nov 192015
 

 

 

Tijolos

 

 

O advogado recebeu o telefonema tarde da noite e se dirigiu para a delegacia:

– Boa noite, Dr. Coimbra. O que está acontecendo?

– Boa noite. Dr. Gregório! Pode ser algo grave, então resolvi chamá-lo com urgência. Eu cheguei agora à pouco e encontrei o suspeito dentro da carceragem, com a roupa encharcada de água e o algo que parece ser sangue. Ele disse que tem algo para contar, mas que só falaria se o senhor viesse representá-lo.

– Qual o nome dele, doutor?

– Ele não disse. Só ficou repetindo que queria a sua presença. Eu não estava aqui quando o prenderam, e o único escrivão do plantão saiu para lanchar sem me falar nada.

– Deixe-me então conversar com esse meu cliente misterioso. Peço apenas que nos deixe a sós.

O delegado apontou o já conhecido caminho entre pilhas de inquéritos, antigos móveis de madeira e computadores de gerações passadas. Nos fundos do imóvel havia uma pequena sala fechada com grades de aço. O homem lá dentro esperava sentado em um banco de alvenaria, com a cabeça abaixada, e se levantou enquanto o advogado dizia:

– Boa noite! Sou eu, Gregório, advogado, em que… Você!?

– Boa noite, Gregório. Finalmente nos falamos.

O advogado não esperava encontrar aquele homem, muito menos naquele estado, com a roupa e os cabelos molhados e a camisa suja de sangue e barro.

– O que aconteceu? Por que você me chamou aqui?

– Conheço a sua fama, doutor. Aliás, as suas famas… E pelo que vejo, sabe também quem sou eu.

– Claro que sei quem você é!

– O importante é que eu preciso dos seus conhecimentos, e eu sei que pode ajudar.

– O que você fez?

– Enquanto não chegava eu estava aqui pensando justamente em tudo o que fiz na vida. Me lembrei de quando era pequeno e caçava passarinhos pelas estradas de terra. Era tudo tão mais simples quando eu era criança… Eu tinha uma mira boa, acertava aqueles passarinhos com minha espingardinha de chumbo até que um dia comecei a ter remorso e passei a errar tiros fáceis.

– Do que você está falando?

– Estou falando que o remorso atrapalhou a minha mira, doutor. Mas acho que falar de remorso é algo estranho para um advogado… Ainda mais para você…

– Cadê a Amélia?

– Sabia que iria perguntar dela… Sei de muitas coisas, na verdade… Sei que você nunca parou de pensar nela, não é mesmo?

– O que fez com a Amélia?

– Eu a amo, sabia? Mesmo agora. Mesmo depois de tudo. Eu era louco por ela.

– Eu sei que você é um desequilibrado!

– Deve doer então que ela tenha me escolhido, não é?

O advogado respirou profundamente antes de continuar a conversa:

– Cadê a Amélia?

– A Amélia mudou, sabia? Coincidentemente, isso aconteceu depois que você voltou para a cidade. As pessoas não enxergam, mas eu sei que nem tudo fica do mesmo jeito para sempre. Ninguém se dá conta que o tijolo, antes de ser tijolo, era barro.

– Que merda é essa que você está falando?

O advogado se aproximou da grade, mas o suspeito não se moveu e disse com os dentes cerrados:

– Eu sempre te odiei!

– Você ficou com Amélia. Vocês se casaram. Por que então que me odeia, eu que deveria…

– Sim, eu me casei com ela, ela me escolheu… Mas porque VOCÊ não quis! Porque você não teve coragem de largar tudo pra ficar com ela, como EU fiz!

– Eu não te devo explicações.

– Você é um filho da puta, doutor. Tão filho da puta que fez ela continuar a pensar em você mesmo estando comigo esses anos todos.

– Eu não fiz nada, você que é doente!

– Sou, é? Pois eu sei que vocês se falavam! Então confesse! Confesse que você se encontrou com ela! Confesse que vocês estavam saindo! DIGA QUE ELA ESTAVA ME TRAINDO COM VOCÊ!

– Eu não vou dizer nada disso, seu doente desgraçado! Você quer o quê, que eu justifique seus atos? Eu não tenho nada para tratar contigo, seu demente! Vou chamar o delegado aqui e você que se acerte com ele!

