maio 202019
 

Como todos sabemos, a expectativa é a mãe de toda decepção.

Centenas de milhares de fãs de GAME OF THRONES estão hoje reclamando do desfecho da série, muito disso porque os anseios sobre os destinos dos personagens não foram atendidos.

Eu estou entre aqueles que viram apenas a história na TV e não têm os livros como referência. Confesso que até comprei as obras, mas não consegui terminar de ler nem a primeira. Não ter os escritos do R.R. Martin como comparação torna mais fácil assimilar o que passou na HBO.

Talvez eu faça parte de uma minoria que gostou do final. Não foi apoteótico, ficou longe de ser excelente, mas foi bom. E, ao contrário do que andam dizendo, creio que houve coerência com os personagens:

(Aqui começam os spoilers.)

Jon Snow – Era um pária entre os Starks, nunca viveu como um Tangaryen. Foi discriminado na Patrulha da Noite e, quando se tornou comandante, foi morto por seus pares. Assumiu o trono de Rei do Norte a contragosto e entregou o reino na primeira chance. Ao final, foi mandado de volta para a Muralha, para ser aquilo que lhe cabia, o líder dos enjeitados.

Sansa –Quando a coroa lhe foi colocada sobre a cabeça suas aspirações juvenis foram realizadas. Mas a rainha que ela se tornou é muito diferente daquela dos contos que a sua cuidadora lhe recitava quando criança. Creio que Sansa foi a personagem mais bem desenvolvida durante toda a série.

Arya – Nunca quis viver em castelos. Não curtiu muito a noite que passou com Podrick  Gendry. Foi ser feliz no oeste.

Bran – O que mais incomoda com sua nomeação ao trono dos Seis Reinos é que o personagem nunca demostrou a grandeza que esperávamos para o cargo. “Mas ele tinha a melhor história”, disse Tyrion. Do lado de cá da tela acho que ninguém pensa assim, por isso é mais difícil imaginar que os grandes lordes tenham concordado com a tese do anão.

Mas é preciso apontar que, num bolão feito antes do começo da última temporada (é, teve isso), eu acertei que Bran acabaria como o senhor de Westeros. Eu achei que isso aconteceria graças às suas qualidades místicas, porém o misticismo da série morreu junto com o Rei da Noite.

Daenarys – Durante toda a série a história dos Tangaryen foi lembrada, mas enquanto se acreditava que ela seria “diferente” ela seguia matando de formas bem cruéis. Quando ela deixou de exterminar apenas quem nós achávamos que deveria morrer, muita gente reclamou que a personagem havia mudado bruscamente.

Ela não mudou. Talvez a série pudesse ter desenvolvido melhor isso, mas como todo déspota, Daenarys forjou um mito. E líderes que se sustentam com mitificações não são boa coisa.

Tyrion – O Vinicius Felix bem colocou em seu twitter (@ViniciusFelix) que o grande vencedor do Jogo dos Tronos foi o “duende”. Embora tenha dado umas fraquejadas durante a temporada, no final ele voltou a se mostrar inteligente e manipulador para cessar a ameaça expansionista de Daenarys e garantir que o trono fosse ocupado por alguém que lhe pouparia a vida.

Como um bom Lannister, ele cumpriu as promessas feitas a Bromm e se colocou como protagonista no novo reinado – embora esquecido pelos livros de história.

Talvez ficasse mais óbvio se Tyrion tivesse dado um sorrisinho durante a reunião dos lordes ou, à la House of Cards, tivesse piscado para o expectador.

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Faltou um plot twist no final, tipo era tudo um sonho do Bran enquanto ele estava acamado em Winterfell? Ou será que nós, culturalmente criados pelas novelas globais, nos ressentimos da falta de um casamento no último capítulo? Na minha nunca humilde opinião, seis episódios na última temporada foram insuficientes para amarrar todas as pontas. Algumas soluções pareceram apressadas e em certos momentos o roteiro patinou.

O saldo das 8 temporadas, contudo é muito positivo. E acredito que, ao revermos a série daqui a algum tempo, vamos ter melhores impressões sobre esse polêmico final.

Minha conclusão é pobre, simplista? Pelo menos minhas postagens não criam grandes expectativas para ninguém.

 

 

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maio 262015
 

 

Série Graphic Novel #02 Demolidor

 

Nos meus tempos de moleque, o Demolidor era o Sawamu dos desenhos japoneses.

O Demolidor dos quadrinhos americanos eu só conheci no começo da adolescência, depois que li O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller. O sucesso da revista daquele Batman soturno foi tão grande que a Editora Abril passou a publicar histórias mais caprichadas e com temática mais adulta na série Graphic Novel, que trazia bimensalmente uma nova edição com personagens e estilos diferentes.

Não por coincidência, o número 2 trazia uma outra HQ de Frank Miller, dessa vez desenhada pelo magistral Bill Sienkiewicz, e cujo personagem era o Demolidor, o herói cego que veste um uniforme de diabo (no original o personagem se chama Daredevil) e combate os criminosos de Nova York.

Comprei meu exemplar na banca de revistas que ficava em frente ao Supermercado Dias, gastando todos os duzentos cruzados que ganhei por lavar o carro do meu pai, e acho que mais um parafuso da minha cabeça caiu após a leitura. A arte era completamente diferente de tudo que eu conhecia – tinha colagens, pintura, grafismo, psicodelia e enquadramentos fora do padrão que realçavam os delírios do vilão psicopata.

 

Daredevil by Bill Sienkiewicz,o vilão

 

Mas apesar da edição caprichada e dos desenhos sensacionais, confesso que a revista me deixou desapontado pela “falta de ação”. Eu era jovem e queria ver o Demolidor quebrando a cara de todos os bandidos, por isso não contava com uma história em que o herói tivesse uma participação mais secundária na resolução da trama.

No final de semana passado tirei a revista da caixa em que repousa junto com centenas de outras HQ’s e reli a história com mais prazer do que tive anos atrás. Agora, mais maduro e vivido, pude compreender melhor as nuances do texto que complementa aquela arte tão única.

 

MARVEL'S DAREDEVIL

 

Meu interesse em reler a história após tanto tempo nasceu depois de ver a série do Demolidor, produzida pelo Netflix.

Trata-se de uma adaptação para televisão muito boa. A essência do herói foi mantida, assim como as dos coadjuvantes. Muitas das ideias dos quadrinhos foram utilizadas, e as “liberdades” tomadas funcionam bem, embora algumas tenham me causado espanto (como deixei de acompanhar as HQ’s faz tempo, pode ser que a morte de determinado personagem não seja algo verdadeiramente novo).

Achei muito interessante mostrar a iniciação de Matt Murdock como herói mascarado ao longo dos treze episódios, sem que houvesse pressa em vesti-lo no uniforme. Quase todas as críticas que vi elogiaram a série, e em apenas um texto o autor reclamava da “falta de coerência” com os quadrinhos em razão do herói ter se exposto demais para resgatar uma criança no segundo episódio. O insatisfeito reclamou que, para privilegiar a ação, o personagem abriu mão da inteligência que habitualmente usava em suas histórias.

Ora, o Demolidor da série, que ainda nem usava esse nome, é justamente um herói em construção, aprendendo com os próprios erros e em busca de uma causa e uma identidade. Dada a sua inexperiência, seria mesmo natural que no início de carreira usasse os punhos em detrimento do cérebro.

É preciso amadurecer com os anos para aprender que quebrar a cara de todos os bandidos nem sempre é o que torna alguém um herói (ou uma história) especial.

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