jan 312013
 

 

Campo do Elvira

 

Uma das personagens mais conhecidas em Jacareí durante a minha infância foi a Maísa, uma travesti mulata, de 1,80m, capoeirista e musculosa, que andava por toda a cidade de vestido e sandália.

Lembro-me de ir com meu pai algumas vezes nos domingos de manhã ao Bar do Mané, aonde eu comia kibe com Guaranita enquanto ele e seus amigos jogavam dominó. A Maísa entrava, fazia uma festa com todos, cumprimentava o meu pai pelo nome (“Tadeu”) e a mim pelo apelido (“Tadeuzinho”).

Dentro do bar muitos faziam piadas e brincadeiras com a Maísa, mas meu pai não gostava disso. Além de ser um postura de tolerância, também havia muita sabedoria em sua atitude, como descobri depois.

Em certo domingo o JAC disputava no Campo do Elvira uma partida pela 2ª ou 3ª divisão do Campeonato Paulista, e no intervalo do jogo eu, meu pai e meu irmão descemos das arquibancadas para irmos à lanchonete, quando então vimos a Maísa abrir um clarão no meio dos espectadores ao pegar pela gola da camisa um cidadão que antes havia lhe insultado. Ela levantou o rapaz até deixá-lo suspenso no ar e tascou-lhe um beijo na boca, enfiando-lhe a língua enquanto as pernas do indivíduo balançavam desesperadamente sem tocar o chão. Terminado o ato, Maísa jogou o cara contra o alambrado, deu-lhe uma encarada e saiu no meio do pessoal, que abriu passagem.

Meu pai aproveitou a oportunidade para compartilhar um ensinamento:

– Viram isso, meus filhos? Independentemente de sexo, cor ou religião, é muito importante tratar os outros com educação e respeito.

Eu e meu irmão consentimos com a cabeça, pelo que meu pai então completou:

– Principalmente quando esse outro é muito mais forte do que você…

***

A Maísa morreu faz algum tempo.

O Estádio do Elvira foi demolido para virar um condomínio.

E o meu pai também já se foi, hoje completam-se 12 anos.