– Não! Não! Eu preciso de você! Eu nunca imaginei que iria parar no fundo do poço, muito menos que você iria me ajudar a sair, mas tem que ser você!

– Você a matou, seu filho da puta? Você matou Amélia?

– Eu ainda a amo, e tudo o que fiz até então foi por esse sentimento. E agora que não tenho mais salvação, o que sinto é tão forte que me faz chamar o velho amor para ajudá-la…

O homem encarcerado abaixou a cabeça novamente:

– De tudo o que senti… De toda a paixão, de todo ódio, ciúme, remorso… Tudo o que ficou foi confusão… E a ironia de juntá-los novamente…

– Cadê ela, porra? Diga aonde ela está!

– Dizem que você é inteligente, Gregório. Que é perspicaz. Eu já dei todas as dicas de onde encontrá-la. Você tem que fazer a sua parte também.

– Dicas? Que dicas? Você ficou falando um monte de bobagens sobre passarinhos e…

O advogado parou e pensou nas palavras que o suspeito dissera, e então saiu correndo pela delegacia. O delegado estava na calçada fumando, e ele se assustou ao ver Gregório tão afobado, chamando-o para ir ao carro:

– Vamos, vamos, rápido, ela está em perigo!

– Mas que porra…

– Eu te explico no caminho, vamos rápido, talvez possamos salvá-la!

O delegado entrou correndo na delegacia, pegou as chaves da viatura e ao sair deu de cara com o escrivão, que voltava da pausa para o lanche.

– Homero, entre em contato com o resto de pessoal e coloque-os em alerta. Eu vou dar mais notícias pelo rádio do carro. Não deixe o preso da carceragem sair de jeito nenhum!

– Mas que pr…

Não foi possível ouvir a pergunta do escrivão, o delegado já estava entrando no carro e saindo em disparada antes que a frase terminasse. Com o giroflex ligado, a viatura correu pelas ruas da pequena cidade chamando a atenção dos poucos que transitavam àquela hora. Em instantes, já tinha se distanciado do centro e tomado a via de terra conhecida como Estrada dos Pássaros, em direção à velha olaria.

A porteira estava aberta e o carro entrou sacolejando, até parar próximo a um automóvel parado ao lado de um barracão abandonado. Os faróis da viatura iluminavam um poço, a cerca de trinta metros de distância, e havia alguém sentado na borda.

Gregório parou de correr quando viu Amélia. Ela estava chorando, nas mãos havia uma arma:

– Eu não queria, ele que tentou… Eu lutei…

O choro ficou mais forte e ela parou de falar ao abraçar o velho conhecido.

O delegado usou uma lanterna para procurar pelos arredores, até que chegou no poço. Ao ver o corpo do homem mergulhado na água, sentiu um frio na espinha.

Aquela seria a ocorrência mais difícil para relatar em toda sua carreira.

 

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ago 222014
 

 

braveheart 2

 

Como os exércitos medievais, as duas torcidas estavam paradas frente a frente, separadas por uma centena de metros, esperando o momento do confronto. Armados de paus, pedras e bombas caseiras, os torcedores aguardavam a ordem dos líderes, que se aproximaram para um último diálogo:

– Mano, é melhor ocês dexá a rua pa nóis. Dá a volta e sai na boa.

– Cê tá me tirando? É melhor ocês saí de fininho, que agente vamo passá.

– Truta, é o seguinte, nóis que vamo reto e ocêis vão abri o caminho, tá ligado?

– Deixa de sê loki e sai de banda, senão vamo tê que tirá oceis da frente, véio.

– Neguinho, cês são folgado. Tô vendo que vão precisá aprendê uma lição hoje…

– Não adianta ficá com conversinha não que nóis num tem sangue de banana!

– Sangue de banana?

– Sangue de banana, véio! Num tá ligado?

– Nunca ouvi falá de sangue de banana!

– É uma jeito de falá, uma expressão, que significa que a pessoa não tem sangue frio. “Num tenho sangue de banana porque num aceito desaforo”, tá ligado?

– Eu tô ligado na  expressão, mas num é assim que fala! É sangue de batata. “Num tenho sangue de batata por isso num fico quieto”, entendeu?

– Cê tá zoado? Nada a ver sangue de batata! Batata nem tem sangue!

