ago 172020
 

 

 

 

Já havia se passado cinco minutos desde o último contato, mas ele estava tranquilo. Graças a experiências anteriores, aprendeu que não deveria criar grandes expectativas, por isso escolheu estrategicamente a mesa daquele restaurante não mais que mediano: era discreto o suficiente para passar desapercebido, barato o bastante caso o encontro não valesse a pena.

Quando ela chegou, concluiu que fez escolhas sábias. Não que ela fosse feia, mas estava longe de ser aquela mulher do aplicativo. “Todo mundo mente nas fotos”, pensou enquanto sorria.

“Não se parece muito com o que está no Tinder”, foi o que ela pensou ao ver o homem. Seu atraso foi intencional. Não queria correr o risco de chegar e não encontrar ninguém, por isso esperou no carro por cinco minutos depois que ele confirmou já estar sentado no canto dos fundos do restaurante. Ao se aproximar, estranhou o tom chamativo da gravata que ele usava, que destoava de um certo glamour que a havia impressionado na rede social. “Será que ele usa fotos de outra pessoa?”

Depois que se cumprimentaram sem muito jeito, passaram a tentar se conhecer melhor. Ela disse que gostou do ambiente, o que era uma meia verdade, e ele contou que ia sempre naquele restaurante por gostar muito da comida, o que era uma mentira completa. Ela falou do calor, ele disse que mais tarde choveria, ela complementou sobre a previsão para os próximos dias. Aos poucos começaram a tratar sobre coisas mais pessoais e diretas, mas ela se interessou de verdade pela conversa ao saber que ele era médico.

– Cirurgião plástico? Jura? Que bacana!

Ela lembrou então das fotos do perfil dele, todas em lugares chiques, e pensou que poderiam ser verdadeiras apesar de antigas. Os sorrisos se tornaram mais frequentes, até que uma pergunta veio como tapa:

– Vejo que você já foi muito bonita. Nunca pensou em fazer umas intervenções para resgatar a antiga forma?

Ela engasgou com a bebida, o que evitou que um palavrão fosse dado em resposta. Saiu apenas um “poxa!”, tanto indignado quanto surpreso, mas ele continuou:

– Desculpe, eu sou um tanto direto mesmo, é que você ficaria ainda mais bonita do que está com alguns procedimentos simples…

– Mais bonita do que “estou”?

– Sim, veja, não quero te ofender, mas o tempo passa para todo mundo, né? Você tem quantos anos mesmo, 40? – Tinha 43, mas no cadastro do aplicativo constava 39. – Então, não é nada demais pensar em se cuidar. Por exemplo, uma mastopexia deixaria você ainda mais bela e confiante.

Ela não sabia o que era mastopexia, mas como ele usou as mãos em frente ao próprio peito para simular levantamento de seios, nem precisou perguntar. Sentiu vergonha de estar com o decote tão à mostra, justo esta que era uma de suas armas de sedução que mais valorizava.

– Escuta, isso é coisa se diga para uma mulher no primeiro encontro? Quem você está pensando que é?

Ao contrário do que ela havia imaginado, ele não se achava alguém bonito o suficiente para tecer críticas à aparência dos outros. Pelo contrário, sabia que estava longe de ser alguém que, sem a ajuda de fotografias em ambientes chamativos e estrategicamente selecionados, seria capaz de conseguir um encontro com alguém minimamente interessante.

Porém, mais do que encontrar um grande amor, ele imaginou que os aplicativos de paquera poderiam servir para conseguir novas pacientes. As coisas estavam difíceis, ele não era um médico tão bom, então achou que seria uma ótima ideia explorar o segmento de mulheres de meia idade solteiras e eventualmente inseguras com a própria aparência. Ou aquelas que, ao menos, dessem chance para que ele suscitasse tal insegurança.

Ela aceitou o pedido de desculpas e as explicações que ele deu. Continuava um tanto indignada – e isso iria demorar a passar – mas já tinha tido desilusões demais para se revoltar alguém já no primeiro encontro. Ainda mais se esse alguém fosse um médico aparentemente rico.

Viver um grande amor também não era o que ela procurava na internet. Ficar com alguém legal, minimamente bonito, e que lhe desse conforto já era o suficiente. Se este alguém pudesse fazer umas cirurgias plásticas e a deixar mais bonita, que mal haveria?

Depois daquele primeiro encontro estranho vieram outros. E vieram também três aplicações de botox, uma lipoescultura e um procedimento de lifiting de mama. O relacionamento durou até que o segundo cheque dado por ela voltou sem fundos.

Ele deixou de achar que era uma boa ideia procurar por pacientes no Tinder, e ainda hoje tenta receber pelos serviços que prestou. Ela, por sua vez, passou a abusar mais dos decotes e voltou a usar o aplicativo para encontrar advogado que a defenda no processo de cobrança.