nov 032016
 

 

mussarela

 

A lanchonete estava lotada, e por isso Bolívar se achou com sorte quando viu a mesa vaga no meio do apertado salão. Como os assentos eram todos muito próximos, ele pediu licença aos rapazes que estavam ao lado antes de se sentar, evidenciando seus modos de homem interiorano de meia idade.

Um desses moços vestia uma camisa verde, tinha barba rala e era baixo. O outro tinha pele bem clara, usava camisa polo azul e também tinha pouca barba. Ambos usavam botons de apoio à candidatura a um político engajado. E os dois estavam de mão dadas sobre a mesa.

Bolívar reparou nos rapazes, mas não se incomodou em dividir o espaço com o casal. Por estarem sentados tão próximos era possível ouvir que os moços conversavam normalmente sobre praia e faculdade, e Bolívar percebeu que não falavam nada de diferente de outros casais em um final de dia no Rio de Janeiro.

O garçom chegou rapidamente e anotou os pedidos de todos de uma só vez: dois pedaços de pizza de mussarela para os rapazes; um pedaço de pizza portuguesa para Bolívar. Os moços pediram suco, já o senhor, uma caneca grande de chopp.

Enquanto aguardava ser atendido, Bolívar refletiu como o mundo havia mudado nesses anos todos. Antigamente seria impossível que dois homens externassem ser um casal. E antes, certamente, ele teria se escandalizado com a situação. Mas agora ele estava na Cidade Maravilhosa e aprendia cada vez mais a conviver com a diversidade.

Para uma pessoa que sempre se definiu como um brucutu, não ter se importado com os rapazes gays era um grande avanço, e por isso Bolívar sentiu orgulho de si mesmo ao constatar seu progresso. Se até ele era capaz de respeitar as diferenças, quem sabe não haveria um momento em que todos pudessem ser mais tolerantes uns com os outros?

Enquanto divagava, os pedidos chegaram. Bolívar bebeu um longo gole de chopp e solicitou que o rapaz da camisa polo lhe passasse o azeite. Nesse momento, porém, o homem viu algo que o deixou transtornado e o fez levantar abruptamente. Enojado, disse rudemente para os rapazes:

– A minha tolerância tem limites!

O homem nascido no interior aprendera a respeitar as pessoas, por mais diferentes que fossem, mas ainda não estava pronto para presenciar a terrível imagem do rapaz da camisa verde colocar maionese e ketchup na pizza de mussarela.

Traumatizado, foi embora do Rio e nunca mais voltou.

 

 

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jan 312013
 

 

Campo do Elvira

 

Uma das personagens mais conhecidas em Jacareí durante a minha infância foi a Maísa, uma travesti mulata, de 1,80m, capoeirista e musculosa, que andava por toda a cidade de vestido e sandália.

Lembro-me de ir com meu pai algumas vezes nos domingos de manhã ao Bar do Mané, aonde eu comia kibe com Guaranita enquanto ele e seus amigos jogavam dominó. A Maísa entrava, fazia uma festa com todos, cumprimentava o meu pai pelo nome (“Tadeu”) e a mim pelo apelido (“Tadeuzinho”).

Dentro do bar muitos faziam piadas e brincadeiras com a Maísa, mas meu pai não gostava disso. Além de ser um postura de tolerância, também havia muita sabedoria em sua atitude, como descobri depois.

Em certo domingo o JAC disputava no Campo do Elvira uma partida pela 2ª ou 3ª divisão do Campeonato Paulista, e no intervalo do jogo eu, meu pai e meu irmão descemos das arquibancadas para irmos à lanchonete, quando então vimos a Maísa abrir um clarão no meio dos espectadores ao pegar pela gola da camisa um cidadão que antes havia lhe insultado. Ela levantou o rapaz até deixá-lo suspenso no ar e tascou-lhe um beijo na boca, enfiando-lhe a língua enquanto as pernas do indivíduo balançavam desesperadamente sem tocar o chão. Terminado o ato, Maísa jogou o cara contra o alambrado, deu-lhe uma encarada e saiu no meio do pessoal, que abriu passagem.

Meu pai aproveitou a oportunidade para compartilhar um ensinamento:

– Viram isso, meus filhos? Independentemente de sexo, cor ou religião, é muito importante tratar os outros com educação e respeito.

Eu e meu irmão consentimos com a cabeça, pelo que meu pai então completou:

– Principalmente quando esse outro é muito mais forte do que você…

***

A Maísa morreu faz algum tempo.

O Estádio do Elvira foi demolido para virar um condomínio.

E o meu pai também já se foi, hoje completam-se 12 anos.