fev 032015
 

 

morpheu

 

Já é chavão dizer que vivemos na Era da Informação. Desde a proliferação dos computadores e da internet, no final dos anos 90, temos à nossa disposição uma quantidade praticamente infinita de dados e fatos, algo que sequer era imaginado décadas atrás – basta lembrar que as grandes obras de ficção que retratavam mundos futurísticos (2001, Blade Runner, Jornada nas Estrelas, etc.) descreviam viagens espaciais, carros voadores e máquinas pensantes, mas nada traziam sobre uma rede de computadores interligados como temos hoje.

Embora alguns filmes já tivessem mostrado a internet como fenômeno contemporâneo, foi a partir do sucesso de Matrix (1999) que a rede se mostrou realmente importante no cinema. E foi também nesse filme que se retratou um dilema fundamental para o homem moderno: que informação escolhemos receber para guiar nossas vidas?

Em um momento crucial de Matrix, o personagem Morpheus pergunta ao protagonista Neo qual pílula ele quer tomar: a vermelha, que o leva para a realidade, ou a azul, que o mantém na fantasia virtual criada pelas máquinas. Como não poderia deixar de ser, Neo escolhe a pílula vermelha, e a partir de então começa a descobrir um mundo novo e completamente diferente daquele ao qual estava habituado.

Nas nossas vidas as coisas não acontecem de forma tão dramática, mas diariamente somos apresentados a doses gigantescas de informações boas (que discorrem sobre a realidade e trazem conhecimento útil) e ruins (mentiras, calúnias, fantasias e difamações) que acabam por moldar a percepção que temos do mundo. O problema é que muitas vezes não refletimos sobre a qualidade e a relevância daquilo que recebemos – não paramos para escolher qual pílula estamos tomando, e apenas a engolimos sem sequer olhar para a sua cor.

O arcabouço de conhecimento que hoje está disponível em alguns cliques é capaz de transformar a sociedade, e a comunicação em tempo real é uma conquista do homem moderno. Todavia, para que possamos nos beneficiar verdadeiramente disso tudo é necessário estabelecer também uma postura crítica diante daquilo que nos é oferecido e que eventualmente repassamos para terceiros.

As redes sociais, por exemplo, estão infestadas de notícias, comentários e fatos que não resistiriam a dois minutos de reflexão e de pesquisa na própria internet. Ainda assim, muitos absurdos são compartilhados infinitamente e acabam formando – ou melhor, deformando – a opinião de milhares de pessoas.

Algumas vezes essa aceitação e disseminação do que não está correto se dá por ingenuidade e desconhecimento, mas em muitas outras o que ocorre é a pura cegueira ou comodidade, afinal, aquilo que é compartilhado está de acordo com as ideias e preconceitos que já estão arraigados.

Desnecessário listar os motivos que desautorizam tais práticas, mas ainda que os princípios éticos e morais não fossem suficientes, temos também um argumento jurídico para se adotar mais cuidado na rede: a Justiça brasileira já decidiu que quem compartilha ou curte um texto difamador na internet pode ser considerado como corresponsável pelo conteúdo, pois ao contribuir com sua divulgação emitiu expressa concordância com o que foi escrito. Assim, repassar uma publicação prejudicial a terceiros pode dar ensejo a penalizações civis e criminais.

Evidentemente, a dicotomia entre informação boa e ruim não vigora apenas na web. Muito do que vemos em revistas, jornais e canais de televisão supostamente sérios estão carregados de ranços e preconceitos – às vezes disfarçados, outras vezes nem isso. Também é necessário ser seletivo em relação a tais fontes, mesmo porque costumeiramente pagamos para ter acesso a essas mídias.

Como para quase tudo em nossa sociedade, consumir informação também exige cautela e conscientização. Mais fácil seria se as escolhas viessem separadas por cores, como em Matrix, mas optar por receber conhecimento útil em vez de mentiras convenientes pode não ser tão complicado quanto parece – basta ter disposição para a crítica e para a luta contra os preconceitos e os erros, coisas que não são exclusivas de heróis do cinema.