– E banana tem?

– Vixi, véio, danou-se. Banana tamém não tem sangue não…

Um torcedor que tem cara de bandido de filme de faroeste gritou do meio da turba:

– E aí, maluco, vai ter o quebra ou num vai? – e bateu com um taco de beisebol a palma da mão esquerda.

– Segura a onda aí, chegado, que nós tá num impasse aqui! – respondeu o líder antes de perguntar ao seu rival:

– Mas e aí, truta, é sangue de batata ou sangue de banana?

– Cara, eu tinha certeza que era sangue de banana, mas depois que ocê falou já num tenho certeza.

– A língua portuguesa é complicada, né não, véio? Mas acho que isso é fruto da diversidade cultural do povo, que faz surgir expressões idiomáticas cujos significados variam de acordo com a região, tá ligado?

– Cê tá certo, véio. As expressões surgem do contato direto com a língua, na socialização dos indivíduos, certo? É necessário observar o contexto do uso para se obter o significado de cada expressão, com os valores nela expressos.

– Só!

– Só!

Nesse momento chegou a polícia militar, que veio para intervir no conflito. Montado em seu cavalo, o oficial comandante foi até os líderes e disse:

– Ei, vocês, vamos dispersar! Não quero quebra-quebra aqui hoje não! Não vai ter briga  nenhuma aqui!

– Autoridade, fica tranquilo que nóis tá de boa. Acho até que já perdi a vontade de entretá hoje, cê me desculpa mano – disse isso para o seu rival.

– Fica sussa. Tamém perdi a vontade de socá os nego. Essa história do sangue aí me deixô encafifado.

– Sangue? Que sangue? – perguntou o policial.

– É que nóis ficôu aqui discutindo se o certo é falá sangue de batata ou sangue de banana, senhor, e num chegamo nos finalmente. Nóis ficô nesse impasse aí e até perdemo o tesão de brigá, me desculpe a expressão, senhor.

– Você dois estão errados. A expressão correta é sangue de barata!

– Eita, autoridade, tem certeza que é sangue de barata, senhor?

– Absoluta.

– Oxi, quem diria que é barata! Até faz sentido, que barata tem sangue! – disse o torcedor ao seu rival.

– Pois é, véio. Sangue de barata é mais manero até de falá!

– Aí,  zé ruela, fica ocê então sabendo que nóis não tem sangue de barata!

– Então, cozido, ocê fica também sabendo que nóis tamém não tem sangue de barata!

– Num tem mesmo? Então pega nóis, mardito!

– É fácil, maluco, cai dentro, desgraçado!

E naquele momento começou uma das maiores brigas já vistas entre duas torcidas e a polícia, e que teve como  única vítima inocente a coitada da  língua portuguesa.

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jun 232014
 

 

 

 

Ele descia pela calçada no sentido contrário aos dos carros, sob o sol que clareava aquele dia de setembro. Era fácil saber onde estava graças às avenidas largas e pela arquitetura dos edifícios, mas ele não reconhecia aquele prédio quadrado de onde saíam os ônibus para Ceilândia, Taquatinga e Sabaúna. À sua frente, no parque, a imperial nobreza de duas palmeiras eram pontos verdes que se destacavam na aridez da paisagem, tornando a vista inesquecível. O ar estava tomado pelo aroma inebriante de gasolina, mas cada passo era dado para mais longe, para aonde não havia como voltar.

Ao acordar, estava em um quarto de hotel em São Paulo. Mais do que a estranheza pelo sonho, ficou um sentimento de que era injusto sentir tanta falta assim.

 

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mar 102014
 

 

manicure

 

– E então, o que achou?

– Bem, err…. Veja…

– O que foi? Não gostou?

– Hmm…  É que eu acho que não entendi bem o conceito…

– É que você é pobre, Genivaldo! Isso é coisa de gente chique!

– Mas Maria Lúcia, você sabe o que significa “gourmet”?

– Significa coisa pra gente refinada, de bom gosto.

– É, mais ou menos isso… Mas eu acho que não dá pra usar do jeito que você está usando.

– Como não? Por que eu não posso ser uma gourmet? Eu não sou chique, Genivaldo?

– Sim, claro, você é! É que eu nunca vi uma manicure gourmet, Maria Lúcia!

