set 302013
 

 

taxi

 

James pensava em como pagar a prestação da faculdade de sua mulher enquanto esperava o semáforo abrir. Aquele não tinha sido um bom mês para o taxista, e a proximidade do dia do vencimento da mensalidade o fazia odiar ainda mais sua profissão, o trânsito e São Paulo, de onde prometeu sair na primeira oportunidade.

Mas tal oportunidade só viria depois que Sarah terminasse os estudos e arrumasse um emprego fora, então ele teria que continuar a viver naquela cidade de trânsito infernal por mais algum tempo.

O taxista não tinha terminado de remoer tudo isso quando o semáforo abriu. Ele deu saída com o carro lentamente, mas foi interrompido por um homem que pulou na frente do veículo:

– Está livre?

Aquela abordagem assustou James e ele quase foi embora, mas o táxi estava sem passageiro e era preciso trabalhar para garantir os estudos de Sarah, então fez sinal para o homem entrar.

– Preciso ir ao metrô mais próximo, com urgência! Qual a estação mais próxima? – perguntou o esbaforido passageiro – Quanto tempo até lá?

– A estação mais próxima daqui acho que a do Masp. Nesse trânsito, uns 10 ou 15 minutos.

– Tá ok, vamos então!

James ligou o taxímetro e olhou no retrovisor. Viu o passageiro agitado, teclando algo no celular enquanto o suor escorria pelo rosto.  Era um homem de cerca de 30 anos, bem vestido, mas que aparentemente tinha corrido muito para chegar até o seu carro. Antes que o motorista pudesse conjecturar mais o próprio passageiro passou a falar:

– No ponto da avenida de baixo não tinha nenhum táxi, corri três quadras procurando até que você apareceu… Me diga uma coisa, daqui até a Barra Funda é muito longe?

– É do outro lado, tem que enfrentar esse trânsito aí… Eu posso seguir pelo corredor de ônibus, o que deixa a viagem um pouco mais rápida.

– E quanto ficaria a corrida?

– Uns cinquenta contos…

– Nossa… mas vale a pena? Vou chegar mais rápido do que se for de metrô?

Por mais que precisasse do dinheiro, James não poderia deixar de ser sincero:

– Veja bem, do jeito que o trânsito está hoje não posso prometer isso não…  Mesmo usando os corredores o negócio trava. É melhor ir até o metrô mesmo pois…

A frase foi interrompida por dois estampidos altos, tiros disparados da calçada. Quando James olhou para fora viu um homem com uma pistola preta nas mãos vindo em direção ao táxi. O homem armado tentou abrir a porta de trás, mas foi impedido pelo passageiro:

– Larga! – gritou o homem armado.

– Não! – respondeu o passageiro.

– Solta a porra dessa porta! – gritou novamente o homem do lado de fora.

– Sai fora! – respondeu ainda mais alto o homem do lado de dentro.

Vendo que perdia um tempo precioso, o homem armado soltou a porta e correu pelo meio do trânsito em movimento. O taxista não sabia se considerava o passageiro um herói ou um maluco:

– Você não viu que o cara estava armado?

– Eu vi, mas ele que vá correr atrás de um táxi livre! Deu trabalho achar esse aqui!

James continuou a dirigir xingando e agradecendo ao passageiro em silêncio. Já tinha sido vítima de roubos, mas nunca reagira como o rapaz. Toda vez que teve a arma apontada para si o peito encheu de ódio, mas ele pensou em Sarah e fez o que era certo.

Quando chegavam próximos ao destino o passageiro perguntou:

– O senhor vai ter troco pra R$ 100,00?

– Não.

– Aceita cartão?

– Não.

– Xiii…

A corrida ia ficar em menos de R$ 15,00 e o passageiro não tinha dinheiro trocado.

– Olha, o senhor pode parar então em frente àquela agência do banco que eu tiro dinheiro e pago a corrida.

James até ficou com dó do passageiro que estava com tanta pressa, mas não podia trabalhar de graça. Estacionou em um lugar nada apropriado e o rapaz desceu do carro. Pouco depois veio à cabeça do motorista a possibilidade daquilo ser um golpe para que a corrida não fosse paga, mas antes que pudesse se sentir um idiota completo viu que o passageiro voltou correndo para o táxi.

Andaram mais algumas quadras e chegaram então em frente à estação Trianon-Masp do metrô. O passageiro deu uma nota de R$ 20,00 ao motorista e desceu sem esperar pelo troco, mas antes de ir ainda virou para James e disse com um sorriso no rosto:

– Tudo isso por causa de uma mulher, acredita?

James pensou em Sarah e acreditou.

 

 

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jan 292012
 

 

 

Depois de aproveitar a bela manhã em Ipanema chegou a hora de voltar para o hotel, colocar um terno e ir para o fórum, então fui para o calçadão e dei o sinal para o primeiro táxi que passou. Parou um carro novo, salvo engano um Vectra, e eu entrei, dei bom dia e disse:

– Rua do Russel, na Glória, por favor.

O motorista me olhou pelo retrovisor, fez um sinal com a cabeça e seguiu em frente.

E seguiu para um lado.

Depois para outro.

E foi em frente de novo.

Para retornar para o outro lado mais uma vez.

Eu tenho um péssimo senso de direção mas percebi que alguma coisa estava errada. Imaginei que o motorista estava mal intencionado fazendo o taxímetro rodar indevidamente, mas aí então ele fez a pergunta fatal:

-O o o o se-se-senhooor sa-sabe me-me-me explica-car co-como cha-chega nessse lu-lugarrrrrr?

Não sei o que mais me surpreendeu, o fato do motorista ser mais gago do que gago de piada ou ele dizer que não sabia como chegar na Glória. Como eu não conhecia o caminho, tentei passar alguns pontos de referência:

– Essa rua do Russel fica perto do Hotel Glória. Perto da Marina da Glória.

– Ho-o-otel Go-glória? Nã-nã-nãoo conhe-conhe-ço.

Surreal demais para ser verdade: um taxista perdido no trânsito, que não sabia como chegar no bairro da Glória, que não conhecia o Hotel Glória, e que falava como um personagem da Escolinha do Professor Raimundo. Comecei a olhar fixamente para o motorista para ver se ele era o Gugu disfarçado e procurei por câmeras escondidas, mas ele passou então a se justificar:

– Esse t-tá-táxi éééééééé do-o-o meu tio, que tá-tá-tá do-o-ente e eu co-co-comeceiiiii a a a a ajudá-dá-lo-o onteeem. Só-só-só num seeei os c-c-ca-caminhooos muuuuito bem aiinda.

Só eu mesmo para cair nas mãos de um estagiário de taxista. Expliquei para ele que ele deveria sair da Zona Sul e seguir no sentido do centro, e  assim ele fez até que apareceu um posto de gasolina no caminho aonde  parou para pedir ajuda.

O frentista ouviu a demorada pergunta e olhou para dentro do carro de cara brava, certamente pensando que era algum tipo de brincadeira. Quando viu a minha cara de assustado, porém, o rapaz percebeu que a coisa era séria e indicou a rota para o motorista.

E o ta-ta-taxista foi o caminho todo falando sem parar (bom, tanto quanto possível) e ao chegar finalmente no hotel pediu desculpas e não cobrou pela viagem. Até hoje tenho medo de encontrar na internet um vídeo comprovando que eu cai numa pegadinha naquele dia.

E isso é tudo, pe-pe-pessoal!