maio 292012
 

 

 

Outro dia vi uma velha entrevista do Renato Russo em que ele dizia, envergonhado, que não tinha gostado do Nevermind. O vocalista admitiu que sentia-se um tanto constrangido por não ver graça no Nirvana e em toda a cena grunge que dominava o cenário do início dos anos 90 (cabe lembrar que Renato tinha sido punk, e era um grande conhecedor de rock, embora às vezes cometesse umas italianadas e menudices sem sentido).

Acontece nas melhores famílias: um monte de gente que você respeita acha algo ou alguém genial, mas você não compartilha daquela empolgação e se sente meio culpado por isso.

Eu, por exemplo, carrego o remorso de não gostar de Bob Dylan. Por mais que saiba que ele é um dos maiores artistas de todos os tempos, e reconheça que ele tenha sido fundamental para toda a cultura gerada a partir dos anos 1960, apenas consigo ouvir três ou quatro de suas músicas. E eu bem que tentei: comprei uma coletânea e um álbum (Modern Times, que foi bastante elogiado no seu lançamento) mas não teve jeito.

Acho que meu inglês é capenga demais para entender a profundidade de sua obra e para perdoar sua voz roufenha, mas isso não me parece tão verdadeiro quando lembro que adoro Neil Young, que também canta em inglês e não tem uma das mais belas vozes do mundo.

 

 

No fundo, acho que é tudo uma questão de gosto, coisa que não se discute – ainda mais consigo mesmo.

abr 202012
 

 

Só porque eu não gosto de músicas que rimam coração com paixão não quer dizer que eu não tenho sentimentos. Eu gosto de canções que falam de amor sim, principalmente aquelas que não se parecem com canções de amor.

Para ilustrar o que estou dizendo, veja como o Pixies fala de um grande, grande amor:

 

 

Uma das mais belas letras do Radiohead fala sobre o fim do relacionamento em uma música frenética e caótica:

 

 

E entre longos solos de guitarra, Neil Young fala sobre querer amar em uma música de mais de 8 minutos – isso sem ter que repetir setenta e oito vezes alguma idiotice do tipo “quero um amor maior/amor maior que eu”:

 

 

Ser romântico, como quase tudo na vida, é uma questão de ponto de vista.