set 302012
 

 

Domingo de manhã e no som do carro começa a tocar:

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Aí você olha pela janela e vê o céu azul sobre o rio:

 

 

Nada mal.

ago 272012
 

 

 

 

Ela estava sentada no gradil da ponte, com as pernas pendendo sobre o Rio Paraíba do Sul, num balançar inquieto. O seu olhar estava fixo na correnteza, que levava os galhos trazidos pela chuva que caía pela madrugada. Depois de algum tempo sentada já não haviam mais pensamentos contraditórios em sua mente, que cada vez mais fechava-se em uma única conclusão.

Foi quando cerrou os olhos e respirou fundo que se deu conta do homem que sentou ao seu lado.

– Com licença – disse ele, que se colocou na mesma posição que ela e permaneceu em silêncio.

– O que você quer? Vá embora!

– Não posso.

– Vá embora! Suma daqui!

– Sinto muito, mas agora é minha obrigação ficar contigo até o fim, caso leve em frente as suas intenções.

– Que intenções?

– Eu conheço esse olhar…

Ele sorriu sem graça. Ela ficou confusa e manteve um silêncio que durou pouco.

– O que faço com a minha vida não é problema seu, vá embora.

– Agora é tarde. Eu sei que você realmente quer pular, e sua vida deve estar mesmo muito ruim pra pensar nisso, mas se você for eu vou atrás pra tentar te salvar.

Ela não acreditava no que ouvira. De onde surgira aquele homem?

– Minha vida está uma merda mesmo, você nem imagina quanto, por isso me deixe em paz, me deixe fazer o que tenho que fazer.

– Você faz o que acha que deve fazer, e então eu farei o que acho que devo fazer. Simples assim.

– Mas você não me conhece, não sabe quem eu sou, por que se importa?

– Não sei. Humanismo, heroísmo, idiotice… um pouco de tudo, acho.

Ela olhava confusa para aquele homem que, por sua vez, mantinha-se sereno.

– Ninguém se importa, cara, ninguém quer saber, você não entende? E você também não se importa, só está fazendo cena, duvido que vá realmente vá tomar alguma providência – ela fala com a voz carregada, enquanto põe-se em pé sobre o gradil. Após encarar a correnteza, vira-se para o homem que continua sentado e pergunta em tom ameaçador – E aí, não vai fazer nada, não vai me impedir de pular?

– Não.

– Não?

– Não – disse ele – Em nenhum momento eu falei que iria te impedir de se jogar. Eu disse que pularia atrás, e é isso que eu vou fazer.

– Se você pular você também morre!

– Bom, eu pretendo sobreviver à queda e te salvar, pois senão realmente não haveria sentido em pular… mas reconheço que minhas chances são poucas.

Ela fixa os olhos no homem, que estava olhando para um galho de ipê enroscado na margem do rio, enquanto suas folhas desprendiam-se lentamente.

– Isso não faz sentido… arriscar-se por alguém que não conhece… você nem sabe se eu sou uma pessoa boa, se eu valho a pena…

– E o quê faz sentido? Quem disse que tem que fazer sentido? De onde você tirou que há um sentido?

– Se eu me jogo, você pula, nós dois morremos. Pra quê isso?

– Talvez eu ainda vire nome de rua. Ou praça, se der muita sorte. Chato vai ficar pra você, pras pessoas que não vão entender o motivo de você ter pulado.

Ela mantém-se em pé, mas agora é toda dúvida.

– Existe um motivo pra eu fazer isso, eu não sou uma idiota. Mas… você… – enquanto pensa no resto da frase ela se abaixa e volta a sentar no gradil – Se eu pular você não me acha nessa água toda, acho que você não conseguiria sobreviver, muito menos me salvar.

– Veja então como tudo é relativo nesse mundo: esta pode ser a oportunidade que você tem para salvar a minha vida.

Ela continuou encarando o homem, que manteve-se resoluto. Virou-se para o rio e observou o galho de ipê soltar-se da margem e seguir o seu caminho. Não é possível saber o quanto tempo ela ficou ali, parada, nem no que pensou, mas a certeza que ela chegou a ter não existia mais, então não havia porquê continuar. Levantou-se, afastou-se do gradil, e decidiu voltar para casa.

Como não sabia o que dizer ao homem, apenas fez um sinal de com a mão e foi embora. Já tinha se distanciado alguns metros quando ouviu o barulho de algo caindo na água. O homem não estava mais ali, então ela procurou por algum sinal dele no rio, sem sucesso.

O que avistou foi certamente a coisa mais inusitada daquela noite: um boto, em pleno Rio Paraíba do Sul, nadando em direção do reflexo da lua.

Foi quando então percebeu que a chuva tinha passado.

 

***

 

A primeira Lenda Urbana você encontra aqui.