nov 032014
 

 

vampire

 

Ela acordou graças à chuva, mas antes que desse conta que a janela deveria estar  fechada percebeu a figura soturna que a espreitava à beira da cama.

O natural seria que se assustasse com aquele estranho enrolado em uma capa vermelha, de olhos inexpressivos e pele muito branca, mas foi com surpreendente serenidade que perguntou:

– Quem é você? O que faz aqui?

– Vim atender ao teu chamado. Foste tu que me invocaste.

– Como assim? Não chamei ninguém, nem sei quem você é!

– A cada momento de tristeza suplicavas por esquecer. Pois toda prece é ouvida, toda graça se alcança.

– Do que você… Como você sabe?

O homem não respondeu. Olhou pela janela e fitou a chuva que caia. Depois de algum silêncio, ela fez outra pergunta:

– Eu vou morrer?

Pela primeira vez ele a encarou. Disse calmamente que não, quer ela não morreria naquela noite. “Não vim levar a tua alma, mulher, isso é para outro”.

– Você é… um anjo?

– A figura do vampiro me é mais familiar – respondeu ele, com um discreto sorriso no canto da boca – Mas não é de sangue que me alimento.

A mulher sentou na cama e puxou a coberta para cobrir o corpo. A chuva estava mais intensa, mas o frio parecia vir de dentro do próprio quarto.

– O que você vai fazer?

– Vou levar comigo as tuas memórias.  Mas não todas. Só me interessa o que te oprime. Deixarei no lugar apenas um brilho que será eterno.

– Mas se eu esquecer não vou cometer os mesmos erros novamente? Como ficam minhas experiências?

– Achas que tuas lembranças te livrarão de desacertos futuros? Que não voltarás a sofrer pois já passaste pela dor? A experiência é um valor inútil para determinados assuntos.

– Eu não sei o que pensar…

– Receba isso como uma benção, pois até mesmo teus equívocos tornar-se-ão momentos de mero aproveitamento.

A mulher abaixou a cabeça e manteve-se quieta, enquanto o homem se aproximou lentamente. Quando se reergueu escorriam lágrimas por seu rosto, então ela falou com os dentes cerrados “Faça!”.

O homem de capa pôs uma mão sobre cada ombro da mulher e aproximou-se lentamente do rosto, enquanto sua boca abria cada vez mais, até ficar grande o suficiente para que a cabeça dela coubesse toda e fosse engolida em um único movimento.

Foi com um grito que ela abriu os olhos e se viu novamente deitada. Já era de manhã, e quando tentou lembrar-se do estranho sonho que teve foi distraída pela poça d’água à beira da cama.

Naquele dia o sol brilhou com mais força, mas apesar de uma inexplicável alegria por estar viva, ela não sentia amor nenhum.

 

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