set 212016
 

 

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A Santa Terezinha é uma rua que inicia plana, mas depois de uns trezentos metros começa a subir de um jeito que me cansa só de lembrar. A escola ficava ainda nessa parte baixa, de fronte a uma outra via em que até hoje às quintas acontece a feira livre do bairro. Todas as ruas próximas terminam em morros, e quase todos nós morávamos no alto, então ir para a aula era sempre mais fácil que voltar para casa, o que não me impedia de chegar sempre atrasado.

Mas eu morei próximo à escola apenas nos primeiros meses de aula. Em setembro, no feriado do dia 7, nos mudamos para a rua Santa Cecília, e embora estivesse mais longe nunca mais perdi a hora: o motorista da Kombi que me levava era nosso vizinho e eu era o primeiro a embarcar e o último voltar para casa.

Era 1982. Ano da Guerra das Malvinas, da Copa da Espanha e da primeira série C com a professora Vera, no Centro Educacional Sesi nº 160.

Antes das aulas, nos dias mais quentes, íamos buscar água que saía de uma bica incrustrada no quintal de um dos vizinhos da escola. A água era fresca e cristalina, de um jeito que hoje é impossível conseguir em pleno centro da cidade.  Com as garrafinhas das lancheiras abastecidas, aguardávamos o sinal para fazer fila e entrar na sala de aula trocando figurinhas dos álbuns do chiclete Ping Pong. As coleções das Copas de 82 e 86 e da Fórmula Um faziam tanto sucesso com a molecada quanto com os dentistas.

O pátio da escola era um pouco maior do que uma quadra de vôlei, único esporte que se praticava nas aulas de educação física (também havia o mini-vôlei, que os meninos jogavam com bolinhas de papel ensacadas em embalagens de pipoca, numa rede improvisada entre os mastros das bandeiras, mas isso era atividade extracurricular, assim como o pega-pega, o cinco-corta, a competição de aviões de papel, etc.). O chão da quadra era de cimento crespo, o que proporcionava maior emoção a cada tombo, mas isso não nos impedia de correr e pular o tempo todo.

Eu e alguns outros garotos aprendemos a jogar vôlei de verdade no Esporte Clube Elvira, e isso favoreceu o crescimento de uma rivalidade com o pessoal mais velho, que se formaria em 1988. Tenho certeza que os maiores jogos do esporte mundial foram travados naquela quadra cimentada do Sesi, pois já disse o poeta que nenhuma partida foi mais bela do que aquelas que ocorreram na minha aldeia (ou algo assim).

As meninas sempre foram mais maduras que os meninos, tanto emocional quanto fisicamente. Isso promoveu alguns desencontros amorosos nunca remediados: enquanto elas se espelhavam na Madonna e suas polainas e começavam a “gostar” dos garotos, nós só queríamos ter um carro igual a Super Máquina e jogar Atari para chegar ao fim do River Raid. Quando então passamos a gostar delas, elas só queriam saber dos caras mais velhos, e assim rivalidade cresceu para além das quadras, chegando aos bailinhos que tinham dança da vassoura e ponche de frutas.

Antes da hora do recreio, saíamos da aula para a merenda, trazida da Cozinha Piloto e servida pela Dona Isabel e pela Dona Maria em pratos de alumínio e canecas de plástico. Achocolatado, sopa de macarrão, sopa de macarrão com caldo de feijão, canjica, pão com salsicha. O cardápio era limitado e talvez sem grande valor nutricional, mas não éramos exigentes.

A escola tinha apenas 8 salas de aula, a cantina, a direção, os banheiros e uma oficina, aonde éramos introduzidos aos ofícios da cerâmica e da madeira. Era um prédio velho e todos os móveis escolares também eram antigos. Durante vários anos estudei em grandes carteiras de madeira e ferro, aonde sentávamos em duplas, e o cheiro daquelas salas ainda sobrevive em um canto qualquer da memória.

A memória, aliás, me prega peças. Recordo de conversar na porta da oficina com o Robson sobre Smells Like Teen Spirit, do Nirvana, mas essa música só foi lançada em 1991, depois que eu já tinha perdido o contato com esse amigo que nunca mais vi.

Pouco depois que me formei na oitava série, em 1989, o Sesi construiu instalações novas com salas e móveis modernos, além de quadras de verdade, piscina e campos de futebol. O prédio em que estudei hoje abriga uma outra escola, mas aquele mundo ficou lá atrás, num outro século, numa vida tão diferente que só existe em fotos de baixa resolução e em lembranças embaralhadas pelo tempo.

 

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Centro Educacional SESI nº 160

Jacareí, 21 de setembro de 2016

Hoje o dia está nublado.

 

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Quem Eu Sou e Como Vim a Ser (I)

Quem Eu Sou e Como Vim a Ser (II)

 

 

 

 

 

 

 

abr 252016
 

 

 

Quando Michael Jackson morreu eu enviei um email para muitos amigos, para falar do tempo que passou desde que o Rei do Pop dançou o moonwalk e de como nos transformamos nesse período, e essa mensagem acabou de certa forma gerando a ideia de ter um blog. Nunca fui fã do Michael, mas ele sempre esteve presente em nossas vidas, mesmo que não percebêssemos.