– Manicure e pedicure! E eu vou ser a primeira! E vou ficar rica atendendo gente fina!

– Mas…

– Mas nada! Você anda ando por aí e vê “cupcake gourmet”, “margarina gourmet”, “coxinha gourmet”… Tem até “cachorro-quente gourmet”, Genivaldo! Por que não meu o serviço?

– Você percebeu que isso tudo que você falou é relacionado a comida, Maria Lúcia? As pessoas vão ver o anúncio na fachada escrito “manicure e pedicure gourmet” e  vão ficar com medo, vão achar que você vai dar uma mordida no calcanhar delas!

– Que visão pequena, que atraso esse seu! Eu ia até fazer diferente, mas achei assim mais chique assim.

– Ia fazer diferente como?

– É que na cidade eu vi que agora tem umas lojas de produtos refinados tipo assim “brigaderia”, “salgaderia”, então pensei em chamar o meu serviço de “unheteria”, mas achei que não ficou bom.

– Poxa, ainda bem que você não fez isso, até porque se alguém coloca um “P” na frente dessa sua “unheteria” iriam achar que aqui é uma casa de massagem tântrica.

– Não entendi!

– Melhor assim. Mas então boa sorte pra você e seu estabelecimento gourmet, Maria Lúcia.

– Obrigado, mas agora eu sou Mary Lucy.

– Hmm?

– Não sabia que Mary Lucy é mais gourmet? Aff, como você é pobre…

 

 

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dez 112013
 

 

 

A cerveja estava gelada, o céu estava azul, uma brisa refrescava aquela tarde de verão e todos no bar estavam felizes comemorando o final de mais um dia de trabalho, exceto Pedro.

O músico estava no auge da fama e os poucos momentos que podia passar entre amigos geralmente o deixavam muito feliz, mas naquele dia o desânimo foi mais forte.

– Que cara é essa, meu velho? – perguntou Jonas, amigo de infância que já acompanhara muitas fases de altos e baixos de Pedro.

– Ah, cara… Tá tudo tão…

– Tá tudo o quê? Aconteceu alguma coisa? – perguntou Jonas enquanto enchia o copo.

– Não aconteceu nada. Esse é o problema.

– Como assim?

– Nada acontece… Nada me inspira…

–  Que é isso, cara! Você tá bombando, fazendo shows no Brasil inteiro, ganhando dinheiro como nunca… Isso sem falar na Ritinha, que é uma pessoa ótima, companheira de verdade!

– É, eu sei, mas …

– Mas?

– É que desde que a Lu foi embora…

– Ah, não, cara! De novo a Lu? Para! Essa mulher nunca te deu valor, só te fez sofrer! Sorte sua que ela sumiu!

– Eu sei de tudo isso que você está falando, mas gostava pra caramba da Lu… Ainda tenho saudade…

– Pedro, mas e a Ritinha? A Ritinha é muito melhor pra você!

– A Ritinha é muito boa, uma pessoa bacana, amiga… Mas a Lu, ah, a Lu… E tem outra coisa: o pé na bunda que ela me deu foi a melhor coisa que já me aconteceu.

– Peraí… Vou encher outro copo antes que você me explique essa conversa sem noção…

– Todas as músicas do meu disco novo foram fruto da minha relação com a Lu. Quando ela me chutou eu tive inspiração para os meus maiores sucessos. Só estou na mídia hoje por causa dela!

– Quer dizer então que no final das contas você é grato pelo que ela te fez passar?

– Sim! Quer dizer, não… Sei lá… A Lu era maravilhosa quando estava comigo, e foi tão ruim quando ela me deixou que até coisa boa consegui tirar dali…

– Daqui seu copo!

– Ele tá cheio ainda.

– Eu sei, eu vou é tirar o copo de você porque já bebeu demais hoje.

Pedro entregou o copo, suspirou e parou o olhar para fora do bar, divagando. Jonas não conseguia compreender o que se passava com o amigo, mas sentiu pena e foi para casa preocupado.

***

Um mês depois, Pedro entra em casa e flagra algo aterrador: Ritinha e Jonas, na cama, completamente nus.

