fev 032016
 

 

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Ebenélcio Scrote acordou no meio da madrugada e procurou pelo telefone celular para saber as horas. Ficou surpreso ao ver que o aparelho marcava 01:00, pois quando tinha ido se deitar já se passavam das três da manhã. Era impossível que tivesse dormido até o começo da tarde, ou que tivesse atravessado um dia todo dormindo, então se levantou e foi olhar pela janela, acreditando que seu telefone tivesse algum defeito. Antes mexer na cortina, porém, viu um vulto parado próximo à porta:

– Quem é você?

– Eu sou Balaco Baco.

– Quem?

– Eu sou um dos fantasmas dos carnavais passados.

Enquanto o espectro falava, lantejoulas caíam pelo chão. Ebenélcio manteve-se em silêncio, descrente da cena que se apresentava.

– Você já foi animado, Ebenélcio. Você se divertia no carnaval, aproveitava a folia, agora só quer saber de cama e computador. Venha comigo visitar o seu tempo de farra para reviver aquela pessoa alegre que havia dentro de você.

Mesmo ainda sem acreditar no que acontecia, Ebenélcio deu a mão e, no mesmo instante, eles se encontravam no meio de um salão enfeitado com serpentinas e com o chão coberto de confetes. Ebenélcio viu um adolescente usando camiseta branca, uma grande fralda de pano sobre o calção, com uma chupeta pendurada no pescoço e carregando uma mamadeira, que era sorvida continuamente pelo jovem.

– Aquele bebezão pulando como um louco é você, Ebenélcio, se lembra disso?

– Sim!

– O que tinha naquela mamadeira?

– Pinga com limão.

– Você não era muito jovem para beber?

– Sim, aquela foi a primeira vez que tomei um porre. Eu não me lembro direito do que aconteceu, só me recordo que beijei uma linda mulher e que no outro dia eu tinha comigo uma flor que ele me deu!

– E quem é aquela moça vestida de diaba que está conversando agora com você?

– Ah, aquela é a Blonda. Ela não está vestida de diaba não, ela está sem fantasia nenhuma, na verdade. Essa cara de exu era dela mesma, coitada.

– Você bebeu demais naquela noite! Veja, você está agora brigando com a menina! Não, não! Vocês não estão brigando, vocês estão se agarrando… Nossa! Que beijo! Que amasso!

– Isso está errado, não foi assim! Eu fiquei com uma linda mulher naquela noite! Ela até me deu uma flor…

– Seria aquela flor de jaca que ela tirou da lapela e está te entregando agora?

– Meu Deus, a Blonda não! A BLONDA NÃO!

***

Ebenélcio acordou assustado, com o coração batendo em ritmo acelerado, e olhou para o celular que marcava 02:00. Antes que pudesse compreender o que estava acontecendo percebeu que no quarto havia mais alguém.

– Boa noite, Ebenélcio. Eu sou Teleco Teco, outro fantasma dos carnavais passados.

– Estou sonhando dentro de um sonho? O que está acontecendo?

– Está acontecendo que você tem que recuperar o espírito da alegria do carnaval, e por isso vou te levar a outro momento em que você foi feliz no meio da folia.

– Bom, pior que o último não pode ser…

O espírito, que usava uma máscara de pierrot, deu a mão a Ebenélcio e imediatamente ambos se encontravam no meio de uma rua de pedras, muito estreita. Era possível ouvir uma marchinha carnavalesca, mas o som vinha de longe. Já amanhecia, os foliões já tinham passado, e não havia mais ninguém nas proximidades.

– Cadê você, Ebenélcio? No meu roteiro você tinha aproveitado a noite com uma tal de Natacha.

– Esse foi meu carnaval em Ouro Preto… Eu me lembro pouco desses dias, mas sei que passei por estas ruas… Tinha uma barbearia e… Olha, veja lá, estou ali na esquina…

– Aonde?

– No chão…

– Aquele esparramado na sarjeta é você?

– Sim…

– O que é aquilo que você está abraçando? Ah, é uma garrafa de vodca! Vodca Natasha…  Então “Natacha” é “Natasha”, que é uma marca da bebida… Que coisa, Ebenélcio… Mas aqui nas anotações consta que você beijou alguém!

– Eu me lembro dos lábios quentes tocando os meus!

– Lábios ou focinho? Pois veja, tem um cachorro lambendo sua boca agora..

