante de lavanda.

A parada era feita no Rosim, em Pirassununga, que tinha uma máquina de coca-cola do lado de fora do restaurante em que a lata era mais em conta do que a vendida lá dentro. Eu comprava então um salgado e saía para comer, economizando uns trocados com o refrigerante.

Sinto muito desapontar você que chegou até aqui esperando uma história pitoresca daqueles dias, mas nunca aconteceu nada na ida que valesse nota. Aquelas viagens eram de um tédio total, agravado pela estrada reta que trazia apenas canaviais em ambos os lados.

Para não acabar esse texto assim, sem mais nem porquê, segue abaixo o link para uma música que marcou aquela época. Lembro-me até que foi numa dessas viagens que li na Folha uma matéria sobre o lançamento do disco do Oasis, em que um empolgado repórter finalizava dizendo “Beatles fez primeiro, Oasis faz melhor”.

Ah, essas besteiras que os repórteres escrevem quando jovens…

 

 

out 272012
 

 

Eu já contei que quando cheguei em Franca fiquei quase um mês na casa do Adolfo, antes de montarmos a república.

Embora eu tenha sido extremamente bem tratado lá, os primeiros dias em uma cidade estranha não foram muito fáceis. Eu ainda não tinha amigos na faculdade e todos na casa do Adolfo trabalhavam, então eu passava o dia todo sozinho.

Uma tarde eu estava mexendo nos LPs do meu anfitrião e encontrei um disco com essa música que tem a frase “Essa casa não é minha e nem é meu esse lugar”. Os primeiros dias de minha travessia em Franca ficaram marcados por Milton Nascimento.

Lembrei dessa canção nesses últimos dias, que em sua versão original é sem dúvida alguma uma das mais belas da MPB:

 

 

Elis Regina também cantou Travessia, e a sua interpretação adicionou uma carga maior de drama e tristeza:

 

 

E até a islandesa Bjork gravou uma versão, cheia de sotaque e simpatia:

 

 

Vou seguindo pela vida…

 

out 242012
 

 

 

Para quem não conhece a história do Che mencionada no post anterior, lá vai:

Quando jovem, em plena ditadura militar, o professor Clóvis enfrentava o regime sob o codinome “Carapaó”, tendo inclusive ingressado na resistência armada.

Foi justamente num treino de guerrilha em Cuba que o nosso herói viu uma cena que jamais poderia admitir: Che Guevara, um dos pais da Revolução, deliciando-se com uma Coca-Cola. Caparaó não teve dúvida e foi até o argentino, tirou o refrigerante de suas mãos e desferiu-lhe um violento tapa na cara.

– Isso é coisa de imperialista! – disse o brasileiro antes de jogar a garrafa no chão.

Che pediu perdão e foi expiar sua culpa nas selvas bolivianas.

***

Como o próprio Clóvis contava sua história de maneiras diferentes, pode ser que outras versões estejam disponíveis por aí.

E antes que você imagine que tudo nessa história de Caparaó era mentira, dê uma olhada nisso.

 

out 232012
 

 

 

Com certeza você já viu um episódio qualquer em que todos estão falando ao mesmo tempo na sala de aula, até que de repente ficam em silêncio e sobra apenas o Chaves fazendo um comentário inconveniente em voz alta sobre o “Professor Linguiça”.

Aconteceu algo semelhante certa vez na faculdade, mas o protagonista foi o Evandro Limão. Sentado na primeira fileira, ele estava com o corpo virado para trás e não viu quando professor entrou. Todo mundo ficou quieto, menos nosso amigo, que soltou um sonoro “Ah, Dilão, vai si fudêêêê…”, com seu característico sotaque de Andradas.

O Limão conseguiu a proeza de ter sido posto para fora da sala de aula em plena faculdade, pois o Professor Volney foi menos tolerante que o incansável Meste Lingui…, digo, Professor Girafales.

***

 

 

O Helton teve mais sorte em outra oportunidade, mas não deixou de tomar um esculacho.

Certa noite estávamos esperando pelo início da aula quando um funcionário da faculdade entrou na sala e afixou próximo à porta um quadro com notas dos alunos. Foi o suficiente para todos se aglomerarem tentando ver os próprios desempenhos, o que causou um tumulto digno de Escolinha do Gugu. De repente, o interruptor foi desligado por um toque involuntário (?) de alguém (Nakano?) e as luz foram apagadas.

