out 242012
 

 

 

Para quem não conhece a história do Che mencionada no post anterior, lá vai:

Quando jovem, em plena ditadura militar, o professor Clóvis enfrentava o regime sob o codinome “Carapaó”, tendo inclusive ingressado na resistência armada.

Foi justamente num treino de guerrilha em Cuba que o nosso herói viu uma cena que jamais poderia admitir: Che Guevara, um dos pais da Revolução, deliciando-se com uma Coca-Cola. Caparaó não teve dúvida e foi até o argentino, tirou o refrigerante de suas mãos e desferiu-lhe um violento tapa na cara.

– Isso é coisa de imperialista! – disse o brasileiro antes de jogar a garrafa no chão.

Che pediu perdão e foi expiar sua culpa nas selvas bolivianas.

***

Como o próprio Clóvis contava sua história de maneiras diferentes, pode ser que outras versões estejam disponíveis por aí.

E antes que você imagine que tudo nessa história de Caparaó era mentira, dê uma olhada nisso.

 

set 052012
 

 

 

Eu estava na biblioteca, lendo os jornais que ficavam sobre o balcão na entrada, quando chegou o Marcio falando sobre a possibilidade de formarmos uma república. Com ele estava o Helton, com um daqueles bonés australianos sobre a cabeça raspada, que não pareceu muito entusiasmado com a proposta que estava sendo feita. Na hora achei que ele não ia com a minha cara pois já nos conhecíamos do Miss Bixo de poucos dias antes.

(Miss Bixo era o evento da segunda noite da semana de trotes, na qual os calouros homens desfilavam com vestidos, perucas e meias arrastão em um palco improvisado no D.A., local das festas da faculdade. Era uma esbórnia, claro, mas falarei mais dos trotes em outra oportunidade).

Naqueles primeiros dias de aula era assim, estávamos todos nos conhecendo, nos ambientando a Franca e aos francanos, então não tínhamos muita noção de como iríamos nos acertar nem com quem iríamos viver. Tudo o que queríamos era achar logo um lugar para morar para sairmos das pensões ou das casas aonde estávamos abrigados, ainda que estivéssemos sendo bem tratados.

Mas montar uma república era fazer uma aposta. Não havia como saber se aquela pessoa com quem iríamos morar era alguém confiável, ou higiênica, ou mentalmente equilibrada, etc. Poucas foram as repúblicas que duraram os cinco anos de faculdade sem grandes modificações no seu “elenco”, e tenho a impressão que era mais difícil ainda para as mulheres, que são naturalmente mais competitivas entre si. Não conheci uma república feminina que tenha durado muito, em compensação, sei de muitas garotas que moraram em um lugar diferente a cada ano.

Estranhei então quando o Helton, já sem o Marcio (que foi morar com uns veteranos e passou a ser conhecido como Dois) veio me convidar para a república que estava montando com o Alessandro, o rapaz de Avaré que também estava na nossa turma. Eles tinham achado uma casa para alugar na Prudente de Moraes, perto da prefeitura de Franca, e queriam mais dois para dividir as despesas.

 

A Prefeitura da Franca, nossa vizinha

 

A casa ficava a uns 20 minutos de caminhada da faculdade e era uma edícula de cômodos pequenos, construída em “L”, com um quarto em cada uma das extremidades. Na frente do imóvel tinha um ponto comercial, que no início era ocupado pela Barbearia do Samuca – o babeiro que fazia jogo do bicho e passava as tardes tomando umas doses de cachaça entre um corte e outro. Depois que o Samuca foi embora o lugar virou uma sorveteria, mas  nós nunca comprávamos sorvetes dali porque víamos os ratos que frequentavam o estabelecimento.

Moramos eu, o Helton e o Alessandro por algum tempo, até que chegou o Luiz Gilberto, que veio de São Paulo e entrou na faculdade um pouco depois do início das aulas. Estava formada a República Saudosa Maloca – nome que, salvo engano, foi adotado após eu ter retornado certa vez de Jacareí cantando o famoso samba dos Demônios da Garoa.

A formação original durou até o terceiro ano, quando então o Luiz preferiu ir morar sozinho. Foi uma saída talvez não muito bem explicada, mas sem traumas, tanto que ele continua um grande amigo – não faz muito tempo esteve em minha casa pilotando a minha churrasqueira.

 

O Luiz é corintiano mas é boa gente.

 

Com a saída do Luiz veio o Tomas, ribeirãopretano que chegava a Unesp para cursar o primeiro ano. Foi nessa época mudamos para a casa da Madre Rita, que era bem mais próxima da faculdade. A chegada do novato Tomás foi uma grande oportunidade para que pudéssemos passar toda a nossa experiência de veteranos, mas acho que isso talvez o tenha traumatizado de alguma forma.