A morte de Prince igualmente entristece quem viveu os anos 80. Também não era fã d’O Artista, mas When Doves Cry era onipresente nos programas de videoclipes de TV, Kiss tocava na New Wave e em todas as danceterias do mundo e não havia festa sem Purple Rain para fazer os casaizinhos dançarem. Isso sem falar de Nothing Compares 2 U, que fez sucesso com Sinead O’Connor, mas foi composta pelo Prince.

Talvez os jovens não tenham se dado conta de quem ele foi, mas Prince fazia parte do grande triunvirato da música pop, juntamente com Madonna e Michael Jackson. Foram as escolhas extravagantes que fez na carreira que acabaram por afastá-lo das novas gerações, mas para quem quiser saber sobre sua história e sua relevância sugiro este texto,  que é melhor do que qualquer coisa que eu possa escrever.

O que me importa é que outro representante da minha infância/adolescência se foi. E mesmo que eu não tenha nenhum disco do Prince em casa, acho que, de alguma forma, sou quem sou porque um dia ouvi Batdance e festejei como se fosse 1999.

 

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Bruce Springsteen homenageou Prince cantando Purple Rain. Ficou foda:

 

 

Honey, I know, I know
I know times are changing
It’s time we all reach out
For something new, that means you too
You say you want a leader
But you can’t seem to make up your mind
I think you better close it
And let me guide you to the purple rain

 

 

maio 262015
 

 

Série Graphic Novel #02 Demolidor

 

Nos meus tempos de moleque, o Demolidor era o Sawamu dos desenhos japoneses.

O Demolidor dos quadrinhos americanos eu só conheci no começo da adolescência, depois que li O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller. O sucesso da revista daquele Batman soturno foi tão grande que a Editora Abril passou a publicar histórias mais caprichadas e com temática mais adulta na série Graphic Novel, que trazia bimensalmente uma nova edição com personagens e estilos diferentes.

Não por coincidência, o número 2 trazia uma outra HQ de Frank Miller, dessa vez desenhada pelo magistral Bill Sienkiewicz, e cujo personagem era o Demolidor, o herói cego que veste um uniforme de diabo (no original o personagem se chama Daredevil) e combate os criminosos de Nova York.

Comprei meu exemplar na banca de revistas que ficava em frente ao Supermercado Dias, gastando todos os duzentos cruzados que ganhei por lavar o carro do meu pai, e acho que mais um parafuso da minha cabeça caiu após a leitura. A arte era completamente diferente de tudo que eu conhecia – tinha colagens, pintura, grafismo, psicodelia e enquadramentos fora do padrão que realçavam os delírios do vilão psicopata.

 

Daredevil by Bill Sienkiewicz,o vilão

 

Mas apesar da edição caprichada e dos desenhos sensacionais, confesso que a revista me deixou desapontado pela “falta de ação”. Eu era jovem e queria ver o Demolidor quebrando a cara de todos os bandidos, por isso não contava com uma história em que o herói tivesse uma participação mais secundária na resolução da trama.

No final de semana passado tirei a revista da caixa em que repousa junto com centenas de outras HQ’s e reli a história com mais prazer do que tive anos atrás. Agora, mais maduro e vivido, pude compreender melhor as nuances do texto que complementa aquela arte tão única.

 

MARVEL'S DAREDEVIL

 

Meu interesse em reler a história após tanto tempo nasceu depois de ver a série do Demolidor, produzida pelo Netflix.

Trata-se de uma adaptação para televisão muito boa. A essência do herói foi mantida, assim como as dos coadjuvantes. Muitas das ideias dos quadrinhos foram utilizadas, e as “liberdades” tomadas funcionam bem, embora algumas tenham me causado espanto (como deixei de acompanhar as HQ’s faz tempo, pode ser que a morte de determinado personagem não seja algo verdadeiramente novo).

Achei muito interessante mostrar a iniciação de Matt Murdock como herói mascarado ao longo dos treze episódios, sem que houvesse pressa em vesti-lo no uniforme. Quase todas as críticas que vi elogiaram a série, e em apenas um texto o autor reclamava da “falta de coerência” com os quadrinhos em razão do herói ter se exposto demais para resgatar uma criança no segundo episódio. O insatisfeito reclamou que, para privilegiar a ação, o personagem abriu mão da inteligência que habitualmente usava em suas histórias.

Ora, o Demolidor da série, que ainda nem usava esse nome, é justamente um herói em construção, aprendendo com os próprios erros e em busca de uma causa e uma identidade. Dada a sua inexperiência, seria mesmo natural que no início de carreira usasse os punhos em detrimento do cérebro.

É preciso amadurecer com os anos para aprender que quebrar a cara de todos os bandidos nem sempre é o que torna alguém um herói (ou uma história) especial.

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