mar 092016
 

 

 

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– Oi, tem alguém aí? – disse a mulher em meio à escuridão.

A luz de uma vela se acendeu, revelando a face de um homem com o dedo indicador parado sobre a boca, invocando silêncio.

– Moça – falou baixinho o homem – silêncio, senão você vai acordá-lo!

– Me desculpe – disse ela no mesmo tom – Eu vim para…

– Eu sei para o quê você veio. Venha, fique à vontade, está meio bagunçado aqui dentro, mas você sabe como ele é, né?

Ela se aproximou do homem e ambos seguiram pelo pequeno cômodo. No chão algumas caixas estavam jogadas em meio a fotos, brinquedos e peças de roupas fora de moda. No canto de uma parede havia uma caixa-arquivo de papelão ao lado de um grande armário de aço.

– O que tem ali dentro?

– Ali, na caixa, tudo o que ele sabe.

– E no armário?

– Tudo o que ele pensa que sabe.

Ela riu e apontou para uma máquina.

– Aquilo é uma picotadora. É usado pras coisas que ele tenta esquecer, mas isso quase nunca funciona.

Ela tentou ver o que estava próximo à picotadora, mas o homem mudou a vela de direção, iluminando outro ponto da sala.

– O que tem naquela caixa de papelão?

– Aqui ficam as recordações mais importantes. As da infância, nesse rolo de filme Super 8. A adolescência está naquelas duas fitas VHS. E naqueles disquetes, a vida adulta.

– Disquetes?

– Pois é. Sofremos com a falta de espaço. Eu deleto um monte de coisas pra colocar outras coisas novas. Acabei de apagar o arquivo das refeições de ontem, então ele literalmente não sabe mais o que comeu no almoço.

Aos poucos, bem baixinho, o som de um alarme começou a reverberar dentro do cômodo.

– Moça, está chegando a hora. O passeio acabou.

Ela olhou em volta, procurando, mas ficou frustrada por não encontrar nenhuma referência. Não havia nada que lembrasse dela. Já estava pronta para abrir os olhos quando percebeu uma bela caixa, toda trabalhada em madeira, colocada numa prateleira na parede.

– O que tem ali? – perguntou enquanto seu corpo se afastava do local.

– Ah, você sabe – disse o homem sorrindo, antes de desaparecer na luz do dia.

 

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set 172015
 

 

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Deitado em sua cama, ele lamentava a presença de sua constante companheira, a insônia. Os olhos abertos, fixos na lâmpada apagada do quarto, sinalizavam sua desistência de tentar dormir novamente.

O que lhe restava era organizar os pensamentos, que passavam pelo trabalho, lembravam as contas em atraso, pulavam para os problemas com o carro, mas sempre terminavam nela.

Ou melhor, na falta dela.

Há tempos não a via. Pelo calendário talvez não fosse muito, mas era mais que o suficiente. “Não existe medida para o vazio”, filosofava em silêncio.

Incomodava-o que, mesmo apagada, a lâmpada fluorescente às vezes piscava. O balançar da cortina graças à brisa que passava pela janela também era irritante. Parecia que tudo no quarto estava inquieto, que nada descansava naquele lugar.

Foi quando decidiu pensar somente nela. Certamente a mulher estaria dormindo, então, quem sabe, se ele concentrasse seus pensamentos poderia influenciar os sonhos que ela possivelmente estivesse tendo.

Riu da própria idiotice, mas aquela não foi a primeira torta do dia, nem a última da vida.

Passou a imaginar que estavam juntos no alto de um prédio, com a cidade inteira brilhando aos seus pés. Da rua, os sons do carro e o cheiro de gasolina. Ela vestia apenas dois brincos de pedras verdes; ele trazia em suas mãos dois copos de espumante. Lentamente as os prédios foram se apagando até só restaram as estrelas para iluminá-los.

Sentia que a vida poderia acabar pois não haveria felicidade maior a ser alcançada que aquela de estar ali, abraçado novamente com ela. Não havia mais movimento, o tempo deixou de correr e a paz era infinita até que despertador disparou a tocar.

Acordou surpreso. Já era hora de levantar. O patrão nosso de cada dia não deixaria de cobrar sua cota, mas isso não o inquietava mais. Estava pronto e disposto para viver a realidade como quer que ela se apresentasse.

Talvez ele nunca saiba o que ela sonhou, mas o que lhe importava é que agora sabia para onde levar seus pensamentos quando a noite chegasse.

 

 

 

nov 032014
 

 

vampire

 

Ela acordou graças à chuva, mas antes que desse conta que a janela deveria estar  fechada percebeu a figura soturna que a espreitava à beira da cama.

O natural seria que se assustasse com aquele estranho enrolado em uma capa vermelha, de olhos inexpressivos e pele muito branca, mas foi com surpreendente serenidade que perguntou:

– Quem é você? O que faz aqui?

