set 172015
 

 

vista maksoud

 

Deitado em sua cama, ele lamentava a presença de sua constante companheira, a insônia. Os olhos abertos, fixos na lâmpada apagada do quarto, sinalizavam sua desistência de tentar dormir novamente.

O que lhe restava era organizar os pensamentos, que passavam pelo trabalho, lembravam as contas em atraso, pulavam para os problemas com o carro, mas sempre terminavam nela.

Ou melhor, na falta dela.

Há tempos não a via. Pelo calendário talvez não fosse muito, mas era mais que o suficiente. “Não existe medida para o vazio”, filosofava em silêncio.

Incomodava-o que, mesmo apagada, a lâmpada fluorescente às vezes piscava. O balançar da cortina graças à brisa que passava pela janela também era irritante. Parecia que tudo no quarto estava inquieto, que nada descansava naquele lugar.

Foi quando decidiu pensar somente nela. Certamente a mulher estaria dormindo, então, quem sabe, se ele concentrasse seus pensamentos poderia influenciar os sonhos que ela possivelmente estivesse tendo.

Riu da própria idiotice, mas aquela não foi a primeira torta do dia, nem a última da vida.

Passou a imaginar que estavam juntos no alto de um prédio, com a cidade inteira brilhando aos seus pés. Da rua, os sons do carro e o cheiro de gasolina. Ela vestia apenas dois brincos de pedras verdes; ele trazia em suas mãos dois copos de espumante. Lentamente as os prédios foram se apagando até só restaram as estrelas para iluminá-los.

Sentia que a vida poderia acabar pois não haveria felicidade maior a ser alcançada que aquela de estar ali, abraçado novamente com ela. Não havia mais movimento, o tempo deixou de correr e a paz era infinita até que despertador disparou a tocar.

Acordou surpreso. Já era hora de levantar. O patrão nosso de cada dia não deixaria de cobrar sua cota, mas isso não o inquietava mais. Estava pronto e disposto para viver a realidade como quer que ela se apresentasse.

Talvez ele nunca saiba o que ela sonhou, mas o que lhe importava é que agora sabia para onde levar seus pensamentos quando a noite chegasse.

 

 

 

fev 132015
 

 

paolla-oliveira

 

A porta abriu e uma mulher de salto alto, usando um vestido preto justíssimo, pediu para que o casal entrasse. A esposa reparou nos cabelos da anfitriã; já o marido não conseguiu tirar os olhos do decote.

– Boa tarde, sejam bem vindos! Fiquem à vontade, podem se sentar. Como é mesmo o nome de vocês, queridos?

– Meu nome é Cristina, e o do meu marido é Valter. Nós somos de São José dos Campos.

– Ah, que ótimo! É um belo casal, sou uma privilegiada por recebê-los! Querem que eu busque uma bebida, um drinque para relaxar?

– Eu quero um uísque, pra ela você pode trazer um champanhe – disse o marido.

A mulher deixou a sala e a esposa  perguntou:

– Uísque? Champanhe? A gente nem bebe, homem!

– Ah, pelo preço que eu estou pagando, quero provar de tudo!  – A frase estava carregada de segundas intenções, mas a esposa não percebeu – E aí, o que achou dela?

– Ah, não sei… Ela não é nenhuma Paolla Oliveira…

– Querida, você também não é nenhuma Maria Fernanda Cândido e nem por isso…

– Como?

– Nada, nada… Mas que história é essa de Cristina e Valter?

– É o que me veio na cabeça, Adamastor.

– E agora nós somos de São José dos Campos, Jaqueline?

– Querido, você que inventou isso, agora tem que entrar no clima. Você acha mesmo que o nome da moça é Ana Paula Bombom?

– Acho que não mesmo…

– Ei, o que você está fazendo?

– Estou tirando a camisa, ora! Não é para isso que a gente veio aqui?

– Comporte-se, homem! Tenha respeito pela moça!

– Respeito?!? Mas…

Antes que ele terminasse a frase a mulher voltou à sala, trazendo os copos com as bebidas. Ela se sentou num sofazinho de frente para o casal e perguntou se era a primeira vez que eles faziam esse tipo de programa, pelo que foi respondido que sim. Ela quis saber se queriam esclarecer algo, então “Cristina” disse:

– Eu tenho uma dúvida sim…

– Pois pergunte!

– Achei lindos os seus cílios, são postiços?

– Sim, eu frequento um salão bárbaro, que fica aqui perto, se você quiser posso te passar o endereço. E eu achei o seu cabelo lindo!

– Ah, é aplique!

– Sério? Ficou ótimo, está muito natural!

– Obrigada! Todo lugar que eu vou as pessoas me falam: “nossa, Jaqueline, que cabelo lindo”!

O marido dá um cutucão.

– Ah, eles me chamam assim porque lá em Jacareí meu apelido é Jaqueline.

O marido abaixa cabeça e sussura: “Consertou bem…”

– Mas me fale mais de você, Ana Paula. Você estuda, tem filhos?

– Sério mesmo que é isso que você quer saber dela, Ja… Cristina?

– Não seja indelicado, meu bem, deixe a moça falar!

E a moça falou. Falou que tinha um filho de 10 anos (se o seu anúncio fosse então verdadeiro ela teria tido a criança com 11 anos de idade, mas isso não vem ao caso); falou sobre as dificuldades de ser mãe e profissional, o que causou comentários de “Cristina”; falou sobre o preço da escolinha, do material escolar, dos uniformes… As duas as mulheres passaram a conversar e trocar experiências que abrangeram pedagogia, moda, estética, política, finanças pessoais e quase todos os assuntos.

