maio 112020
 

 

 

No final de 2006 o Brasil vivia a crise do “apagão aéreo”, que foi o colapso do sistema de transporte aeroviário no país. Equipamentos falhavam, voos atrasavam, aeroportos lotavam. Um dos muitos episódios de falência estrutural que fazem parte do cotidiano do brasileiro e que só virou escândalo à época porque atingia a classe média.

Numa sexta-feira qualquer daquela crise, eu estava no aeroporto do Galeão, aguardando para embarcar de volta para São Paulo, entre centenas de milhares de pessoas que lotavam o saguão de espera. Eu tinha ido à trabalho ao Rio, e se terno e gravata já não combinam bem com a Cidade Maravilhosa, a vestimenta ainda ficava pior num ambiente no qual o ar condicionado não conseguia dar conta da sua missão. Os famosos que frequentam a ponte aérea suavam tanto quanto os anônimos, todos em igual situação de desconforto.

Havia um indivíduo, porém, mais inquieto que os demais. Vestido de calças e jaqueta jeans, óculos escuros e com um violão nas costas (por que ele não despachou aquilo com as bagagens?), a figura se portava como se estivesse no palco do Gugu, e talvez fosse para lá que ele estivesse indo mesmo. Era do Dado Dolabella, ator/cantor que surgiu na Malhação, fez algum sucesso na Globo, mas que depois começou a decair até se tornar mais famoso pelas notícias policiais do que pela sua música.

Pensando melhor, acho que ele nunca foi famoso pela música.

No meio do saguão, Dado se movimentava como se estivesse numa sessão de fotos, ao tempo que parecia incomodado por ninguém lhe pedir um autógrafo. Andava um pouco e parava fazendo pose, claramente querendo chamar atenção, mas ninguém lhe dava bola, o que fazia que ele ficasse ainda mais irrequieto.

Formou-se a fila de embarque – que até não demorou tanto, tenho que admitir – e lá estava ele, pronto para embarcar no mesmo voo que eu. E, como não poderia deixar de ser, o figura sentou-se na mesma fileira de poltronas que eu sentei, apenas o corredor nos separava. Pior que isso só se estivéssemos indo de Cometa para Franca.

Eu percebi que quando ele entrou fez um gesto de cumprimento para alguém, mas não foi possível ver quem estava na janela, também na nossa fileira.

Durante o percurso o artista continuou inquieto. Contorcia-se na poltrona e chamava a comissária. Chamava a comissária e levantava. Levantava e contorcia-se. Achava que brilhava, e parece que estava cheio de brilho mesmo.

Quando desembarcamos pude ver que a pessoa que ele cumprimentou era a atriz Regina Duarte. Pensei comigo como eram discrepantes as atitudes. Ele, que não era ninguém na fila do pão dos artistas, deu um show durante o tempo todo, e ela, que era uma atriz renomada, uma das maiores estrelas da Globo, portou-se de forma discreta, quase imperceptível. A partir de então fiquei com uma boa impressão da Regina Duarte e contava essa história como um testemunho de demonstração de um combate entre a vaidade e a humildade.

Julgamos conhecer as pessoas e criamos juízos de valor sobre elas a partir de fragmentos e concepções que nada têm a ver com a realidade. Hoje, passados quase quinze anos dessa história, me pergunto se o Dado foi tão insuportável naquela tarde mesmo, ou se eu tive essa impressão porque já tinha uma imagem ruim daquele cara. Do mesmo modo, o que me levou a pensar que Regina Duarte seria um exemplo de modéstia se o que ela fez não foi nada além de se portar com um mínimo de educação no voo?

Regina, aliás, demonstrou nesses últimos anos ser uma pessoa ruim, de mau caráter, completamente dissociada da realidade. Está certo que ela já tinha dado sinal disso quando fez a famosa presepada do “eu tenho medo” em 2002, mas acho que eu quis acreditar que aquilo se deu em meio à efervescência eleitoral da época.  Nos últimos tempos, porém, ela revelou ser alienada ao declarar seu apoio ao quadrúpede que exerce a presidência e, ao aceitar um cargo no governo, assumiu a idiotia e a canalhice que foram verbalizadas na já histórica entrevista à CNN Brasil.

Talvez Dado não seja tão cusão quanto eu imagino (tá, duvido que não), assim como Regina não é a boa senhora que eu pensava. O que sei é que não podemos tirar conclusões de episódios únicos ou sobre fatos que mal conhecemos. Alguém que acha que me conhece pelo blog, por exemplo, pode ter a impressão de que eu sou um cara legal, o que não é endossado por quem convive comigo.

Os que me aturam, todavia, têm a tranquilidade de saber que, mesmo que eu sofra um apagão mental, jamais apoiarei a corja que hoje está no poder.

 

 

 

 

 

 

set 182018
 

 

 

 

O telefone tocou às 3h55. Muito antes da hora programada para o alarme, pouco depois que Luiz se deitara. O quarto foi iluminado pela claridade da tela do celular, que vibrava e emitia um som repetitivo, transformando o cômodo numa pequena boate para o homem que acordou assustado.

– Alô? Alexandre? O que houve? – Perguntou Luiz,com uma voz que denunciava que o álcool ainda não fora devidamente processado pelo organismo.

– Cabeça, me diz uma coisa, quem ganhou a Copa de 82?

– Como é que é?

– A Copa de 82… Quem ganhou?

Breve silêncio.

– Puta que pariu, Alexandre! Cê viu que hora são? Eu tô dormindo, cacete, quase morri do coração!