 

Dando aquela força à Seleção do Zagallo, durante a Copa da França

 

O Alessandro morou os cinco anos na república, contudo, hoje eu não tenho mais contato com ele. É uma pena, sempre nos demos muito bem e eu sinto saudade daquele cara.

Quanto ao Helton, já perguntei a ele se realmente não estava contente quando o Marcio Dois veio falar comigo, mas ele disse que não se lembra disso. Deve ter sido só impressão minha mesmo, afinal, além de termos morado juntos durante toda a faculdade, hoje somos padrinhos de casamento um do outro e quase todos os dias mantemos contato através de e-mails ou de ligações.

 

Formatura da XI Turma, em 98 – os últimos dias da Saudosa Maloca.

 

 

 

 

maio 032012
 

 

Praça Dom Pedro II, mais conhecida como Praça do Itaú

 

Não é fácil fazer faculdade em outra cidade. Ainda mais quando essa outra cidade fica a mais de 400 km de onde você mora.

Além de se habituar aos usos e costumes locais, você ainda tem que passar a morar sozinho ou, como faz a maioria, começar a morar com estranhos em uma sociedade informal chamada república – que é algo que tem tudo para dar errado, mas de vez em quando dá muito certo.

Antes de encontrar os caras certos e montar uma república, porém, fui recebido em Franca pelo Adolfo, que eu tinha conhecido brevemente em uma reunião nos meus tempos de Mocidade Espírita. Ele já tinha se formado em História pela Unesp, e quando liguei pedindo um auxílio o fato de não se lembrar de mim não o impediu de ser excepcionalmente prestativo.

Lembro-me perfeitamente do dia que cheguei em Franca pela segunda vez – a primeira tinha sido no dia da matrícula. Peguei um ônibus da rodoviária até o centro e desci na praça do Itaú, por volta da hora do almoço. Enquanto procurava pela imobiliária aonde o Adolfo trabalhava passei por várias lojas que, sintonizadas numa mesma rádio, tocavam um música que tinha o significativo refrão:

Life will never be the same

Life is changin’

Como aquele era o poperô de sucesso da época a música foi me acompanhando enquanto eu caminhava. Era uma  trilha sonora aburdamente apropriada, que me fazia rir sozinho enquanto andava pelo calçadão da Marechal Deodoro.

Quando encontrei o Adolfo, que trabalhava bem em frente à Unesp, achei que ele iria me indicar algum lugar para ficar, mas ao invés disso ele me levou para sua casa e sua família me acolheu por quase um mês – mesmo depois que seu pai me achou dormindo dentro do seu carro (na primeira noite do trote eu voltei tarde, todo sujo, pintado, com farinha por todo corpo, e não tinha as chaves para entrar na casa).

Depois daquela noite os pais do Adolfo me deram uma cópia da chave da porta. E passaram a trancar o carro.

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Um dos grandes erros que cometi na vida foi nunca ter agradecido devidamente ao Adolfo e sua família por tudo o que fizeram por mim.

***

A música de que falei é Life, de um tal de Haddaway. Não é o tipo de canção que gosto, mas pra esta eu abro uma exceção.

 

 

fev 272012
 

 

A casa aí em cima ficava na Rua Madre Rita, em Franca. Além de ser a mais feia da rua, que tinha residências de um padrão mais elevado, era a única na redondeza que abrigava uma república, por isso alguns vizinhos não viram nossa chegada com bons olhos. Mas tirando um churrasco ou outro nós éramos bem comportados e nunca demos muitos motivos para reclamação.

A casa tinha uma sala ampla, e depois do almoço no R.U. os colegas iam até lá para ver a Debora Menezes no Globo Esporte (ainda não havia o Tiago Leifert  e o programa não era insuportável como nos dias de hoje). No fundo da casa tinha um quintal grande, e nele duas roseiras, que cismei de cuidar. Não dá pra dizer que fiz um belo serviço como jardineiro, mas pelo menos elas não morreram durante o tempo em que lá vivemos.

A rua era tranquila, e tirando as festas da Didi, que era uma professora da História na Unesp morava na casa da frente, quase nada acontecia. De diferente lembro apenas de uma certa manhã em que fomos acordados por gritos vindos de uma mulher que pedia socorro. Pulamos rapidamente da cama eu, o Helton e o Alessandro (cada um pulou da sua respectiva cama, que fique claro) e corremos para acudir a dama em perigo (não me lembro se o Tomas estava em casa).

Como não havia tempo para abrir o portão, meus amigos saltaram a grade do muro com muita habilidade, e eu fui atrás, também disposto a ajudar. O problema é que não nasci para ser da Tropa de Elite ou da SWAT, e ao cair do outro lado do muro pisei no barro do jardim, escorreguei e caí um tombaço tão ridículo que nem consegui levantar de tanto que ri.