Sua reação foi gritar de ódio e bater com a mão contra parede antes de olhar fixamente para os dois, cheio de amargura e decepção. Pego o violão, não disse uma palavra a saiu

***

Tempos depois Pedro lançou um novo disco, que se tornou um sucesso instantâneo e consagrou o músico como grande astro.

Na cerimônia de entrega do disco de platina Pedro agradeceu a poucas pessoas, mas fez questão de homenagear Jonas, que demonstrara ser o amigo que ele mais precisava.

 

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set 302013
 

 

taxi

 

James pensava em como pagar a prestação da faculdade de sua mulher enquanto esperava o semáforo abrir. Aquele não tinha sido um bom mês para o taxista, e a proximidade do dia do vencimento da mensalidade o fazia odiar ainda mais sua profissão, o trânsito e São Paulo, de onde prometeu sair na primeira oportunidade.

Mas tal oportunidade só viria depois que Sarah terminasse os estudos e arrumasse um emprego fora, então ele teria que continuar a viver naquela cidade de trânsito infernal por mais algum tempo.

O taxista não tinha terminado de remoer tudo isso quando o semáforo abriu. Ele deu saída com o carro lentamente, mas foi interrompido por um homem que pulou na frente do veículo:

– Está livre?

Aquela abordagem assustou James e ele quase foi embora, mas o táxi estava sem passageiro e era preciso trabalhar para garantir os estudos de Sarah, então fez sinal para o homem entrar.

– Preciso ir ao metrô mais próximo, com urgência! Qual a estação mais próxima? – perguntou o esbaforido passageiro – Quanto tempo até lá?

– A estação mais próxima daqui acho que a do Masp. Nesse trânsito, uns 10 ou 15 minutos.

– Tá ok, vamos então!

James ligou o taxímetro e olhou no retrovisor. Viu o passageiro agitado, teclando algo no celular enquanto o suor escorria pelo rosto.  Era um homem de cerca de 30 anos, bem vestido, mas que aparentemente tinha corrido muito para chegar até o seu carro. Antes que o motorista pudesse conjecturar mais o próprio passageiro passou a falar:

– No ponto da avenida de baixo não tinha nenhum táxi, corri três quadras procurando até que você apareceu… Me diga uma coisa, daqui até a Barra Funda é muito longe?

– É do outro lado, tem que enfrentar esse trânsito aí… Eu posso seguir pelo corredor de ônibus, o que deixa a viagem um pouco mais rápida.

– E quanto ficaria a corrida?

– Uns cinquenta contos…

– Nossa… mas vale a pena? Vou chegar mais rápido do que se for de metrô?

Por mais que precisasse do dinheiro, James não poderia deixar de ser sincero:

– Veja bem, do jeito que o trânsito está hoje não posso prometer isso não…  Mesmo usando os corredores o negócio trava. É melhor ir até o metrô mesmo pois…

A frase foi interrompida por dois estampidos altos, tiros disparados da calçada. Quando James olhou para fora viu um homem com uma pistola preta nas mãos vindo em direção ao táxi. O homem armado tentou abrir a porta de trás, mas foi impedido pelo passageiro:

– Larga! – gritou o homem armado.

– Não! – respondeu o passageiro.

– Solta a porra dessa porta! – gritou novamente o homem do lado de fora.

– Sai fora! – respondeu ainda mais alto o homem do lado de dentro.

Vendo que perdia um tempo precioso, o homem armado soltou a porta e correu pelo meio do trânsito em movimento. O taxista não sabia se considerava o passageiro um herói ou um maluco:

– Você não viu que o cara estava armado?

– Eu vi, mas ele que vá correr atrás de um táxi livre! Deu trabalho achar esse aqui!

James continuou a dirigir xingando e agradecendo ao passageiro em silêncio. Já tinha sido vítima de roubos, mas nunca reagira como o rapaz. Toda vez que teve a arma apontada para si o peito encheu de ódio, mas ele pensou em Sarah e fez o que era certo.

Quando chegavam próximos ao destino o passageiro perguntou:

– O senhor vai ter troco pra R$ 100,00?

– Não.

– Aceita cartão?

– Não.

– Xiii…

A corrida ia ficar em menos de R$ 15,00 e o passageiro não tinha dinheiro trocado.

– Olha, o senhor pode parar então em frente àquela agência do banco que eu tiro dinheiro e pago a corrida.

