mar 082012
 

 

 

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Foi mais uma noite frustante, então sigo pela estrada de volta para casa, pisando fundo no meu Gol GTI até que o barulho do ar que passa pelo quebra-vento encubra o som dos auto-falantes. Antes de aumentar o volume eu troco a fita no Roadstar; coloco aquela que tem a música que fala que não foi tempo perdido e que somos tão jovens.

Canto com a voz embargada pelo álcool, e por instantes perco a atenção na estrada, distraído pelas luzes do equalizador Tojo que se acendem e se apagam no ritmo da canção.

Chego em casa, ligo a Telefunken e giro o seletor de canais procurando pelo Comando da Madrugada, sem sucesso. Lembro que a antena VHF foi movida pela tempestade de dias atrás, então se quiser ver algo no televisor terei que me contentar com os vídeos gravados no G9.

Em cima da escrivaninha a Olivetti continua parada com uma folha em branco, penso que há dias não consigo escrever nada. Talvez mais uma dose me ajude a clarear a mente. Tomo várias, só para garantir.

Ao lado dos cartões postais na estante fica a minha coleção da Bizz, e o Kurt na capa da edição de abril parece me olhar com desaprovação. Faço cara de pouco caso, mas no fundo sinto por tê-lo decepcionado.

Como o silêncio da noite me incomoda, ligo o 3 em 1 e coloco um disco para ouvir sobre a luz que nunca se apaga. Ao voltar para o sofá tropeço no projetor de slides, e ele, como se ganhasse vida, começa a funcionar, iluminando a parede com uma imagem sua.

Puxo o telefone pelo fio e disco o seu número para te dizer umas verdades. Aposto que você olha para a brilhante tela sensível ao toque do seu moderno Iphone e pensa mil vezes antes de atender, e quando o faz me xinga, me chama de maldito, diz que eu sou louco por ligar outra vez e que vai chamar a polícia, e ao fim implora que eu volte a seguir com a vida e me faz prometer esquecer o que passou.

Ambos sabemos que não vou cumprir mais esta promessa. Sou um homem de hábitos, baby, e alguns são difíceis de mudar.

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