Todos os assuntos menos sexo, para desespero de Valter/Adamastor. Foi quando percebeu que o marido apontava para relógio que “Cristina” se deu conta que duas horas já se passado:

– Nossa, querido, vamos que está na hora e a Aninha tem que buscar o filhote na escolar. Pague a moça, por favor!

– Pagar a moça? Pelo quê? Nós nem fizemos nada!

– Nós tomamos tempo dela, querido. Além disso, só de conhecer uma pessoa tão batalhadora quanto a Aninha eu já me sinto revigorada! Sou praticamente uma nova mulher! Acho que a partir de hoje nós temos uma nova perspectiva do casamento, não é querido?

O marido olhava incrédulo, e ainda teve que escutar:

– Me desculpe, Aninha, o Adamas… o Valter é assim mesmo, um mão de vaca, mas é um bom homem e tenho certeza que ele vai se esforçar mais no nosso casamento!

A moça recebeu o dinheiro com um sorriso que mal cabia no rosto, e o casal foi embora com a mulher achando que teve uma tarde incrível. Já o homem partiu com uma desilusão que iria se  manter pelo resto da vida toda.

 

.

abr 072014
 

 

Depois de tantas tentativas, aconteceu o encontro casual que ele tanto almejava. Ele a viu de longe, mas fez de conta que não. Ela passou de cabeça baixa, segurando um pacote; ele deu a volta e então se deram de frente. Sorrisos tímidos de ambos os lados. Coube a ela quebrar o gelo:

– Oi, tudo bem? Que surpresa!

– Oi! Surpresa te ver também – mentiu ele. Você está bem? Mudou o cabelo…

– Pois é, mudei a cor, você gostou?

Ele achou feio aquele tom do cabelo entre o amarelo e o alaranjado.

– Sim, ficou bom. O que você tem feito? Está estudando?

Ela deu outro sorriso curto. As coisas não estavam acontecendo como tinha planejado:

– Ah, tenho feito tanta coisa, não tenho tempo pra mais nada, só trabalho. Dei até um tempo nos estudos, mais pra frente eu retomo. Bom, preciso ir. Foi bom te ver.

– Foi bom te ver também. Quando quiser conversar, me ligue.

– Pode deixar, eu ligo sim. Beijos.

Mil anos se passaram, e ela nunca ligou.

 

fev 132013
 

 

lei de gerson

 

Alguns pais não têm idéia do que estão fazendo com os filhos quando escolhem seus nomes. O caso do pobre Jerson é exemplar e merece ser lembrado.

A vida inteira ele teve que explicar e corrigir os outros que insistiam em escrever seu nome do jeito usual.  “É com jota, e não com gê”, disse ele praticamente todos os dias de sua vida desde que aprendeu a escrever.

Talvez o pai pudesse ter impedido aquela extravagância ortográfica, mas como Jerson nunca sou soube quem foi seu progenitor, jamais pôde reclamar. A culpa daquele nome simples mas de grafia diferente deveria ser atribuída apenas à mãe, que se justificava: “Gerson tem um monte por aí, agora, Jerson, com jota, é um só. Meu filho é único e exclusivo, e um dia o mundo inteiro vai saber que ele é especial”.

Possivelmente a Dona Maria pensasse assim por ter ela um nome muito comum, mas é inegável que ela tinha grandes sonhos para o seu único filho. Ela fez muitos sacrifícios para que o menino tivesse bons estudos e fosse alguém na vida, e morreu acreditando que ele estava no caminho certo.

Mas a verdade é que Jerson nunca correspondeu plenamente às expectativas.

Veja bem, não estou falando mal do rapaz, que sempre foi muito abnegado a tudo o que fez. Quando moleque estudava com dedicação e esforçava-se mais do que todos os outros nos campos de pelada (como todos os garotos, ele sonhava ser diferente dentro dos gramados), mas nunca passou disso: um estudante esforçado e um peladeiro dedicado.

Depois que desistiu de ser jogador foi para a faculdade e tornou-se um homem que não poderia ser classificado com o feio, mas que também não poderia ser considerado bonito. Conseguiu um bom emprego e era respeitado pelos colegas, mas não tinha aquele algo a mais para ser um líder.

Jerson era uma boa pessoa, porém, comum, e isso o incomodava. Vivia angustiado por não ter cumprido a profecia de sua mãe, mas a culpa não era dele – as expectativas eram altas demais para um mero jota dar conta. Se para a Lei de Gerson o importante era levar vantagem em tudo, parecia que quem vivia sob a Lei de Jerson era fadado a não levar vantagem alguma.

Numa manhã, todavia, a grande chance de ser conhecido por todos apareceu. Jerson estava indo para o trabalho quando viu uma menina desgarrar da mãe e sair para o meio da rua, ficando indefesa ao ônibus que vinha em sua direção. Ele não vacilou: correu e deu um salto cinematográfico para empurrar a criança e tirá-la da frente do veículo, colocando-a em segurança. Infelizmente ele não conseguiu se safar e foi atingido violentamente.

Uma multidão testemunhou aquele ato e muitas pessoas foram acudí-lo. Um senhor o pôs a cabeça do herói sobre o seu colo e disse que ele era muito corajoso, que havia feito algo que jamais tinha presenciado, e perguntou ao rapaz qual era seu nome:

– É Jerson… – disse ele, num último suspiro antes de morrer.

As imagens do ocorrido foram captadas pela câmera de segurança de um prédio e o país inteiro ficou emocionado com aquelas cenas. Não demorou nada até que o prefeito mandasse homenagear o herói, e naquela esquina hoje é possível encontrar uma placa com os dizeres: “Aqui o nobre cidadão Gerson deu sua vida para salvar uma criança”.

Sim, desafortunadamente o nome na placa está grafado com gê, e não com jota, pois não havia mais ninguém para lembrar que aquele era o Jerson especial.