dez 312014
 

 

Instagrama

 

 

Uma certa revista semanal estampou na capa que 2014 foi “o ano que pagamos mico”. Como eu não leio e não vejo essa revista, queria acreditar que a matéria seja um exercício de autocrítica dos editores, afinal, neste ano eles inventaram notícias, pregaram o caos na Copa, tentaram influenciar nas eleições e sustentaram a candidatura de um senador que o ranking que eles mesmos criaram aponta como o pior parlamentar do país.

Mas é claro que empáfia não permitiria uma autoanálise desse tipo, então no final das contas quem pagou o mico, literalmente, foi quem comprou cada edição dessa joça neste ano.

Não há como negar, todavia, que 2014 foi um ano estranho. Para mim foi muito bom em termos pessoais, com as vitórias batendo as derrotas por uma margem respeitável. Já em nível coletivo, temos muito o que pensar em 2015.

***

Foram muitos os encontros, reencontros e desencontros. e no final fica a sensação de quem continua ao nosso lado é quem realmente vale a pena. A vida se torna cada vez mais curta a cada dia, então valorizar quem amamos – e quem nos ama – é uma regra cada vez mais preciosa.

Profissionalmente, o concurso da Câmara representou o momento mais importante, e que deve render mais frutos ainda no futuro. A dedicação não foi em vão, e com um pouco mais é possível chegar mais longe.

***

A Copa foi o grande evento de 2014, e foi um sucesso e um fiasco. Sucesso na organização, tão desacreditada; fiasco no campo, tão supervalorizado.

Ontem revi o jogo contra a Alemanha e então foi possível ter uma ideia mais racional do quanto foi patética, desastrosa, ridícula e tacanha a jornada da seleção brasileira. Em um país sério isso serviria de base para uma mudança drástica, mas uma nação que não aprende nem com as tragédias sérias e reais  não haveria de tirar nenhuma lição de uma catástrofe esportiva.

Vamos nós de Dunga outra vez, com Del Nero e Marin.

***

O outro grande evento (e claro, mais importante em termos nacionais) foi a eleição. Que causou brigas e desentendimentos pra nada.

Enquanto a direita não tiver vozes mais inteligentes falando por si, vai ficar nessa ladainha ridícula de golpe comunista no Brasil. Discussão de 1964 que tomou a pauta em 2014.

Enquanto a esquerda não se articular melhor  e não aprimorar seus quadros, custe o que custar, vai continuar entregando o Brasil para partidos aproveitadores para sustentar a governabilidade.

E daqui a 4 anos estaremos brigando novamente, apontando pra dizer quem rouba mais, enquanto nada muda de verdade.

***

Todas as perspectivas para 2015 são sombrias, mas eu prefiro fazer como meu guru, Winston Spencer Churchill: “Sou um otimista. Não me parece adiantar muito ser outra coisa qualquer”.

Feliz 2015!

 

.

 

 

 

jun 092014
 

 

figurinhas ping pong

 

De vez em quando ouço alguém dizer que não vai torcer para o Brasil durante a Copa porque isso beneficiaria a Dilma. Já escutei até que, se ganharmos, vai ser porque o PT comprou o título.

Além de ser uma especulação ridícula, dizer que o resultado da Copa do Mundo influencia no resultado das eleições é papo-furado que não tem sequer fundamento histórico.

Em 98, por exemplo, o Brasil perdeu mas FHC não teve problemas para se reeleger já no primeiro turno. Em 2002 fomos campeões, mas o candidato da situação, José Serra, perdeu para o Lula, que se reelegeu quatro anos depois apesar do vexame na Alemanha. Em 2010 aconteceu outra derrota nos campos, mas a situação fez sua sucessora.

Somente em 94 ocorreu da vitória na Copa coincidir com a vitória do candidato do governo, mas no caso o grande cabo eleitoral não foi o futebol, mas sim o Plano Real.

O Brasil ganhou uma Copa durante a ditadura (1970), perdeu outras quatro (1966, 1974, 1978, 1982) e ainda assim o regime durou mais de 20 anos. Não foi a vitória do time de Pelé, Gerson e Jairzinho que deu sobrevida aos militares, como não foram as derrotas dos outros selecionados que trouxeram de volta a democracia.

É certo que este ano temos como diferencial o fato da competição acontecer aqui no nosso país, pelo que é possível que as eleições sofram reflexos de eventuais problemas na organização. Os governos (federal, estaduais e municipais) podem ter suas imagens arranhadas se o desenrolar da Copa for comprometido pelos atrasos das obras e confusões administrativas.

