mar 012012
 

 

Techerinha sempre jogou pelo JAC DA FLORESTA, com exceção de algumas partidas beneficentes que fazia pelo mundo para distribuir solidariedade e divulgar os conceitos práticos e teóricos do glu-glu. Apesar de profissional, jamais dispensava uma pelada e quanto mais isso fosse literal, melhor.

Certa vez, contudo, nosso herói quase deixou a paradisíaca terra natal para ir jogar no exterior. Ele já estava no final de sua gloriosa carreira e muitos amigos o aconselhavam a ir ganhar dinheiro no estrangeiro, como Pelé fizera anos antes.

Mas Techerinha não estava decadente quanto o ex-santista e não queria jogar num time de mentira num lugar aonde o futebol não era mais que uma farsa.

É preciso deixar claro: se Pelé merece crédito por alguma coisa, foi por ter sido um dos precursores do showbol: com a carreira praticamente acabada, foi se exibir em gramados sintéticos, com outros jogadores semi-aposentados, em times inventados. O tal do Cosmos, por exemplo, não tinha passado algum e hoje nem existe mais. Era um Grêmio Barueri de Nova Iorque, nada mais que isso.

Techerinha só aceitou propostas que vieram de times tradicionais, e no final brigavam pelo passe do craque os históricos Barcelona e Arsenal (Barcelona de Quayaquil e Arsenal de Sarandí, é certo, mas ainda assim mais tradicionais que o Cosmos).

A notícia de uma possível saída do mestre do absurdo inflamou os ânimos. Os fãs então organizaram e os movimentos “Fica, Techerinha” e “Num vai embora, zé ruela!” tomaram as ruas da cidade. O gênio ficaria sensibilizado com as centenas de milhares de cartas que lhe enviaram, caso soubesse ler.

Como estava na dúvida entre qual time escolher, o craque decidiu se informar sobre as cidades envolvidas, e ao final optou por não sair do JAC DA FLORESTA. Ao ser perguntado sobre os critérios utilizados, o craque foi enfático: “Cumé qui vô morá numa cidade qui num tem bolinho caipira?”.

Ao contrário de Paris, que não conseguiu segurar Zidane, Jacareí manteve o seu maior craque graças a pujança de sua culinária.

 

 

 

jan 252012
 

 

 

Techerinha foi verdadeiro o melhor jogador de todos os tempos, mas os felizardos que integraram o time do JAC da Floresta ao lado do craque também merecem ser lembrados e reverenciados. Vamos agora citar os atletas que marcaram a história do futebol jogando do meio de campo daquele time inacreditável: Sem-Dedo, Lepra, Cotoco e Trofel.

Marco Aurélio Leite Sá Magalhães, o Sem-Dedo, começou sua carreira como lateral-direito, mas como não conseguia segurar a bola para fazer a cobrança de lateral foi jogar na meia direita. Rápido e inteligente, sua maior arma era o “chute de falso efeito” (ou “chute com defeito”, como chamava Techerinha), que consistia em chutar a bola como se estivesse batendo de três-dedos, fazendo o goleiro adversário esperar que a bola fizesse uma curva que não acontecia – e o pobre arqueiro era enganado porque a pelota seguia uma linha reta. Fato marcante em sua carreira foi a polêmica sobre um pênalti que teria cometido por ter posto a mão na bola, o que suscitou a dúvida na arbitragem internacional: uma pessoa que não tem dedos tem mão?

Lepra  era o apelido de  Wladimierz Leprachonitiviksndt. Veio jovem ao Brasil, fugindo da guerra na Virílya, vizinha da Chechênia. Nunca se acostumou com nosso hábito de tomar banhos diários e por isso exalava um cheiro horrível, como se fosse podre. Era um volante que sabia sair jogando, mas sofria muito com o calor tropical, que fazia sua pele se descamar um pouco a cada jogo. Lutador, encerrou sua carreira após ter literalmente suado sangue pelo time.

Leonardo Braulio Zaupa Coelho, o Cotoco, era um negro alto e forte, com físico de halterofilista, que surpreendia pela velocidade e vigor. O apelido foi dado por uma decepcionada ex-namorada que dizia que aquele negrão era grande em quase tudo. O jogador sempre se defendeu alegando que era maledicência dela, mas ele nunca dividia os vestiários com os colegas. Os mais próximos falavam que “Mindinho” também seria um bom apelido.

Outro grande craque era Sérgio Trofel, que apesar de ser um cavalheiro dentro de campo perdia a cabeça quando o chamavam de Troféu. Ele sempre gastava tempo demais explicando que a pronúncia de “tro-fel” é completamente diferente de “tro-féu”, e de tão irritado que ficou com as confusões e brincadeiras chegou até a mudar de nome: hoje o ex-atleta responde por Sérgio Tassa.

 

 

dez 172011
 

O JAC DA FLORESTA realizava a turnê JAC IN USSR quando foi jogar em Marakanansky, cidade ao sul de Moscou. Naquela pacata localidade havia sido construído um estádio para mais de trezentos mil espectadores, que não chegou a ser reconhecido como o maior do mundo por falta de um simples alvará dos bombeiros. Coisa típica da burocracia soviética.

Apesar de Techerinha ser muito admirado no outro lado da Cortina de Ferro, o jogo foi tenso. Durante toda a partida o craque foi vítima da violência do zagueiro Hailtovsky, o Piolho de Aprazivikovsky, que contava com a complacência do árbitro local.

Techerinha quase nunca perdia a calma – “Fico nelvoso quando fico sem fazer glu-glu, então nunca fico nelvoso” dizia o craque – mas naquela tarde ele se irritou com o Hailtovstky. O final do primeiro tempo tinha chegado e nosso herói marcara apenas 4 gols, o que era inadmissível!

No começo da segunda etapa então Techerinha carregou a bola até o meio de campo e parou, acenando para que Hailtovski viesse marcá-lo. Os jogadores se encararam e o estádio silenciou, como se estivessem todos presenciando um duelo sobre o campo gelado.

Ninguém ousou interceder, e os dois ficaram imóveis por longos minutos. Repentinamente, porém, Techerinha começou dar pedaladas sobre a bola – primeiro com o pé direito, depois com o esquerdo, e finalmente com os dois ao mesmo tempo, e isso desconcertou Hailtovsky. Techerinha então se aproveitou do vacilo do adversário e tocou na pelota com força para que acertasse o zagueiro bem no sakov (aquela parte dos russos que fica um palmo abaixo do umbigov).

O estádio, em uníssono, fez “uuuuhhhh!!!!”. Hailtovsky caiu em posição fetal, segurando os bagovs, e Techerinha retomou a bola, partindo em direção ao gol adversário. Nenhum jogador teve coragem  de marcá-lo – a única providência que tomaram foi proteger a balalaica com as mãos – e o craque caminhou calmamente até marcar mais um tento.

Dizem que aquele foi o maior “uuuuhhhh!!!!” já ouvido na história da Humanidade, mas o JAC DA FLORESTA não conseguiu homologar o recorde porque faltou um carimbo na quarta via do ofício requisitório padrão A-12. Coisa típica da burocracia brasileira.