jun 042020
 

 

 

Muitos anos atrás ouvi o grande Marcelo Nova, vocalista do Camisa de Vênus, dizer que odiava Imagine, do John Lennon. O roqueiro baiano reclamava que a música não era condizente com o perfil transgressor do roqueiro inglês, e que era usada para pasteurizar a imagem de um artista que atuou firmemente contra o establishement tanto em sua obra quanto em suas atitudes. “John não era bonzinho, era um porra louca contestador, mas a sociedade quer que pensemos nele apenas como o cara que dizia para vivermos como cordeirinhos em paz” – foi mais ou menos o que disse o Marceleza, invocado por tentarem retirar de Lennon o papel de herói da classe trabalhadora.

Na época dei razão ao Marcelo. Lennon foi considerado inimigo público pelo FBI graças à sua militância contra a Guerra do Vietnã. Deu declarações impactantes, posicionou-se sempre de forma contundente, criou músicas que subvertiam os padrões. Nunca foi um acomodado que simplesmente esperava viver de sonhos.

Pensava então que Imagine era ruim para o legado de Lennon até que vi Só O Céu Como Testemunha, documentário na Netflix que mostra justamente as gravações do álbum que tem essa música como título e carro chefe. Com belíssimas cenas de bastidores, o filme lança luz não apenas sobre a criação da obra artística, mas também sobre a relação entre John e Yoko.

Quem conhece um pouco da história dos Beatles sabe que havia muita injustiça em dizer que Yoko Ono foi a causadora do fim do quarteto. As tensões entre aquelas mentes tão poderosas já existiam antes da entrada da artista japonesa. A relação dela com John foi mais um ingrediente num caldo que já estava prestes a entornar.

O documentário mostra que Yoko não era apenas uma figura exótica, mas sim uma artista plena, convicta de suas ideias. Por xenofobia e por machismo muitas vezes ela foi retratada como uma figura ruim, mas o próprio John admite que Imagine não existiria sem a influência de sua companheira.

E não há nada mais contestador hoje do que Imagine.

Nesses dias realmente estranhos os nazistas estão saindo debaixo das escadas. Os ditos neoconservadores invocam despudoramente símbolos e frases fascistas para adotar posições cada vez mais sectárias e retrógradas, e cresce o número de pessoas que assumem descaradamente seus preconceitos a fim de justificar e garantir seus privilégios. Ao mesmo tempo, teorias da conspiração ridículas são veiculadas incessantemente, com fim de propagar medo e ódio.

É contra essa pregação do individualismo egoísta, da religião opressora, do nacionalismo tacanho, da brutalidade e da violência como o normal a ser conservado que a candura e a simplicidade de Imagine batem de frente. Sua força vem da sua beleza e coragem em se contrapor tal como a flor que enfrenta a espada.

O documentário Só O Céu Como Testemunha pode ser acusado de ser um tanto chapa branca, já que só vemos o lado bacana dos trabalhos e dos envolvidos, mas é fundamental para quem gosta de John Lennon e de Imagine. Não sei se o Marcelo Nova mudou sua opinião sobre a música, mas eu fiz as pazes com ela. E eu não sou o único.

 

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Em menos de 24 horas perdi dois amigos queridos.

José Carlos Peloia foi um verdadeiro mestre, guerreiro de fala mansa e sorriso largo, um irmão mais velho.

Paulo Bicarato foi companheiro de muitos cafés no balcão da padaria e de inúmeras cervejas na calçada do boteco. Esse blog existe muito por causa dele, o pai do Alfarrabio, um dos meus poucos leitores.

Apesar das grandes diferenças entre eles, tinham em comum a candura no trato com os demais. Nesse mundo tão brutal, farão muita falta. O Céu, por sua vez, ficará ainda melhor.

 

 

abr 202018
 

 

Faz tempo que não escrevo nada. Ando desanimado, me parece que o mundo já tem textão demais, todo mundo tem opinião sobre tudo e ninguém está entendendo nada. Manter um blog no atual cenário é apenas um exercício de egolatria: leiam o que eu escrevo pois a minha opinião é a mais certa e eu explico tudo pra você.

Tem um monte de coisas mais legais por aí do que acompanhar um blog. RICK AND MORTY, por exemplo.

Trata-se de um desenho adulto, engraçado, violento, niilista, herege e inteligente. Um neto bundão e seu avô cientista bêbado (inspirados na dupla McFly e Doc Brown, do De Volta para o Futuro) viajam por planetas, dimensões paralelas e realidades alternativas e depois voltam para a casa, que nem sempre – quase  nunca – fica imune às consequências. Ficção científica misturada com pitadas de filosofia, piadas sobre peido e monstros alienígenas que explodem em sangue. Na Netflix tem as duas primeiras temporadas.

 

 

WILD WILD COUNTRY é uma série documental bem legal, também disponível na Netflix, que mostra a história do um guru indiano Bhagwan Rajneesh (também conhecido como Osho) e sua tentativa de criar uma cidadela para seus seguidores em uma região praticamente deserta nos EUA. Logo no primeiro episódio aparece a imagem de alguém dizendo que, no futuro, alguém iria escrever um livro sobre aquilo tudo e chamariam de ficção. Pois é tudo verdade, e é tudo muito louco.

