abr 122017
 

 

 

“Quanto tempo faz? ”.

Caía uma chuva fina e a noite já estava alta, mas mesmo assim Carlos tirou o capacete para melhor observar a casa amarela de portões brancos. Era um imóvel simples, mas conservado com visível cuidado, que ficava numa pacata rua da cidade.

Enquanto ele tentava se lembrar de quando aquela estranha noite aconteceu, veio à sua mente a imagem de Amanda.

***

Moça de traços delicados que ressaltavam seus grandes olhos castanhos, Amanda tinha uma beleza que estava longe de ser exuberante, mas que cativava. Embora muito tímida, era tida como uma boa colega por seus companheiros de faculdade, e foi graças a um trabalho em grupo que Carlos se aproximou da moça.

Aos poucos o coleguismo se transformou em amizade, e a amizade virou namoro. O convite que ela fez a Carlos para que fosse uma noite jantar em sua casa foi então um passo firme ao um compromisso mais sério, o qual ele estava pronto a assumir.

O convite era ainda mais especial para Amanda. Sua mãe morrera fazia alguns anos e a partir disso ela se tornara mais reservada. Carlos seria o primeiro namorado a ser apresentado a seus familiares.

Carlos chegou pontualmente às 20h, parou sua moto em frente ao portão e tocou a campainha com certa apreensão. Amanda surgiu na porta e deu um sorriso largo, como não estava acostumada a dar, e abriu o portão apressadamente. Deu um beijo em Carlos e pediu que ele entrasse e deixasse a jaqueta e o capacete sobre a poltrona. Não houve tempo para continuar a se sentir incomodado: o pai de Amanda, Onofre, veio e lhe deu um abraço, e o menino Jonas também se mostrou um bom anfitrião.

À vontade, conversaram na sala até que o timer do forno tocou, avisando que a refeição estava pronta. Foi quando passaram à sala de jantar que Carlos viu que havia cinco pratos à mesa, o que o fez perguntar:

– Vocês estão esperando mais alguém?

Amanda voltou a sorrir sem graça, apontou para o lugar da mesa aonde Carlos iria ficar, puxou a cadeira e começou a explicar:

– Carlos, eu já te contei que nós somos espíritas, não foi?

– Sim, e eu te contei que eu ia num centro pra tomar passe de vez em quando.

– Pois é… Então, aqui em casa, todo mundo é médium também.

O rapaz arcou com o corpo para frente, se ajeitando melhor para o que viria em seguida.

– Meu pai psicografa mensagens. Meu irmão ouve os espíritos. E eu sou médium vidente. Eu vejo, mas nada ouço.

– E isso tem relação com o prato a mais na mesa por que…

– É a minha mãe, Carlos. Ela que está ali. De vez em quando ela vem e participa das coisas da casa conosco, e hoje ela fez questão de vir te conhecer.

– Sua mãe?

– Sim…

Desta vez foi Carlos que sorriu sem graça. Não deu continuidade ao assunto, mas ficou visivelmente incomodado com a situação. Às vezes mirava para o prato posto à mesa e a cadeira vazia, mas rapidamente desviava o olhar para os anfitriões, que perceberam o mal-estar da visita.

A conversa, que fluía naturalmente no começo da noite, passou a se tornar escassa. Carlos então apressou sua despedida dizendo que precisava dormir cedo e que tinha muito trabalho no dia seguinte.

Pegou suas coisas, deu um beijo em Amanda e foi embora com sua moto à toda velocidade.

 

***

 

Agora Carlos estava de volta ao portão, sem saber muito bem o motivo. Repentinamente, a porta se abriu e Amanda apareceu. Ele deu um passo para trás, mas assim que se virou para a rua pôde ouvir:

– Espere!

Ele parou e olhou para a moça, que chorava. Ele perguntou o porquê das lágrimas, mas ela somente abriu a porta e depois o portão, e pediu para que ele entrasse.

– Você sempre será bem-vindo aqui – disse ela.

Carlos entrou timidamente. Tirou a jaqueta e colocou sobre o mesmo móvel da outra vez. Ao colocar o capacete, todavia, percebeu a enorme rachadura no casco. Confuso, foi levado por Amanda até a sala de jantar, e lá estava sentada uma mulher com cerca de cinquenta anos, de olhos grandes e sorriso tímido, que disse com voz suave:

– Venha, Carlos, sente-se no seu lugar. Agora nós dois precisamos conversar.

 

 

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