– Meu Deus, um cachorro não! CACHORRO NÃO!

***

Ebenélcio quase caiu da cama ao acordar. Suava tanto que seu pijama estava todo molhado. Uma brisa fria foi sentida, e ele já sabia o que isso significava. O relógio marcava 3:00.

– Boa noite, Ebenélcio. Eu sou Ziri Guidum, um…

– … dos fantasmas dos carnavais passados – completou o homem – Já sei o quem você é e o que veio fazer aqui.

– Venha comigo então, Ebenélcio. Vou levar você para a lembrança do carnaval mais feliz da sua vida.

Dessa vez o homem relutou. As duas lembranças anteriores não foram nada boas, e ele teve medo do que poderia encontrar no seu passado. Percebendo isso o fantasma assobiou como uma cuíca e disse: “Vamos ao Rio de Janeiro”. Ebenélcio se animou ao ouvir o nome da cidade maravilhosa e apertou a mão do espírito, fazendo surgir ao redor dos dois uma quadra de escola de samba. O som da bateria era alto, belas mulheres sambavam e havia alegria por todos os lados.

– Esse carnaval foi ótimo – disse Ebenélcio, aos gritos – Eu ia curtir o samba em outra escola, mas um funcionário do hotel me deu a dica dessa quadra. À noite conheci uma mulata maravilhosa, vestida de fantasia de Mulher Gato, e nós tivemos momentos muito quentes encostados no muro do quarteirão de baixo!

– Estou vendo… Vocês estavam bem animados…

– Foi uma noite maravilhosa, inesquecível. Durante o resto do carnaval, e nas outras vezes que fui ao Rio, procurei por ela mas nunca consegui achá-la. Nosso encontro foi breve, mas muito intenso… Não consumamos o ato, se é que você me entende, mas aquela Mulher Gato jamais saiu da minha cabeça.

– Entendi sim o que você disse. Não compreendi o que ela está fazendo agora… Vocês se despediram, ela foi embora, mas parou pra fazer xixi, é isso?

– Não, não é isso não. Ela está de pé… – disse um confuso Ebenélcio.

– A sua Mulher Gato deixou cair algo, vejamos: hmmm, é um crachá do Hotel F. Caneca.

– Esse é o hotel em que me hospedei e… Ah, não! O FUNCIONÁRIO NÃO! O FUNCIONÁRIO NÃO!

***

Ebenélcio estava no chão. Tinha caído da cama e acordou desesperado. O celular marcava 4:00, e foi com medo e que ele se virou para a porta do quarto, aonde estavam os três fantasmas que o visitaram antes.

– Não sei que sonho maluco é isso, mas saiam daqui, saiam da minha cabeça! Vocês são um sonho apenas!

– Errado, Ebenélcio – disse Zirigui Dum

– Não somos um sonho – cuicou Balaco Baco.

– Nós somos reais – repicou Teleco Teco – Todavia, pode ficar tranquilo. Nós vamos embora e nunca mais vamos voltar. É melhor você esquecer do carnaval e ficar em casa mesmo, pois até Momo acha que você já fez besteira demais nessa vida.

***

Até hoje Ebenélcio não sabe se foi um sonho ou se foi mesmo visitado por fantasmas. Ele passa seus carnavais em casa, isolado da folia e dos amigos. Às vezes sente falta da animação e senta-se, melancólico em frente aos desfiles na TV, suspirando com um cartão de um hotel carioca em suas mãos.

 

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dez 232013
 

 

E a música do ano foi mesmo Get Lucky. Eu já tinha cravado isso há tempos, mas a internet está aí pra confirmar aquela afirmação: aposto que que nenhuma outra canção tenha tido tantas versões em 2013, sendo que algumas são legais, outras inusitadas e muitas são pura bizarrice.

 

O original:

Uma versão acústica:

Outra versão acústica (mais gatinha essa):

Os indies também curtiram a música, ao seu jeito:

Uma pegada roqueira:

O Bono Vox parecia estar um pouco alterado quando cantou:

Cinco pessoas no piano:

A polícia da Rússia mandou ver:

Em português, com o Tony Salles (quem?):

Essa é pro carnaval:

Tem em forró, claro:

Eu já tinha postado a do Obama, mas sempre vale a pena:

Também tem em 8 bits:

Uma version hermana, por que não?

Para terminar, a melhor de todas – a performance de Yoko Ono:

 

Like the legend of the phoenix

All ends with beginnings

 

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