jul 282015
 

 

Fio terra

 

 

O contrarregra chamou por José, que esperava ansioso em uma sala pequena e improvisada. O desassossego era ainda maior quando ele chegou, por isso ter aceitado as duas doses de uísque a que produção lhe oferecera pareceu ter sido uma boa ideia.

O programa era ao vivo, e por mais conhecimento que José tivesse do assunto, era natural o nervosismo pela estreia na televisão. Ele até se arrependera de ter avisado a família e os amigos da entrevista, mas um pouco da sua confiança se restaurou com a bebida e ele se sentia pronto para o desafio.

O estúdio era menor do que ele imaginava. Duas poltronas estavam postas num canto do cenário. A apresentadora conversava com alguém da produção enquanto em uma tela se viam os comerciais. O contrarregra instalou José numa das poltronas, prendeu o microfone em sua roupa, deu algumas instruções e saiu para que se preparassem para a volta do intervalo. O entrevistado ficou tenso novamente e pensou em pedir mais uma dose, mas já não havia mais tempo. A vinheta começou, alguém contou 3, 2, 1 e…

– Estamos de volta com o nosso Ainda é Cedo Nesta Tarde, e agora nós vamos tratar de um assunto muito polêmico, que tenho certeza que a minha amiga que está aí nos assistindo tem muita curiosidade em desvendar. O assunto é tabu, mas com a gente não tem isso não, então trouxemos aqui um convidado especial para falar da sua experiência. Mas antes, a Giovana tem um recadinho do nosso patrocinador.

José ficou intrigado com aquela introdução, mas também já havia parecido estranho quando a produção o abordou na rua e o convidou para tratar do assunto em um programa de variedades. Não sabia como sua experiência como engenheiro mecânico especializado em prensagem eletrostática poderia despertar o interesse de donas de casa que gostavam de saber de fofocas, mas achou que um convite para aparecer na televisão nunca poderia ser recusado.

Depois que a bela Giovana terminou de apresentar o revolucionário chá de casca de tartaruga azul e seus benefícios para a pele e a libido, a apresentadora agradeceu e começou a falar, mas José estava distraído com a movimentação do estúdio e só ouviu a pergunta:

– Então, José, você tem bastante experiência?

– Bem, errr…. Bom, eu tenho bastante experiência nesse assunto, né? Tenho conhecimento teórico e prático bem aprofundado.

– Hmmm. Aprofundado… –  A apresentadora deu um leve sorriso – Então você é um entusiasta?

– Bem, eu sou entusiasmado sim e me esforço para fazer bem a minha parte, né?

– E você já fazia antes do casamento?

– Hein? – José estranhou a pergunta.

– Você já fazia isso antes de casar?

– Sim, sim, claro… Eu tenho uns dez anos de experiência em…

– E a sua esposa? – Interrompeu a entrevistadora – Ela não estranhou, nunca falou nada?

– Ôchi, e por que ela iria falar algo?

– Nossa, que bacana isso de vocês terem a cabeça aberta, mas convenhamos que não é comum… Poucas pessoas admitem que fazem isso, principalmente os homens!

– Poucos fazem porque tem que ter o jeito certo de fazer, é preciso dominar a técnica, tem que ter jeito, senão a pessoa pode até se machucar. Não é qualquer um que vai se enfiando…

– Ah, com certeza! Se for se enfiando sem qualquer jeito a pessoa se machuca mesmo… Hahahaha… Ah, me desculpe, eu não resisti, me desculpe…

José não entendeu a piada mas tentou seguir em frente:

– A pressão que faz é muita, por isso eu não recomendo a quem não estiver familiarizado com o processo. Pode até ser perigoso, se não for realizado com cautela e paciência.

– Claro, claro! Então o senhor aprova o chamado fio terra?

– Ah? Sim, evidente, é fundamental! Não dá pra ficar sem!

– Não?

– Não! Tem sempre uma descarga elétrica, né?

– Tem?

– Tem! E o choque pode ser grande!

– Imagino!

– Fio terra é uma questão de segurança!

– Segurança?

– Sim! A prensagem eletrostática ainda está em fase de desenvolvimento, e existe o risco de choque.

– Ãh, como o senhor chamou?

– Prensagem eletrostática, que é o nome do procedimento…

Enquanto falava os olhos de José fitaram a tela aonde o programa era mostrado, e com um pouco de esforço ele conseguiu ler o texto do gerador de caracteres, que dizia: “HOMEM CONTA SUA EXPERIÊNCIA COM MASSAGEM PROSTÁTICA”.

– Moça! Moça! Moça! – repetiu nervosamente José – Acho que está errado…

– Não, não, não! – repetiu calmamente a entrevistadora – Não há nada de errado! Errado está o machismo que não deixa o homem explorar a sua sexualidade, libertando-se das amarras do conservadorismo e da ignorância…

Antes que a apresentadora terminasse seu discurso libertário José se levantou e jogou longe o microfone. Tentou correr mas deu uma trombada em Giovana e derrubou todo o chá de tartaruga azul pelo chão. O diretor gritou chamando os comerciais, a apresentadora deu um piti e o contrarregra desmaiou em um canto do estúdio.