James até ficou com dó do passageiro que estava com tanta pressa, mas não podia trabalhar de graça. Estacionou em um lugar nada apropriado e o rapaz desceu do carro. Pouco depois veio à cabeça do motorista a possibilidade daquilo ser um golpe para que a corrida não fosse paga, mas antes que pudesse se sentir um idiota completo viu que o passageiro voltou correndo para o táxi.

Andaram mais algumas quadras e chegaram então em frente à estação Trianon-Masp do metrô. O passageiro deu uma nota de R$ 20,00 ao motorista e desceu sem esperar pelo troco, mas antes de ir ainda virou para James e disse com um sorriso no rosto:

– Tudo isso por causa de uma mulher, acredita?

James pensou em Sarah e acreditou.

 

 

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maio 032013
 

 

Eu tentei escrever uma crônica sobre o jogo do São Paulo que ontem fui ver no Morumbi, mas não consegui terminá-la. Assim como a partida, o começo foi promissor, mas de repente o texto empacou e o resultado foi decepcionante.

***

Tem uma história que eu queria contar sobre um cara que começou a odiar um carro por causa de uma desilusão, mas ainda não consegui arrumar um final satisfatório, não sei se o desfecho deve ser feliz, melancólico ou esperançoso. O texto continua como rascunho, de vez em quando volto nele e remexo em tudo, mas o resultado ainda não me agrada então eu volto a salvá-lo para em outro dia começar tudo de novo.

***

Sou a favor da redução da maioridade penal, mas acho que implantar tal medida agora traria mais problemas do que soluções. Tentei explicar em um texto que existem outras questões mais importantes a serem tratadas com urgência, e que na verdade a discussão atual apenas tem servido para esconder a ineficácia e ineficiência de nossas autoridades, mas está difícil arranjar os pensamentos de forma coerente.

***

Fiz uma montagem, brincando com uma música que tem feito sucesso, mas o resultado ficou tão ridículo que estou com vergonha de publicar. Se depois de tudo o que já postei eu não tive coragem de colocar essa montagem no blog, imagine então como isso ficou ruim.

***

A minha falta de inspiração é tão grande que a melhor ideia que tive foi escrever sobre minha falta de inspiração…

 

 

set 182012
 

 

 

Era uma terça-feira, eu acho.

O despertador tocou pontualmente às 6 horas. Armindinho sentou na cama, esticou os braços, alongou o pescoço – primeiro para a direita, depois para a esquerda, para frente e para trás – depois se levantou e calçou as havaianas rumo ao banho.

Na mesa de café preparou uma porção de granola com uma xícara de leite, que comeu à contragosto. Ele não suportava a granola e odiava o leite, mas o médico lhe receitou aquele desjejum e ele não iria contrariar o especialista.

Voltou ao banheiro e levou cinco minutos para escovar os dentes. Gastou bem menos tempo para pentear os cabelos, que cada vez mais rareavam.

Pensando bem, acho que era uma quarta-feira. Mas tanto faz, todos os dias a rotina dele era a mesma.

Eu sei que agora você vai reclamar do clichê, mas não é culpa minha o Armindinho ser funcionário público. Contador formado, passara no concurso há 18 anos e desde então sempre exercera o mesmo cargo, na mesma repartição, no mesmo local. Era visto como um servidor exemplar, que não faltava nunca e que tudo sabia sobre o seu ofício, mas a falta de brilho e ambição não permitiram que ele recebesse as promoções que outros mais jovens e menos talentosos tiveram.

Armindinho não pensava nisso, só queria fazer o seu trabalho, e naquela manhã de quarta-feira (ou terça, sei lá) entrou em seu carro e saiu pela avenida, mantendo a velocidade permitida e guardando a distância segura do veículo da frente, até que, ao mudar de faixa, percebeu que não tinha dado o sinal prévio com a seta para avisar os outros motoristas dessa manobra.

Assustado, o contador ficou esperando por uma freada mais forte, por algum xingamento, por alguém que buzinasse, mas nada aconteceu.

Nada aconteceu.

Armindinho ficou intrigado. Ele não fez com intenção, mas desobedeceu uma regra, cometeu um erro, coisa que jamais se permitira. O mundo, contudo, sequer percebera o ocorrido e aquele momento foi transformador.