Mas será o extra-campo que poderá servir como parâmetro de avaliação pelo eleitorado, e não o que acontecerá com o time do Felipão, por isso vou torcer pelo Brasil como fiz em todas as Copas desde 1982, a primeira da qual tenho lembranças.

E  espero, é claro, para que tudo dê certo. Isso não significa que estou de acordo com os gastos realizados, ou que o importante é fazer bonito para os gringos que virão assistir aos jogos. Entendo que muita coisa errada foi feita e que é preciso tomar as providências para cobrar as responsabilidades judiciais e eleitorais daqueles que se aproveitaram indevidamente do momento, mas  torcer para que as coisas se compliquem é coisa de gente pequena.

O “quanto pior, melhor” é burrice, e eu não sou nem burro, nem alienado. Sou apenas um cara que gosta de futebol  e que não misturo o meu divertimento com o meu voto.

 

.

 

mar 142014
 

 

anos 80

 

Tenho poucas recordações de coisas que ocorreram antes que eu completasse 7 anos de idade, mas acho que é assim com todo mundo. É a partir da morte de John Lennon, em dezembro de 1980, que minhas lembranças são mais numerosas. O assassinato do Beatle foi um momento de grande comoção, e eu me recordo do noticiário, da reação das pessoas e dos artistas e até de uma revista que trazia o cantor na capa.

Assim começaram os anos 80 para mim. E por mais que eu tenha tido uma infância feliz e nada possa reclamar quanto a isso, aquela década me parece cinza e suja quando me vem à memória.

Muitas eram as incertezas naqueles tempos. Haveria uma hecatombe nuclear como mostrada no filme O Dia Seguinte? A democracia seria restabelecida de fato no Brasil com as Diretas Já? Nostradamus estaria certo quanto às profecias do final dos tempos? Voltaríamos a ganhar uma Copa do Mundo?

Embora o Rio de Janeiro nos proporcionasse imagens ensolaradas vindas pela Globo, os telejornais não deixavam as pessoas otimistas. Havia um sentimento de que estávamos em um país estagnado, cujo futuro prometido nunca chegaria.

É com surpresa então que vejo hoje algumas pessoas com saudades daqueles tempos. Não me refiro ao apreço à infância, à música ou às artes que eram produzidas, mas sim justamente àquilo que tínhamos de pior, que era a ditadura militar.

Circulam por aí manifestações que fazem parecer que sob o governo dos generais o Brasil era um país alegre, com baixos índices de violência, economia em alta e sem nenhuma corrupção. Uma nação que fazia valer seu lema de “ordem e progresso”.

Quem pensa assim certamente não viveu aqueles dias. Ou não se recorda que estávamos sob censura, durante uma década chamada de perdida, em um país classificado como terceiro mundo. Esquadrões da Morte, Comando Vermelho, Coroa-Brastel, Caso Delfin, Abi-Ackel, Sudene, Fleury, obras faraônicas, maxidesvalorização do cruzeiro, torturas, Paulo Maluf, AI-5, dívida externa, dívida social, Paulipetro, cassações, reserva de mercado, êxodo rural … Muitos eram os nomes e os termos que tornaram aquele um período sombrio.

Acredito que essas manifestações que clamam por uma nova intervenção militar façam parte de movimento orquestrado, planejado para fazer a população acreditar que tudo o que aconteceu depois da redemocratização foi ruim. Divulgar esse sentimento favoreceria os setores mais conservadores, os quais ainda sonham com a reconquista do poder e suas benesses através de um golpe, uma revolução ou até mesmo pelo uso dos meios democráticos, fazendo eleger um novo salvador da pátria de perfil autoritário e supostamente sem compromissos.

É claro que não estou plenamente satisfeito com a situação do país, mas entendo que ignorar que melhoramos nos últimos 25 anos chega a ser uma leviandade. Abrir mão da democracia seria um retrocesso grande demais para um país que, embora ainda caia alguns tombos, começou a dar seus próprios passos para o desenvolvimento.

Se para mim a década de 80 começou com o assassinato de John Lennon, seu encerramento se deu com as eleições para presidente em 89. Embora eu não tivesse ainda idade para votar e o resultado do pleito tenha sido a consagração do Collor, aquele momento foi um marco não pode ser esquecido nem minimizado. Foi a partir de então que minhas memórias começaram a tomar outras cores e que, embora as coisas ainda não estejam como gostaria que estivessem, pelo menos perderam aquela influência do tom de oliva que deixava tudo triste e cinzento.

 

 

.