No momento que a sala ficou escura o Helton sentiu uma mão sobre o seu ombro, que num reflexo foi afastada com um “sai fora!”. A resposta imediata veio em alguns tons acima:

– VAI SENTAR NO SEU LUGAR, RAPAZ!

Era o saudoso Professor Clóvis, que numa explosão de fúria quase derrubou o cachimbo. Dizem que a última vez que ele tinha ficado tão nervoso foi quando viu o Che Guevara tomando uma coca-cola.

***

 

 

Não sei se continua assim, mas o quinto ano de Direito da Unesp era dividido por áreas de concentração de matérias. Assim, quem quisesse aprofundar nos estudos de Civil e Processo Civil fazia a área 5, para Direito Público era a área 1, etc.

Uma noite um pessoal da área 2 entrou na sala para contar como eram as suas aulas, e o Helton questionou se a matéria de Previdenciário era boa. A pergunta soou meio sem sentido para todos que ali estavam, mas eles responderam que as aulas eram excelentes. O Helton, contudo, não se deu por satisfeito:

– Mas é que eu ouvi falar que a professora falta muito, quase não dá aula!

Constrangida, uma das presentes respondeu:

– Não, imagine, que é isso! EU quase não FALTEI, não é gente? Nós tivemos muitas aulas neste ano…

Tudo bem que o Helton tenha se deixado enganar pelo fato da professora ser jovem e bonitinha, mas nesse momento ele deveria ter percebido a mancada que estava dando, afinal, ela falou em primeira pessoa. Mas ele continuou fazendo o papel de aluno da Escolinha do Professor Raimundo e insistiu:

– Ah, não sei não, eu ouvi muita reclamação que a professora falta muito…

Todos ficaram sem graça, e o pessoal que veio falar do curso saiu incrédulo com o arrojo do meu colega. Eu também estranhei, por isso questionei de um jeito bem sutil sobre o que tinha ocorrido:

– Caralho, Helton! Que merda foi essa? Isso é jeito de falar com a professora?

– Que professora! – perguntou ele?

Expliquei para ele o que tinha feito, e ele saiu correndo da sala para pedir desculpas. Acabou voltando matriculado como aluno ouvinte no curso de Previdenciário, mas ele não conseguiu fechar a matéria – a professora faltava demais mesmo.

***

“Ah, Wagner, você contou dos seus colegas, não tem nenhuma história sua não?”
Não me lembro de nenhuma, mas a minha memória anda muito seletiva… Se alguém quiser contar alguma coisa que use a caixa de comentários…

 

set 052012
 

 

 

Eu estava na biblioteca, lendo os jornais que ficavam sobre o balcão na entrada, quando chegou o Marcio falando sobre a possibilidade de formarmos uma república. Com ele estava o Helton, com um daqueles bonés australianos sobre a cabeça raspada, que não pareceu muito entusiasmado com a proposta que estava sendo feita. Na hora achei que ele não ia com a minha cara pois já nos conhecíamos do Miss Bixo de poucos dias antes.

(Miss Bixo era o evento da segunda noite da semana de trotes, na qual os calouros homens desfilavam com vestidos, perucas e meias arrastão em um palco improvisado no D.A., local das festas da faculdade. Era uma esbórnia, claro, mas falarei mais dos trotes em outra oportunidade).

Naqueles primeiros dias de aula era assim, estávamos todos nos conhecendo, nos ambientando a Franca e aos francanos, então não tínhamos muita noção de como iríamos nos acertar nem com quem iríamos viver. Tudo o que queríamos era achar logo um lugar para morar para sairmos das pensões ou das casas aonde estávamos abrigados, ainda que estivéssemos sendo bem tratados.

Mas montar uma república era fazer uma aposta. Não havia como saber se aquela pessoa com quem iríamos morar era alguém confiável, ou higiênica, ou mentalmente equilibrada, etc. Poucas foram as repúblicas que duraram os cinco anos de faculdade sem grandes modificações no seu “elenco”, e tenho a impressão que era mais difícil ainda para as mulheres, que são naturalmente mais competitivas entre si. Não conheci uma república feminina que tenha durado muito, em compensação, sei de muitas garotas que moraram em um lugar diferente a cada ano.