Você deve estar reclamando do exagero, eu sei, mas dentro da lógica cartesiana da cabeça de Armindinho as regras sempre existiram para serem cumpridas, e quando não cumpridas, têm consequências. Ele passara a vida fazendo o que é certo, do jeito certo, mas de repente ele percebeu que nem sempre tudo é tão exato.

Armindinho começou a pensar que o seu rigor talvez não fizesse sentido, talvez não valesse a pena. Mas não imagine você que a partir daquele dia ele aprendeu a beber, deixou o cabelo crescer e decidiu parar de trabalhar. Seria radicalismo demais só por causa de uma seta. Armindinho ainda era um medroso, um verdadeiro cagão, se me permite a falar claramente. O máximo que ele se passou a fazer foi deixar de dar seta toda vez que mudava de faixa com o seu carro, um gesto que para ele já era uma grande demonstração de desobediência civil.

Com os dias os colegas de trabalho perceberam que Armindinho estava menos rigoroso, mas leve. Seu jeito mais maleável o tornara uma pessoa mais fácil de conviver, e ele mesmo se sentia mais jovem, mas disposto a cometer outros gestos de rebeldia. Pensou até em tentar conversar com a secretária do chefe, uma bela morena que solenemente o desprezava, mas que talvez agora pudesse se interessar por aquele homem mais intrépido.

Foi mais ou menos um mês depois daquela terça-feira (ou quarta, não sei) que ele se decidiu a falar com a morena. Fez todo o seu ritual matinal com mais esmero, caprichando no banho e perfume, quando então antes de sair viu na porta de sua casa várias correspondências com o brasão do Estado estampado.

Eram notificações de multas. Várias. Todas emitidas em razão da falta de sinalização quando da mudança de faixas. Para azar de Armindinho, um outro funcionário público tão obstinado quanto ele, só que lotado no departamento de trânsito, fazia o mesmo trajeto que o contador e anotara todas as infrações cometidas.

Armindinho sentiu-se desolado. Enfrentar o Estado não é para qualquer um, ele pensou. Vencer o Sistema era algo apenas mais os mais afortunados, e ele não passava de um mero preenchedor do tabelas. Se ele não tinha sorte nem para livrar-se das multas, que chances teria com a morena? Cabisbaixo, ele pegou as correspondências para levá-las ao banco já que só lhe restava arcar com as consequências de seus atos.

Antes de sair, porém, ele parou em frente a porta, tirou de sua pasta uma das notificações, rasgou e jogou pela janela. Ele ainda não era um Che Guevara, mas havia uma semente de rebeldia que ele achou que valia a pena continuar a alimentar.

 

 

 

ago 272012
 

 

 

 

Ela estava sentada no gradil da ponte, com as pernas pendendo sobre o Rio Paraíba do Sul, num balançar inquieto. O seu olhar estava fixo na correnteza, que levava os galhos trazidos pela chuva que caía pela madrugada. Depois de algum tempo sentada já não haviam mais pensamentos contraditórios em sua mente, que cada vez mais fechava-se em uma única conclusão.

Foi quando cerrou os olhos e respirou fundo que se deu conta do homem que sentou ao seu lado.

– Com licença – disse ele, que se colocou na mesma posição que ela e permaneceu em silêncio.

– O que você quer? Vá embora!

– Não posso.

– Vá embora! Suma daqui!

– Sinto muito, mas agora é minha obrigação ficar contigo até o fim, caso leve em frente as suas intenções.

– Que intenções?

– Eu conheço esse olhar…

Ele sorriu sem graça. Ela ficou confusa e manteve um silêncio que durou pouco.

– O que faço com a minha vida não é problema seu, vá embora.

– Agora é tarde. Eu sei que você realmente quer pular, e sua vida deve estar mesmo muito ruim pra pensar nisso, mas se você for eu vou atrás pra tentar te salvar.

Ela não acreditava no que ouvira. De onde surgira aquele homem?

– Minha vida está uma merda mesmo, você nem imagina quanto, por isso me deixe em paz, me deixe fazer o que tenho que fazer.

– Você faz o que acha que deve fazer, e então eu farei o que acho que devo fazer. Simples assim.

– Mas você não me conhece, não sabe quem eu sou, por que se importa?