– Vim atender ao teu chamado. Foste tu que me invocaste.

– Como assim? Não chamei ninguém, nem sei quem você é!

– A cada momento de tristeza suplicavas por esquecer. Pois toda prece é ouvida, toda graça se alcança.

– Do que você… Como você sabe?

O homem não respondeu. Olhou pela janela e fitou a chuva que caia. Depois de algum silêncio, ela fez outra pergunta:

– Eu vou morrer?

Pela primeira vez ele a encarou. Disse calmamente que não, quer ela não morreria naquela noite. “Não vim levar a tua alma, mulher, isso é para outro”.

– Você é… um anjo?

– A figura do vampiro me é mais familiar – respondeu ele, com um discreto sorriso no canto da boca – Mas não é de sangue que me alimento.

A mulher sentou na cama e puxou a coberta para cobrir o corpo. A chuva estava mais intensa, mas o frio parecia vir de dentro do próprio quarto.

– O que você vai fazer?

– Vou levar comigo as tuas memórias.  Mas não todas. Só me interessa o que te oprime. Deixarei no lugar apenas um brilho que será eterno.

– Mas se eu esquecer não vou cometer os mesmos erros novamente? Como ficam minhas experiências?

– Achas que tuas lembranças te livrarão de desacertos futuros? Que não voltarás a sofrer pois já passaste pela dor? A experiência é um valor inútil para determinados assuntos.

– Eu não sei o que pensar…

– Receba isso como uma benção, pois até mesmo teus equívocos tornar-se-ão momentos de mero aproveitamento.

A mulher abaixou a cabeça e manteve-se quieta, enquanto o homem se aproximou lentamente. Quando se reergueu escorriam lágrimas por seu rosto, então ela falou com os dentes cerrados “Faça!”.

O homem de capa pôs uma mão sobre cada ombro da mulher e aproximou-se lentamente do rosto, enquanto sua boca abria cada vez mais, até ficar grande o suficiente para que a cabeça dela coubesse toda e fosse engolida em um único movimento.

Foi com um grito que ela abriu os olhos e se viu novamente deitada. Já era de manhã, e quando tentou lembrar-se do estranho sonho que teve foi distraída pela poça d’água à beira da cama.

Naquele dia o sol brilhou com mais força, mas apesar de uma inexplicável alegria por estar viva, ela não sentia amor nenhum.

 

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out 082013
 

 

Céu

 

 

– É tudo tão bonito, tão diferente… Acho que nunca vi um céu assim… Mas confesso que não me lembro como chegamos aqui.

– Você não percebe? Isso tudo é diferente porque nós estamos em um sonho.

– Um sonho? Nossa… Verdade… Mas esse sonho é meu ou é seu?

– Faz diferença?

 

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ago 222013
 

 

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Terminei de ler MAUS, que não à toa é considerada uma das melhores obras em quadrinhos de todos os tempos.

O autor conta a história de seu pai, sobrevivente do Holocausto, utilizando animais para caracterizar os povos envolvidos nos acontecimentos: os judeus são ratos (maus, em alemão), os alemães são gatos, os americanos são cães, etc. O traço é simples, mas serve ao enredo de forma extremamente eficiente.

 

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A metaliguagem é outro instrumento que enriquece a história. Imagino o quanto deve ter sido difícil, e ao mesmo tempo libertador, escancarar tantos sentimentos.

Maus é do tipo de obra que faz entender o que é arte.

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Outro dia estava vendo um jogo, tinha tomado algumas cervejas e alguém falou no Twitter de uma promoção. Foi assim que acabei comprando uma caixa com 20 filmes do Woody Allen.

 

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O primeiro que vi até agora foi BANANAS, que começa com uma transmissão ao vivo pelo canal de esportes de um evento muito concorrido, que seria nada menos que o assassinato do presidente de uma republiqueta latino americana – com direito a entrevista exclusiva com esse presidente.
O filme é um escracho total. Fala de relacionamentos (claro, é Woody Allen), tem gozação política, uma parte de tribunal e é todo muito engraçado.É interessante também ver Sylvester Stallone, antes da fama (o filme é de 1971), fazendo uma ponta como marginal do metrô.

 

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Quase nunca a mistura rede social+cerveja+impulso+cartão de crédito dá um resultado tão bom.

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Falando em jogo,  meu São Paulo vai muito mal. No ano passado o Palmeiras ainda enganava sua torcida com alguns resultados bons de vez em quando.

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Outra noite sonhei que destruíram meu carro e no dia seguinte, por coincidência, por duas vezes quase bati. Tanta coisa boa que sonho que não chega nem perto de se tornar realidade, só faltava essa…

 

 

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