jan 262016
 

 

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“Tempo é relativo”, me diz o Óbvio, sentado ao meu lado enquanto escrevo estas linhas.

Já se passaram muitos dias desde a última postagem e ele está aflito, esperando ser alimentado. Tenho me contido durante esse período para não me render ao seu chamado, mesmo que seja tentador e às vezes coberto de razão.

Em relação à relatividade do tempo, por exemplo, ele está certo: ontem fez 21 anos desde aquele show do Lulu Santos do Ibirapuera mas parece que foi… ontem. Minhas férias inteiras duraram menos que as horas que sentei em frente ao computador depois que voltei ao trabalho.

Mas tenho lutado para não me render ao Óbvio e seu sorriso vazio de satisfação. Por mais que ele continue a me espreitar a cada bate-papo, a cada mensagem trocada, a cada olhada no Facebook, aguardando pacientemente minha resposta a um comentário qualquer.

Essa minha resistência, todavia, tem causado o hiato nas postagens e algum ressentimento. O dia mais emblemático foi quando David Bowie morreu.

Assim que soube da morte do cantor o Óbvio ficou ululante. Abriu o notebook e leu cada comentário sobre a genialidade artista rindo de si mesmo, enquanto aguardava a minha participação no rol de homenagens sem fim. Ele sabia que sou fã do Bowie e que isso certamente renderia um post consagrador a ele (consagrador ao Óbvio, quero dizer).

Mas minha decisão de não escrever por entender que não haveria algo original para postar foi um golpe duro, que o deixou decepcionado comigo. Depois de tantos anos enriquecendo suas fileiras, o Óbvio se sentiu traído pela minha atitude.

Aos poucos, porém, vejo que ele está se recobrando e se sentindo mais forte, mais confiante. Ambos sabemos o porquê. É certo que, por mais que eu tente, cedo ou tarde não resistirei aos seus apelos e voltarei a colaborar com ele.

Quando digo “com ele” me refiro ao Óbvio, claro.

 

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nov 032014
 

 

vampire

 

Ela acordou graças à chuva, mas antes que desse conta que a janela deveria estar  fechada percebeu a figura soturna que a espreitava à beira da cama.

O natural seria que se assustasse com aquele estranho enrolado em uma capa vermelha, de olhos inexpressivos e pele muito branca, mas foi com surpreendente serenidade que perguntou:

– Quem é você? O que faz aqui?

– Vim atender ao teu chamado. Foste tu que me invocaste.

– Como assim? Não chamei ninguém, nem sei quem você é!

– A cada momento de tristeza suplicavas por esquecer. Pois toda prece é ouvida, toda graça se alcança.

– Do que você… Como você sabe?

O homem não respondeu. Olhou pela janela e fitou a chuva que caia. Depois de algum silêncio, ela fez outra pergunta:

– Eu vou morrer?

Pela primeira vez ele a encarou. Disse calmamente que não, quer ela não morreria naquela noite. “Não vim levar a tua alma, mulher, isso é para outro”.

– Você é… um anjo?

– A figura do vampiro me é mais familiar – respondeu ele, com um discreto sorriso no canto da boca – Mas não é de sangue que me alimento.

A mulher sentou na cama e puxou a coberta para cobrir o corpo. A chuva estava mais intensa, mas o frio parecia vir de dentro do próprio quarto.

– O que você vai fazer?

– Vou levar comigo as tuas memórias.  Mas não todas. Só me interessa o que te oprime. Deixarei no lugar apenas um brilho que será eterno.

– Mas se eu esquecer não vou cometer os mesmos erros novamente? Como ficam minhas experiências?

– Achas que tuas lembranças te livrarão de desacertos futuros? Que não voltarás a sofrer pois já passaste pela dor? A experiência é um valor inútil para determinados assuntos.

– Eu não sei o que pensar…

– Receba isso como uma benção, pois até mesmo teus equívocos tornar-se-ão momentos de mero aproveitamento.

A mulher abaixou a cabeça e manteve-se quieta, enquanto o homem se aproximou lentamente. Quando se reergueu escorriam lágrimas por seu rosto, então ela falou com os dentes cerrados “Faça!”.

O homem de capa pôs uma mão sobre cada ombro da mulher e aproximou-se lentamente do rosto, enquanto sua boca abria cada vez mais, até ficar grande o suficiente para que a cabeça dela coubesse toda e fosse engolida em um único movimento.

Foi com um grito que ela abriu os olhos e se viu novamente deitada. Já era de manhã, e quando tentou lembrar-se do estranho sonho que teve foi distraída pela poça d’água à beira da cama.

Naquele dia o sol brilhou com mais força, mas apesar de uma inexplicável alegria por estar viva, ela não sentia amor nenhum.

 

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