São seis episódios de cerca de uma hora cada um, mas passa rápido. O mais bacana é que ao longo da série a percepção sobre os envolvidos muda: os caipiras xenófobos também são vítimas de um bando de religiosos fanáticos; o governo está certo e errado em tomar medidas contra aquele mini-Estado não-cristão que está sendo criado no interior; nem todos os adeptos da filosofia paz e amor são de paz (mas amor eles faziam muito, pelo jeito).

Até agora fico tentando entender cada um dos personagens que são mostrados, mas estou longe de conseguir. Acho isso um grande mérito dos autores da obra.

 

 

Para que não pensem que eu estou sendo patrocinado pelo Netflix, lembro que no Youtube é possível ver todos os quadros do CHOQUE DE CULTURA, com os melhores nomes do transporte alternativo do Brasil e suas avaliações sobre filmes. O problema de assistir esses caras é que você acaba se interessando pelo FALHA DE COBERTURA e suas análises esportivas, aí dá de cara com o ESCROTO GOMES e suas frases bem elaboradas e, quando se dá conta, está assistindo O ÚLTIMO PROGRAMA DO MUNDO e cantando as versões em português de músicas grunge do Seu Getúlio.

 

 

Essas são apenas algumasgestões de coisas para ocupar o tempo que são mais interessantes que este blog. Quando eu tiver uma opinião certeira pra dar, ou precisar explicar algo de um jeito bacana, eu volto.

 

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maio 262015
 

 

Série Graphic Novel #02 Demolidor

 

Nos meus tempos de moleque, o Demolidor era o Sawamu dos desenhos japoneses.

O Demolidor dos quadrinhos americanos eu só conheci no começo da adolescência, depois que li O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller. O sucesso da revista daquele Batman soturno foi tão grande que a Editora Abril passou a publicar histórias mais caprichadas e com temática mais adulta na série Graphic Novel, que trazia bimensalmente uma nova edição com personagens e estilos diferentes.

Não por coincidência, o número 2 trazia uma outra HQ de Frank Miller, dessa vez desenhada pelo magistral Bill Sienkiewicz, e cujo personagem era o Demolidor, o herói cego que veste um uniforme de diabo (no original o personagem se chama Daredevil) e combate os criminosos de Nova York.

Comprei meu exemplar na banca de revistas que ficava em frente ao Supermercado Dias, gastando todos os duzentos cruzados que ganhei por lavar o carro do meu pai, e acho que mais um parafuso da minha cabeça caiu após a leitura. A arte era completamente diferente de tudo que eu conhecia – tinha colagens, pintura, grafismo, psicodelia e enquadramentos fora do padrão que realçavam os delírios do vilão psicopata.

 

Daredevil by Bill Sienkiewicz,o vilão

 

Mas apesar da edição caprichada e dos desenhos sensacionais, confesso que a revista me deixou desapontado pela “falta de ação”. Eu era jovem e queria ver o Demolidor quebrando a cara de todos os bandidos, por isso não contava com uma história em que o herói tivesse uma participação mais secundária na resolução da trama.

No final de semana passado tirei a revista da caixa em que repousa junto com centenas de outras HQ’s e reli a história com mais prazer do que tive anos atrás. Agora, mais maduro e vivido, pude compreender melhor as nuances do texto que complementa aquela arte tão única.

 

MARVEL'S DAREDEVIL

 

Meu interesse em reler a história após tanto tempo nasceu depois de ver a série do Demolidor, produzida pelo Netflix.

Trata-se de uma adaptação para televisão muito boa. A essência do herói foi mantida, assim como as dos coadjuvantes. Muitas das ideias dos quadrinhos foram utilizadas, e as “liberdades” tomadas funcionam bem, embora algumas tenham me causado espanto (como deixei de acompanhar as HQ’s faz tempo, pode ser que a morte de determinado personagem não seja algo verdadeiramente novo).

Achei muito interessante mostrar a iniciação de Matt Murdock como herói mascarado ao longo dos treze episódios, sem que houvesse pressa em vesti-lo no uniforme. Quase todas as críticas que vi elogiaram a série, e em apenas um texto o autor reclamava da “falta de coerência” com os quadrinhos em razão do herói ter se exposto demais para resgatar uma criança no segundo episódio. O insatisfeito reclamou que, para privilegiar a ação, o personagem abriu mão da inteligência que habitualmente usava em suas histórias.

Ora, o Demolidor da série, que ainda nem usava esse nome, é justamente um herói em construção, aprendendo com os próprios erros e em busca de uma causa e uma identidade. Dada a sua inexperiência, seria mesmo natural que no início de carreira usasse os punhos em detrimento do cérebro.

É preciso amadurecer com os anos para aprender que quebrar a cara de todos os bandidos nem sempre é o que torna alguém um herói (ou uma história) especial.

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