Meus amigos não viram minha queda porque saíram atrás do malfeitor, que conseguiu fugir. Foi uma pena que o bandido não tenha visto a minha atuação, pois certamente ele teria ficado paralisado graças às minhas habilidades típicas de Loucademia de Polícia.

***

A casa da Madre Rita, assim como a da Prudente de Moraes, foi demolida. Não existem mais as duas residências que abrigaram a Saudosa Maloca nos nossos 5 anos de Franca. Mas não tem problema: os francanos podem tentar apagar os rastros da nossa passagem pela cidade, mas a recíproca não é verdadeira.

 

nov 012011
 
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sala-de-comissão1
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A luz que vinha das amplas janelas não era capaz de aquecer o recinto, grande demais para o evento. Apenas quatro pessoas estavam no antigo salão: três sentadas atrás de uma mesa de madeira, e o autor do texto, que aguardava de pé a demorada leitura dos documentos.

Já fazia algum tempo que os únicos sons na sala eram de papéis remexidos e do relógio de parede, adiantado em cinco minutos. O Homem de Gravata Borboleta então levantou a vista e começou o interrogatório:

– Sr. Bacaro…

– É Baccaro – corrigiu a pronúncia, dando ênfase à tonalidade da primeira sílaba.

– Se fosse proparoxítona teria acento, mas não vejo nenhum – retrucou o Homem de Gravata Borboleta sem olhar para o interlocutor.

– É um nome italiano, e na Itália quando essas consoantes dobradas…

– Sr. Wagner – interrompeu bruscamente a Mulher de Óculos Redondos – vamos direto ao assunto: o senhor quer fazer o favor de nos explicar aonde queria chegar com isso?

A hostilidade estava finalmente escancarada.

– Isso aí é uma piada que eu vou encaminharaos meus amigos, por email, só isso.

– Uma piada? – perguntou o Homem de Gravata Borboleta?

– Sim, uma piada – disse o autor, já nervoso. É que tem um contexto…

-Hmmm, Uma piada que precisa ser explicada… – disse com cara de desdém a Mulher de Óculos Redondos, interrompendo novamente. O interrogado continuou:

– É que em 2010 eu levei a minha família para passar o final de ano com meus colegas em Franca. Acontece que agora a minha esposa está grávida, então escrevi esse email para dizer a eles que não iria pra lá novamente porque eu não quero correr o risco da minha filha nascer francana.

– Isso é um absurdo! – a mulher ficou de pé para falar – Isso é completamente discriminatório, ofensivo e ultrajante!

– Como? É só uma provocaçãozinha…

– O senhor tem noção de como ofende as mulheres? Quer dizer então que é o marido, o machão, quem determina aonde a família pode ou não pode ir nas férias? Quer dizer então que a mulher grávida é uma incapaz, que não pode fazer aquilo que outras mulheres não-grávidas fazem? – A Mulher de Óculos Redondos quase espumava, e precisou ser contida pelos Homem de Gravata Borboleta, que acrescentou:

– A piada faz referência ao final de ano, que é quando comemoramos as festas natalinas e a confraternização universal. O senhor com essa chamada “piada” está ofendendo o espírito cristão da fraternidade e da indulgência que deve vigorar nesses dias!

– Mas não é nada disso – disse o perplexo autor – eu nem pensei…

– Diga-me uma coisa, senhor Zácaro – questionou o Homem de Bigode Ralo, que até então mantivera-se quieto – Esse seus amigos têm filhos?

– É Baccaro, e sim, eles têm filhos maravilhosos. Por um milagre todas as crianças saíram como as respectivas mães.

-Sr. Ácaro – continuou o inquisidor – o senhor não tem vergonha de fazer uma brincadeira de tão baixo nível com os infantes?

– Mas meus amigos não iriam levar a sério! Já estão acostumados a essetipo de brincadeira, ninguém liga! E é BACCARO, com “bê” de bola!

O Homem de Gravata Borboleta então foi incisivo:

– O senhor tem que entender que o mundo atual não tolera mais essas gracinhas, Sr.Bacabo. Acabou o tempo da piada politicamente incorreta. Isso que o senhor fez pode dar cadeia! Ou o senhor faz as correções ou enviaremos os documentos às autoridades competentes!

– Não, não, a piada nem era tão boa assim! – disse o autor. Quer saber, me devolvam isso pois não vou mandar mais nada.

O autor pegou suas coisas e antes de sair questionou a comissão:

– Os senhores perceberam que criaram um monte de problemas absurdos na piada, mas não disseram nada sobre os francanos, que são justamente aqueles que eu queria sacanear?

– Ora, Sr. Baccaro – respondeu o Homem de Bigode Ralo, agora acertando a pronúncia do nome do autor – Os francanos são muito escrotos, não dá pra defender, né?