Estranhei então quando o Helton, já sem o Marcio (que foi morar com uns veteranos e passou a ser conhecido como Dois) veio me convidar para a república que estava montando com o Alessandro, o rapaz de Avaré que também estava na nossa turma. Eles tinham achado uma casa para alugar na Prudente de Moraes, perto da prefeitura de Franca, e queriam mais dois para dividir as despesas.

 

A Prefeitura da Franca, nossa vizinha

 

A casa ficava a uns 20 minutos de caminhada da faculdade e era uma edícula de cômodos pequenos, construída em “L”, com um quarto em cada uma das extremidades. Na frente do imóvel tinha um ponto comercial, que no início era ocupado pela Barbearia do Samuca – o babeiro que fazia jogo do bicho e passava as tardes tomando umas doses de cachaça entre um corte e outro. Depois que o Samuca foi embora o lugar virou uma sorveteria, mas  nós nunca comprávamos sorvetes dali porque víamos os ratos que frequentavam o estabelecimento.

Moramos eu, o Helton e o Alessandro por algum tempo, até que chegou o Luiz Gilberto, que veio de São Paulo e entrou na faculdade um pouco depois do início das aulas. Estava formada a República Saudosa Maloca – nome que, salvo engano, foi adotado após eu ter retornado certa vez de Jacareí cantando o famoso samba dos Demônios da Garoa.

A formação original durou até o terceiro ano, quando então o Luiz preferiu ir morar sozinho. Foi uma saída talvez não muito bem explicada, mas sem traumas, tanto que ele continua um grande amigo – não faz muito tempo esteve em minha casa pilotando a minha churrasqueira.

 

O Luiz é corintiano mas é boa gente.

 

Com a saída do Luiz veio o Tomas, ribeirãopretano que chegava a Unesp para cursar o primeiro ano. Foi nessa época mudamos para a casa da Madre Rita, que era bem mais próxima da faculdade. A chegada do novato Tomás foi uma grande oportunidade para que pudéssemos passar toda a nossa experiência de veteranos, mas acho que isso talvez o tenha traumatizado de alguma forma.

 

Dando aquela força à Seleção do Zagallo, durante a Copa da França

 

O Alessandro morou os cinco anos na república, contudo, hoje eu não tenho mais contato com ele. É uma pena, sempre nos demos muito bem e eu sinto saudade daquele cara.

Quanto ao Helton, já perguntei a ele se realmente não estava contente quando o Marcio Dois veio falar comigo, mas ele disse que não se lembra disso. Deve ter sido só impressão minha mesmo, afinal, além de termos morado juntos durante toda a faculdade, hoje somos padrinhos de casamento um do outro e quase todos os dias mantemos contato através de e-mails ou de ligações.

 

Formatura da XI Turma, em 98 – os últimos dias da Saudosa Maloca.

 

 

 

 

maio 032012
 

 

Praça Dom Pedro II, mais conhecida como Praça do Itaú

 

Não é fácil fazer faculdade em outra cidade. Ainda mais quando essa outra cidade fica a mais de 400 km de onde você mora.

Além de se habituar aos usos e costumes locais, você ainda tem que passar a morar sozinho ou, como faz a maioria, começar a morar com estranhos em uma sociedade informal chamada república – que é algo que tem tudo para dar errado, mas de vez em quando dá muito certo.

Antes de encontrar os caras certos e montar uma república, porém, fui recebido em Franca pelo Adolfo, que eu tinha conhecido brevemente em uma reunião nos meus tempos de Mocidade Espírita. Ele já tinha se formado em História pela Unesp, e quando liguei pedindo um auxílio o fato de não se lembrar de mim não o impediu de ser excepcionalmente prestativo.

Lembro-me perfeitamente do dia que cheguei em Franca pela segunda vez – a primeira tinha sido no dia da matrícula. Peguei um ônibus da rodoviária até o centro e desci na praça do Itaú, por volta da hora do almoço. Enquanto procurava pela imobiliária aonde o Adolfo trabalhava passei por várias lojas que, sintonizadas numa mesma rádio, tocavam um música que tinha o significativo refrão:

Life will never be the same

Life is changin’

Como aquele era o poperô de sucesso da época a música foi me acompanhando enquanto eu caminhava. Era uma  trilha sonora aburdamente apropriada, que me fazia rir sozinho enquanto andava pelo calçadão da Marechal Deodoro.

