ago 132013
 

 

juri

 

No velho salão do júri, Dr. Feliciano, o promotor de justiça, apresentava seus argumentos de forma categórica, com segurança e domínio sobre o assunto, enquanto o advogado parecia estar mais interessado nas mensagens que trocava pelo telefone celular.

Aquele pouco caso, porém, era fachada. Doutor Gregório, defensor experiente e matreiro, estava atento a cada palavra dita pela acusação. Sua dissimulação tinha como objetivo apenas não expor aos jurados sua preocupação com o bom desempenho do outro debatedor – de fato, antes do começo dos trabalhos o advogado achava que teria poucos bons argumentos para apresentar, e a dificuldade de sua missão cresceu graças a exposição tão convicta do promotor.

Depois de uma hora e meia de explanação a acusação encerrou sua parte inicial, e o juiz suspendeu o julgamento por alguns minutos antes que o advogado fizesse a defesa. Todos dentro do salão estavam curiosos para saber como o Dr. Gregório iria refutar os argumentos tão bem sustentados pelo promotor, enquanto o réu já parecia desconsolado.

O advogado aproveitou aquela pausa parar ir ao banheiro. Depois de lavar o rosto ficou algum tempo encarando o espelho, pensativo. Caminhou de volta ao salão lentamente, torcendo uma das pontas do cordão de sua beca com as mãos, e então viu algo que talvez não despertasse a atenção dos demais presentes, mas que para ele foi o suficiente para fazer voltar o sorriso em sua face.

O promotor Feliciano estava conversando com uma bela moça, chamada Lúcia, que aparentava ser um pouco mais jovem que ele. Pela maneira que ela estava vestida e pelos livros que carregava estava claro que era uma estagiária do Ministério Público. Gregório ficou observando os dois e viu que para falar com ela o acusador inclinava a cabeça para o lado, colocava a mão levemente sobre o braço da moça e terminava cada frase com um sorriso. O advogado então chegou mais perto e percebeu também que o tom de voz que o Feliciano usava com a estagiária era outro, bem como era diferente o olhar.

Quando o juiz pediu que todos retomassem os seus lugares Gregório passou pelos dois, fez um cumprimento discreto à mulher e antes de se sentar foi até o promotor. Com uma mão no ombro de Feliciano, fez um gesto com a cabeça, deu um sorriso maroto e disse em voz baixa: “Hmmmm…”. Olhou novamente para a moça e foi para a sua mesa para começar de lá sua exposição.

Feliciano ficou claramente incomodado com aquilo. “Que coisa despropositada!”, pensou ele. “Que acinte! Que ousadia! De onde será que ele tirou a ideia de fazer isso? Será que… será?”

O jovem promotor tinha atração por Lúcia há tempos, mas sempre tentou ser muito discreto em relação a isso. Ele ouvira dizer que ela tinha um namorado e que era apaixonada, embora ninguém soubesse quem seria esse homem. A fidelidade de Lúcia ao rival misterioso sempre foi uma barreira para investidas contundentes, mas mais importante ainda para a discrição de Feliciano era o fato dele já ser casado.

Enquanto o promotor tentava decidir se Gregório tinha ou não dado alguma indireta, o advogado começou sua parte no debate fazendo os tradicionais cumprimentos ao juiz, aos jurados, aos policiais e ao público, deixando para citar o representante do Ministério Público por último. Quando então se dirigiu ao promotor fez sua saudação com um sorriso cúmplice no rosto, o que deixou o jovem ainda mais desconfortável.

A tese da defesa, para surpresa de todos, teve como introdução uma explanação sobre o amor e traição. Embora não tivesse muita relação com o caso que estava sendo julgado o advogado teve habilidade para adequar o discurso, contextualizando os fatos como se fossem parte de um quadro amoroso.

Gregório foi ainda mais hábil ao jogar as palavras como tijolos na direção do acusador, que se sentia exposto e mal podia se conter na cadeira.

O promotor tinha trabalhado muito antes do júri para compensar sua falta de experiência, e aquela situação inusitada, de se ver como réu da própria consciência, prejudicou sua concentração e seu foco no julgamento. Ele sentia – com razão – que cada gesto feito pelo defensor era uma forma de apontar para a sua direção e para Lúcia, que tudo observava sem de nada desconfiar.

Terminado o trabalho da defesa, o juiz perguntou à acusação se gostaria de fazer a réplica, no que consentiu o promotor. Contudo, toda a convicção e segurança que ele exibira na primeira parte de seu discurso haviam sumido. A sensação de ter sido descoberto misturava-se com o medo de ser desmascarado, por isso ele não conseguiu repetir a firmeza de antes, fazendo que agora seus argumentos soassem frágeis e confusos.

Voltando para a tréplica, o advogado sustentou para os jurados que a tese da defesa era tão boa que o próprio promotor perdera a convicção em suas palavras.

 

***

 

À noite, entre os lençóis a mulher diz:
– Poxa, você foi ótimo hoje, amor, mas eu fiquei com pena do Dr. Feliciano. Eu nem ia subir para assistir o julgamento, mas você me mandou a mensagem…
– É que você é mais que uma musa pra mim, Lu… Agora venha cá e me dê um beijo que eu quero comemorar…

 

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fev 222012
 

 

 

Depois de dias de estudos, o jovem advogado chegou ao fórum conhecendo cada linha daquele processo tão importante. Além de ser a sua estreia perante o júri, era um caso de grande repercussão na mídia, e o réu jurara não ser culpado pelo homicídio.

A promotora de justiça apresentou uma acusação muito dura, mas o defensor achava-se pronto para rebatê-la. Mais inquietante que as palavras da representante do Ministério Público era a dor na barriga que começara de manhã e que teimava não passar.

Quando chegou sua vez de apresentar os argumentos começou com a voz vacilante, mas foi ganhando firmeza ao falar aos jurados sobre sua importância para realização da justiça. Explicou então sobre a supremacia da Constituição, discorreu sobre o devido processo legal e alertou para o princípio da inocência. Ressaltou a necessidade de provas para condenação criminal, apontou as falhas da inquérito e bradou que é um absurdo que o réu, que se chamava Clodoaldo, fosse apontado como autor do crime uma vez que as informações no inquérito davam contam que foi um tal de Claudinho o verdadeiro responsável. Frisou por várias vezes que nenhuma prova havia contra Clodoaldo, e que nada havia sido feito para localizar esse Claudinho.

A promotora foi para réplica e foi muito ríspida, o que fez o advogado voltar para a tréplica possesso. Embora os debates tenham sido muito inflamados, o júri demonstrou boa aceitação à tese do defensor.

Terminados os trabalhos da acusação e da defesa, o juiz perguntou aos jurados se eles precisavam de algum esclarecimento. Um deles fez uma pergunta por escrito, que foi repassada pelo magistrado:

– Senhor Clodoaldo, o jurado gostaria de saber se o senhor tem algum apelido.

– Tenho sim, senhor.

– Qual?

– Claudinho.

Ao receber a notícia da condenação por quatro votos a três o advogado estava tão bravo que quase lamentou a pena ter sido de apenas 6 anos de cadeia. E ao avisar seu cliente, foi bastante enfático quanto as chances de uma apelação: por mais que seja permitido espernear, não existe nenhum recurso legal que dê jeito em burrice.