maio 242018
 

 

 

Sentado em uma mesa de costas para a porta, Alexandre olhava pela janela a chuva que caía com força. Celebrou a própria sorte por ter chegado antes do aguaceiro e imaginou que a partir daquele momento as coisas poderiam finalmente mudar. Ele então inseriu o canudinho no copo de refrigerante, abriu o pacote de guardanapos e estava tirando o lanche da caixinha quando sentiu uma mão em seu ombro:

– Oi, Alexandre, tudo bem? Como você está?

Era Clara, uma conhecida desde os tempos de adolescência no antigo Clube V, aonde passavam os finais de semana. Ela era uma mulher bonita, com bochechas rosadas e cabelos avermelhados, e que tinha costume de continuar falando antes de ouvir a resposta.

– Que bom que você está recuperado! Todos ficamos apreensivos, rezamos muito pela sua saúde. Eu sempre tive fé que tudo ia dar certo!

– Poxa, nem tenho como agradecer – respondeu ele, sem graça.

– Você parece bem! Está mais magro! Que bom te ver assim. A_________ está aqui também, foi lavar as mãos. Ela vai gostar de te ver.

– Quem está aí?

– A   ___________!

Alexandre não ouviu o nome da moça, embora Clara tenha dito perfeitamente. Ele viu os lábios se mexendo, mas nenhum som foi emitido, ao menos para seus ouvidos. Antes que pudesse perguntar novamente, a ruiva anunciou:

– Pronto, foi só falar que ela apareceu. Amiga, veja só quem está aqui!

A colega de Clara conhecia Alexandre muito bem, pois ambos tinham sido namorados naquela mesma época do clube. Foi um relacionamento breve e sem muita importância na vida dos dois, e que acabou sem gerar nem saudades nem ressentimentos. Nada que justificasse o desprezo que ele aparentou demonstrar ao sequer cumprimentá-la.

A inércia de Alexandre, todavia, não foi proposital. Assim como não tinha escutado o nome da moça antes, ele também não a enxergava, mesmo que estivessem a alguns centímetros de distância. Ele percebeu que algo estava errado pela reação de Clara, que por sua vez não compreendia o motivo dele ignorar sua amiga.

– Faz tempo que vocês não se veem? – perguntou a ruiva, tentando quebrar o gelo.

Alexandre não podia responder já que não via ninguém ali, nem tinha a menor ideia de quem fosse. Já incomodada com a situação e sem entender o motivo daquilo, ___________ falou da última vez que tinham se encontrado.

– Ah, já faz um tempinho então… – disse Clara – Bom, vamos comer que essa chuva deixou o dia ainda mais corrido.

Clara puxou ___________ pelo braço e foi se sentar no outro lado do salão com a amiga, que estava indignada com a atitude de Alexandre. “Calma! Acho que ele não está muito bem da cabeça. Está com uma cara de bobo”.

A avaliação estava correta, inclusive sobre a feição de Alexandre, que mal conseguia comer o lanche à sua frente. Sua cabeça estava borbulhando, tentando compreender o que acontecera e, mais ainda, tentando descobrir quem era a pessoa invisível.

Pensou em várias amigas que tinha em comum com Clara, mas poderia ser qualquer uma delas. De todas as possibilidades, porém, em nenhum momento lhe ocorreu _________, que simplesmente não existia em suas memórias.

Muitas pessoas pagariam para esquecer de momentos trágicos ou de pessoas que causaram alguma dor. Alexandre até se lembrou de ter visto algo sobre uma empresa americana que apagava relacionamentos frustrados da memória, era uma firma criada pelo ator Jim Carrey, ou algo assim. Mas, inconscientemente, Alexandre tinha ido além: não só deletou aquela pessoa como também a bloqueou por completo, tornando ___________ um nada, como um fantasma para quem não crê na vida após a morte.

A situação fez a fome de Alexandre se transformar em mal-estar, e terminar de comer se tornou impossível de vez quando Clara e a amiga voltaram para a mesa do rapaz. __________ estava tão indignada com o aparente desprezo dele que quis tirar satisfação, mas tudo o que ele via era o constrangimento da amiga ruiva com aquela cena na lanchonete. Ele resolveu então tentar esclarecer, no tanto que fosse possível:

– Clara, deixa eu te falar uma coisa: você sabe o que aconteceu comigo, e tudo o que houve mexeu com a minha cabeça, de uma forma que eu não sei explicar. Eu estou tendo ainda uns lapsos, uns apagões, e tá foda… Me parece que você está com alguém aí com você, mas eu não tenho a menor ideia de quem seja.

– Você não se lembra da __________?

– Não.

– Poxa, Alê, olhe bem pra ela, impossível que não se recorde dela! Vocês foram namorados, que feio isso!

Alexandre torceu a boca.

– Pra ser sincero, eu não estou nem enxergando essa pessoa que está aí com você.

___________ ficou muito irritada com o que ouviu. Achou que fosse mentira, se sentiu desrespeitada e inutilmente disse um monte de palavrões e xingamentos para o rapaz. A inércia de Alexandre a deixou mais brava ainda, ao ponto dela tascar um tapa na cara do ex-namorado antes de sair pisando duro.

– Pelo menos isso eu senti… – disse sorrindo envergonhadamente para Clara, que se despediu e foi atrás da amiga, sob a chuva que continuava a cair.

 

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