Ninguém percebeu que antes de fugir pela porta principal José levou a garrafa de uísque, que agora ele teria que tomar inteira para criar coragem de voltar pra casa.

 

 

 

nov 102011
 

 

Ao passar pela porta ele foi recepcionado por uma mulher alta e muito bela, de seios grandes e sorriso discreto, que confirmou que o esperavam para a entrevista e pediu para que ele esperasse na sala de reuniões.

O rapaz lamentou não poder ficar no mesmo recinto que ela. Havia algo naquela mulher que ia além de sua beleza, mas no mesmo momento ele se deu conta de que não poderia desviar a atenção de seu objetivo. Aquela não era hora para um flerte. “Quem sabe, no futuro…”, pensou.

Entrou na sala, recusou que lhe servissem água e voltou a se concentrar naquela que seria a primeira entrevista de emprego de sua vida. Para não errar, seguiu todos os conselhos: vestia um terno escuro bem alinhado, a gravata vermelha era bela e discreta, o cabelo estava bem cortado. Havia se preparado para responder as perguntas mais prováveis e, embora não tivesse muito currículo para defender, contava com os anos de esforço em uma faculdade de ponta para impressionar o entrevistador.

A sala tinha paredes claras e a grande mesa de madeira escura ocupava quase todo o espaço. O ar condicionado não fazia qualquer barulho e mantinha a temperatura do ambiente perfeita. Sobre a mesa repousava um porta lápis e um bloco de anotações com capa de couro, personalizado com o nome dos sócios do escritório em letras douradas.

Quinze minutos se passaram e a sua aflição crescia . “Faz parte do teste isso. Devem até estar me filmando”. Passou então a procurar por câmeras apenas com os olhos, fingindo tranquilidade e segurança.

Depois de mais algum tempo um homem alto e de fartos cabelos castanhos entrou. Seu terno cinza era elegante e a gravata escura parecia ser fina e cara.

– Boa tarde, meu nome é Renato.

– Boa tarde, Dr. Renato,meu nome é Tomas.

O entrevistado reconheceu o nome. Dr. Renato era quem emprestava o nome do meio para o escritório Coelho, Lapolina & Leite Advogados Associados.

O experiente advogado acomodou-se na cadeira,arcou o corpo para frente, pôs os cotovelos sobre a mesa e tirou os óculos. Passou lentamente as mãos na testa enquanto mantinha os olhos cerrados, até que respirou fundo, virou para o candidato e perguntou:

– Me diga então, Tomas…

“Tomas? Ele me chamou pelo nome, sem ‘Doutor’, sem ‘Senhor’. Isso é bom ou é ruim?”

-… o quê você quer da vida?

O entrevistado ficou confuso, não esperava uma pergunta assim, tão direta, logo de cara.

– Bem, tenho aspiração de ascender no mundo da advocacia e me tornar um grande jurista, pretendo construir uma carreira sólida…

– Não, não – O entrevistador interrompeu – Quero saber quais seus sonhos, quais seus desejos…

– Eu desejo ser uma grande advogado, me preparei muitos anos estudando na…

– Não! – interrompeu novamente Dr. Renato – Eu quero saber dos seus desejos, não essa ladainha profissional de merda!

– Hã?!?

-Quais os seus desejos, rapaz? Por exemplo, você viu a nossa recepcionista. O que você gostaria de fazer com uma mulher como ela?

– E-E-Eu…

– Vai me dizer que nãog ostaria de enfiar o rosto entre aqueles melões e fazer blu-blu-blu-blu– enquanto emitia o som, chacoalhava a cabeça entre as mãos.

– Ahhh, eh, bem…- “Pense,idiota, pense! Isso é um teste!” – Não, Dr. Renato, eu jamais faria isso com uma funcionária do escritório, isso renderia um processo de assédio e…

– Processo, processo, processo! Eu não aguento mais falar em processo! – O advogado levantou e afrouxou a gravata – Eu quero é falar da vida, de sonhos, de desejos! Sabe qual era o meu sonho, rapaz? Meu sonho era ser igual ao Clóvis, mas nunca pude nem tentar!

O candidato ainda tentou retomar a conversa:

– Clóvis? Ah, sim, Clóvis Beviláqua foi um grande jurista, grande nome do Direito Civil…

– Não, não! Não esse Clóvis! Eu queria ser como o Clóvis Bornay, rapaz! Meu sonho não era usar terno, mas sim viver no mundo do luxo cheio de plumas e paetês – enquanto falava o advogado subiu na mesa e começou a desfilar como se estivesse em um concurso de fantasias de carnaval.

O candidato procurava por câmeras escondidas sem mais disfarçar, até que resolveu sair da sala lentamente enquanto o Dr. Renato acenava e mandava beijos para uma plateia inexistente. Na saída encontrou a recepcionista, que lhe perguntou de forma ríspida:

– Você viu o que você fez?

– Mas eu não fiz nada!

– Você é um tonto! Deu a resposta errada, agora não vai poder fazer blu-blu-blu-blu aqui – disse a recepcionista apontando para o peito antes de vestir uma máscara de colombina e sair jogando confetes pelo corredor.