– Não sei. Humanismo, heroísmo, idiotice… um pouco de tudo, acho.

Ela olhava confusa para aquele homem que, por sua vez, mantinha-se sereno.

– Ninguém se importa, cara, ninguém quer saber, você não entende? E você também não se importa, só está fazendo cena, duvido que vá realmente vá tomar alguma providência – ela fala com a voz carregada, enquanto põe-se em pé sobre o gradil. Após encarar a correnteza, vira-se para o homem que continua sentado e pergunta em tom ameaçador – E aí, não vai fazer nada, não vai me impedir de pular?

– Não.

– Não?

– Não – disse ele – Em nenhum momento eu falei que iria te impedir de se jogar. Eu disse que pularia atrás, e é isso que eu vou fazer.

– Se você pular você também morre!

– Bom, eu pretendo sobreviver à queda e te salvar, pois senão realmente não haveria sentido em pular… mas reconheço que minhas chances são poucas.

Ela fixa os olhos no homem, que estava olhando para um galho de ipê enroscado na margem do rio, enquanto suas folhas desprendiam-se lentamente.

– Isso não faz sentido… arriscar-se por alguém que não conhece… você nem sabe se eu sou uma pessoa boa, se eu valho a pena…

– E o quê faz sentido? Quem disse que tem que fazer sentido? De onde você tirou que há um sentido?

– Se eu me jogo, você pula, nós dois morremos. Pra quê isso?

– Talvez eu ainda vire nome de rua. Ou praça, se der muita sorte. Chato vai ficar pra você, pras pessoas que não vão entender o motivo de você ter pulado.

Ela mantém-se em pé, mas agora é toda dúvida.

– Existe um motivo pra eu fazer isso, eu não sou uma idiota. Mas… você… – enquanto pensa no resto da frase ela se abaixa e volta a sentar no gradil – Se eu pular você não me acha nessa água toda, acho que você não conseguiria sobreviver, muito menos me salvar.

– Veja então como tudo é relativo nesse mundo: esta pode ser a oportunidade que você tem para salvar a minha vida.

Ela continuou encarando o homem, que manteve-se resoluto. Virou-se para o rio e observou o galho de ipê soltar-se da margem e seguir o seu caminho. Não é possível saber o quanto tempo ela ficou ali, parada, nem no que pensou, mas a certeza que ela chegou a ter não existia mais, então não havia porquê continuar. Levantou-se, afastou-se do gradil, e decidiu voltar para casa.

Como não sabia o que dizer ao homem, apenas fez um sinal de com a mão e foi embora. Já tinha se distanciado alguns metros quando ouviu o barulho de algo caindo na água. O homem não estava mais ali, então ela procurou por algum sinal dele no rio, sem sucesso.

O que avistou foi certamente a coisa mais inusitada daquela noite: um boto, em pleno Rio Paraíba do Sul, nadando em direção do reflexo da lua.

Foi quando então percebeu que a chuva tinha passado.

 

***

 

A primeira Lenda Urbana você encontra aqui.

 

jun 112012
 

– Já estou pronta? Vamos!

– Que tal irmos ao cinema?

– Cinema? De novo, não!

– Ah, quer saber, não me leve a mal, mas então me leve para casa.

– Por quê? O que houve de errado?

– Eu achei que estar ao se lado bastaria, mas…

– Mas?

– É tolice, eu sei, mas você não sente os meus passos.

– Não estou entendendo aonde você quer chegar!

– Talvez eu seja o último romântico, mas no seu olhar não vejo um louco amor. A emoção acabou.

– Como assim?

– Você não soube me amar. Você nunca me ligou numa tarde vazia, nunca me vez ver mágica no absurdo. Nunca precisei te esconder a verdade, nem inventar uma briga, nem dizer que não estava.

– Não acredito no que estou ouvindo!

– Acho que se a gente não tivesse feito tanta coisa, se não tivesse tido tanta pressa… Mas não imagine que te quero mal, apenas… não te quero mais.

– Então quer dizer que tudo o que vivemos foi desperdício?

– Não, não foi tempo perdido…

– É assim? Pois eu também não sei o que sinto por você. Um dia a gente se vê.

Ela vai embora e ele lamenta, não pelo fim, mas por não conseguir pensar em uma canção que um dia o fará lembrar de tudo o que viveram.