– Responde pra mim, Cabeça, por favor.

– Você está mais bêbado que eu, é isso?

Luiz morava a mais de seiscentos quilômetros de São Paulo, e não sabia o que tinha acontecido com seu amigo dos tempos de colégio. Era chamado pelos colegas de Cabeça graças ao seu conhecimento enciclopédico sobre futebol, e sempre era consultado quando surgia uma discussão acerca de algo fundamental como o nome do zagueiro central da Portuguesa de 96 ou o placar do jogo entre Santos e Corinthians no Paulistão de 87.

Seu interesse por esportes o levou a cursar educação física em Presidente Prudente, e por lá ficou depois da pós-graduação, tornando-se professor na faculdade que frequentou. Agora ele estava ao telefone com Alexandre, um amigo querido, mas de quem não tinha notícias há algum tempo, e que lhe estava fazendo uma pergunta ridícula no meio da madrugada.

– Cabeça, aconteceram umas coisas, eu não sei se você está sabendo, mas eu preciso que você me diga sobre a Copa.

– O Brasil perdeu em 82, Alê… Todo mundo sabe, o mundo inteiro sabe, você sabe, conversamos sobre isso várias vezes… O que está acontecendo?

Alexandre fez silêncio por uns instantes e respirou fundo antes de responder:

– Eu tive um acidente, Cabeça… Fiquei em coma por uns dias mas agora eu estou recuperado.

– Cara, eu não sabia – disse Luiz, já de pé e a caminho da cozinha, aonde foi buscar um copo de água – Você está bem? O que aconteceu?

– Eu estou bem, mas… O Brasil não ganhou aquele jogo da Itália nos pênaltis? Eu tinha certeza que o Brasil tinha passado pela Itália, depois da Holanda, e vencido a Alemanha na final, por dois a zero.

– Putz, que confusão! O Brasil perdeu da Itália: três a dois, com três gols do Paolo Rossi. A Holanda nem jogou aquela Copa!

– Meu Deus! Eu me lembro claramente dos gols da final… O goleiro soltando a bola nos pés do Zico…

– O goleiro alemão soltou a bola nos pés do Ronaldo, em 2002. Você está fazendo uma salada futebolística: a Itália perdeu nos pênaltis pro Brasil na final da Copa de 94, a Holanda perdeu na semifinal em 98 e a Alemanha perdeu em 2002.

A seleção de 82 entrou para a história justamente por ter sido formada por uma geração de craques que não venceu, mas não era disso que Alexandre se lembrava. Pouco antes de fazer a ligação ele resolveu acessar a internet, coisa que não tinha feito desde que deixara o hospital. Abriu as redes sociais e leu várias das mensagens que tinham sido deixadas em seu perfil, mas eram tantas que logo se cansou. Começou a navegar pelos sites e se deparou então com uma entrevista de Falcão, o Rei de Roma, na qual ele falava sobre as causas do fracasso da seleção na Copa da Espanha.

Alexandre ficou sem compreender, afinal, a alegria pela conquista daquela Copa tinha sido um momento mágico de sua infância. Ele se lembrava de comemorar abraçado com seu pai e seus irmãos, do seu tio chorando, da sua mãe vestida de amarelo na casa da rua do morro.

De repente, tudo aquilo não era mais verdade, tudo se tornou estranho.

Sem pensar muito no que fazia, ligou para o amigo que mais confiava acerca de memória do futebol, e se sentiu mais confuso ainda. Mesmo depois de confirmada a notícia da derrota, foi difícil aceitar. Não havia motivos para duvidar do Luiz Cabeça, mas suas lembranças eram tão firmes e detalhadas que era difícil não crer que eram reais.  Uma parte feliz da sua infância lhe foi arrancada repentinamente, causando não só um vazio difícil de explicar, como também uma séria preocupação com a própria sanidade.

– Alê, Alê… Cara você está aí?

Alexandre ouviu o chamado do amigo e olhou para o telefone, desolado. Deu um sorriso triste e disfarçou:

– Ei, Cabeça, são esses remédios que eu ainda estou tomando. Eles me deixam sem dormir direito e aí eu fico meio xarope. Faz três dias que eu saí do hospital e ainda deve ter muita porcaria no meu sangue! Cara, me desculpe por ligar a essa hora, eu devo ter sonhado com esses jogos aí que eu falei pra você e aprontei essa presepada, tô até com vergonha!

– Alê, você está bem mesmo? Eu estou em época de provas na faculdade mas posso me planejar pra ir pra São Paulo em breve, assim você me coloca em dia com todos esses acontecimentos.

– Vai ser muito legal te receber aqui – mentiu Alexandre – Eu estou bem, pode ficar tranquilo – mentiu de novo.

– Tá bom, meu irmão, a gente se fala. Fiquei preocupado com você.

– Não precisa não, Cabeça. Eu estou bem. Vou acordar achando que essa conversa que estamos tendo agora é um sonho, depois vai me bater uma ressaca moral quando confirmar no histórico do celular que eu te liguei mesmo.

– Nem me fale de ressaca que já começo a sentir os efeitos da minha. Fica com Deus.

– Grande abraço!

Luiz desligou o telefone e não sabia se ficava preocupado ou se dava risada do amigo, que parecia estar mais chapado do que ele. Decidiu que voltaria a pensar nisso depois que estivesse recuperado, se ajeitou na cama para voltar a dormir, e então lhe veio um pensamento à cabeça: “Se Alexandre pensava que o Brasil venceu a Copa de 82, o que será que aquele maluco lembra da Copa de 2014?”

 

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