Quando encontrei o Adolfo, que trabalhava bem em frente à Unesp, achei que ele iria me indicar algum lugar para ficar, mas ao invés disso ele me levou para sua casa e sua família me acolheu por quase um mês – mesmo depois que seu pai me achou dormindo dentro do seu carro (na primeira noite do trote eu voltei tarde, todo sujo, pintado, com farinha por todo corpo, e não tinha as chaves para entrar na casa).

Depois daquela noite os pais do Adolfo me deram uma cópia da chave da porta. E passaram a trancar o carro.

***

Um dos grandes erros que cometi na vida foi nunca ter agradecido devidamente ao Adolfo e sua família por tudo o que fizeram por mim.

***

A música de que falei é Life, de um tal de Haddaway. Não é o tipo de canção que gosto, mas pra esta eu abro uma exceção.

 

 

mar 152012
 

 

No antigo prédio da Unesp de Franca a quadra ficava localizada bem no centro do estacionamento, e ali aconteceram momentos inesquecíveis, como quando usaram um rodo, álcool combustível (naquela época não se falava em etanol) e fogo para secá-la depois de uma chuva. Ou quando, num jogo de basquete, um dos caras da turma do Kadett fez uma cesta contra – ele pegou o rebote na defesa, arremessou contra o próprio aro e ainda saiu comemorando, para espanto de seus colegas de time.

A quadra foi um dos principais pontos de integração da faculdade, e no meu primeiro ano os frequentadores mais presentes éramos nós bixos e os quintoanistas, dentre eles o Auro, o Rui, o Cassilândia, o Sidnei e o Alexandre. Todas as quartas e sábados era obrigatório ir para a biblioteca levando a mochila com tênis e meião, e quando se aproximava as 16h sempre tinha um que passava de mesa em mesa chamando os colegas para os rachões de 10 minutos ou dois gols.

Mas não só de grandes momentos do esporte vivia aquela quadra. No meu primeiro jogo ali, por exemplo, causei uma certa confusão em uma partida entre os bixos e o pessoal do segundo ano. Num lance mais “afoito” de minha parte acertei o Edilson (ou Dilson, ou Adilson, ou algo assim – me recordo que ele era gente boa e que sempre estava com as mãos por baixo da camiseta) e os veteranos ficaram revoltados com a minha “ousadia”.

O Renatão então entrou no jogo e quase não pegou na bola, seu interesse era somente me peitar e me empurrar. Como eu ainda não conhecia meus colegas bixos, fiquei em um dilema – deveria usar a sensatez e sair, já que o Renatão era maior e tinha mais amigos do que eu naquele momento, ou eu deveria bancar o besta e ficar em quadra para não ser marcado com bunda-mole já no primeiro ano? Nem preciso dizer que, como sou uma besta, fiquei, mas acabei não apanhando porque perdemos (roubado, o juiz era veterano) e o Renatão queria apenas dar uma apavorada. Depois disso ele veio convesar comigo e demonstrou ser um cara legal.

Na quadra ainda ocorriam as nossas indefectíveis aulas de Educação Física, feitas junto com o pessoal do quinto ano. É óbvio que, em Franca, o professor sempre nos colocava para jogar basquete, e no primeiro dia ainda estávamos fazendo o aquecimento quando arremessei duas bolas que caíram lindamente dentro da cesta. Graças a isso eu fui o primeiro a ser escolhido quando montaram os times, contudo, para decepção geral aqueles foram os únicos arremessos que acertei durante toda a minha vida acadêmica.

Mas o momento mais glorioso daquela quadra foi quando fomos campeões do interclasses e eu defendi os pênaltis na final. Como naquele torneio jogou um africano que veio de Cabo Verde, e tinha um outro que era chamado de Miguelito – de raízes ibéricas, portanto – é evidente o caráter internacional do campeonato, assim, se o Corinthians diz que é campeão mundial por ter vencido o Vasco no Maracanã, e o Palmeiras quer o reconhecimento de um torneio disputado no Rio em 1951, é justo que a FIFA nos declare como os primeiros Campeões Mundiais Interclasses de Futebol de Salão Universitário A Céu Aberto de 1998.

Um dia a Atlética da faculdade vai poder usar uma estrela no peito graças a nós, mas nem é necessário agradecer. Basta batizar a quadra do campus novo com meu nome, só isso.