ago 302013
 

 

 

Certa manhã de sexta-feira meu pai me perguntou:

– Hoje é o último dia de inscrição na Unicamp, você não vai fazer o vestibular?

– Ah, pai, eu estou sem dinheiro e não estou estudando, não vale a pena.

– Faça a inscrição que eu pago. Pelo menos você já vai se preparando para o ano que vem.

Eu tinha acabado de deixar meu emprego como auxiliar de escritório e estava no quarto e último ano do curso técnico em mecânica. Não tinha me preparado em nada para o vestibular e nem sabia o que queria da vida, mas para o meu pai era natural que eu tentasse a Unicamp pois minha tia mora em Campinas e é casada com um importante professor daquela universidade.

Após horas de fila para pagamento da taxa no Banespa, ainda tive que levar os documentos para protocolar em São José dos Campos  (naquele tempo não existia inscrição pela internet). Foi só depois de ter pago a taxa que fui pensar sobre qual curso iria me inscrever, e como não havia curso de Direito na Unicamp resolvi tentar uma vaga para Ciências da Computação.

Essa opção, que hoje soa estapafúrdia, se deu porque na época eu estava fazendo um curso de informática. Pensei que seria legal estudar em uma faculdade em que pudesse ampliar meus conhecimentos em Word, DBase, DOS e Lotus 1-2-3.

Sim, eu não tinha noção nenhuma de nada.

Lembro ainda que na revista do vestibular da Unicamp uma grande amiga minha, a Gabriela, era destaque em uma das reportagens. Ela tinha entrado naquele ano no curso de Letras da universidade, e na revista falava sobre como tinha sido o dia em prestou o vestibular e sobre sua vida de bixete.

Quando contei ao meu pai da inscrição ele quis saber se eu não queria fazer um cursinho preparatório. Mais uma vez, disse-lhe que não tinha dinheiro, mas ele mandou eu procurar um que ele pudesse pagar. Na manhã seguinte fui parar no Objetivo, aonde me surpreendi ao saber que lá trabalhava um meu velho amigo dos tempos de primário, o Cesinha:

– O curso semi-intensivo começou em agosto – explicou o Cesinha – mas ainda é possível fazer inscrição. Venha às 15h para fazer a prova de bolsa, assim você um desconto de acordo com seu aproveitamento.

Ao chegar à tarde fui recebido com sorrisos pelo meu amigo:

– Parabéns, Wagnão! Você conseguiu 58% de desconto! Só não conseguiu mais porque senão sua nota seria a maior de todas e isso chamaria muita atenção!

Graças ao desconto que “consegui” sem sequer ter feito a prova o meu pai pôde pagar o cursinho, e depois que comecei a estudar me aventurei a prestar outros vestibulares, inclusive o da UNESP , que tinha o curso de Direito na longínqua cidade de Franca.

Passei na primeira fase na Unicamp, mas na segunda me compliquei com as provas de exatas (e eu pensei em fazer Ciências da Computação!). Tenho que a redação que fiz para esse vestibular é uma das melhores coisas que já escrevi, mas nunca vi sua correção e o texto se perdeu para sempre.

***

Certamente o Cesinha não tem  ideia de como ele foi importante ao me ajudar. Um gesto simples, uma molecagem, foi fundamental para que eu mudasse meus rumos e me encontrasse pouco depois, quase sem querer, estudando em Franca.

 

jan 312013
 

 

Campo do Elvira

 

Uma das personagens mais conhecidas em Jacareí durante a minha infância foi a Maísa, uma travesti mulata, de 1,80m, capoeirista e musculosa, que andava por toda a cidade de vestido e sandália.

Lembro-me de ir com meu pai algumas vezes nos domingos de manhã ao Bar do Mané, aonde eu comia kibe com Guaranita enquanto ele e seus amigos jogavam dominó. A Maísa entrava, fazia uma festa com todos, cumprimentava o meu pai pelo nome (“Tadeu”) e a mim pelo apelido (“Tadeuzinho”).

Dentro do bar muitos faziam piadas e brincadeiras com a Maísa, mas meu pai não gostava disso. Além de ser um postura de tolerância, também havia muita sabedoria em sua atitude, como descobri depois.

Em certo domingo o JAC disputava no Campo do Elvira uma partida pela 2ª ou 3ª divisão do Campeonato Paulista, e no intervalo do jogo eu, meu pai e meu irmão descemos das arquibancadas para irmos à lanchonete, quando então vimos a Maísa abrir um clarão no meio dos espectadores ao pegar pela gola da camisa um cidadão que antes havia lhe insultado. Ela levantou o rapaz até deixá-lo suspenso no ar e tascou-lhe um beijo na boca, enfiando-lhe a língua enquanto as pernas do indivíduo balançavam desesperadamente sem tocar o chão. Terminado o ato, Maísa jogou o cara contra o alambrado, deu-lhe uma encarada e saiu no meio do pessoal, que abriu passagem.

Meu pai aproveitou a oportunidade para compartilhar um ensinamento:

– Viram isso, meus filhos? Independentemente de sexo, cor ou religião, é muito importante tratar os outros com educação e respeito.

Eu e meu irmão consentimos com a cabeça, pelo que meu pai então completou:

– Principalmente quando esse outro é muito mais forte do que você…

***

A Maísa morreu faz algum tempo.

O Estádio do Elvira foi demolido para virar um condomínio.

E o meu pai também já se foi, hoje completam-se 12 anos.