abr 202012
 

 

Só porque eu não gosto de músicas que rimam coração com paixão não quer dizer que eu não tenho sentimentos. Eu gosto de canções que falam de amor sim, principalmente aquelas que não se parecem com canções de amor.

Para ilustrar o que estou dizendo, veja como o Pixies fala de um grande, grande amor:

 

 

Uma das mais belas letras do Radiohead fala sobre o fim do relacionamento em uma música frenética e caótica:

 

 

E entre longos solos de guitarra, Neil Young fala sobre querer amar em uma música de mais de 8 minutos – isso sem ter que repetir setenta e oito vezes alguma idiotice do tipo “quero um amor maior/amor maior que eu”:

 

 

Ser romântico, como quase tudo na vida, é uma questão de ponto de vista.

 

 

dez 092011
 

 

Ele estava completamente apaixonado pela mulher de cabelos ruivos.

Foi amor à primeira vista, e desde que começaram a se encontrar todos os dias, naqueles cinquenta metros em que seus caminhos se cruzavam, a paixão tinha mudado Fernandinho: ele começou a acordar mais cedo para se aprontar, ficou mais preocupado com o cabelo e as espinhas, passou a se vestir melhor e até gastou um dinheiro que não tinha para comprar perfume.

Saía de casa de manhã ansioso, e quando ela dobrava a esquina seu coração acelerava. Fernandinho então estufava o peito, colocava um sorriso simpático no rosto e esperava que ela o notasse, coisa que parecia que nunca iria acontecer.

Com o tempo passando Fernandinho foi se tornando cada vez mais angustiado, pois em breve chegariam as férias escolares, o que a afastaria durante meses. Foi então que,
numa manhã nublada de novembro, ele decidiu tomar coragem e interceptou a mulher de cabelos vermelhos para dizer que a achava linda, que ela era a mulher dos seus sonhos, que ele queria – queria, não, precisava – que ela soubesse de sua paixão.

Acontece que aquela bela mulher não se comoveu pelas palavras apaixonadas daquele garoto, e foi bem rude e direta:

– Ah, moleque, vá lamber sabão!

A face de Fernandinho ruborizou, seus olhos se encheram de lágrimas e ele ficou tão transtornado que voltou pra casa, foi até a área de serviço, pegou uma barra de sabão de côco que estava sobre o tanque e deu uma lambida cheia de raiva e angústia.

A partir daquele momento Fernandinho tornou-se completamente viciado em lamber sabão.
Ele passou a andar com pedaços de sabão dentro do bolso, que lambia às escondidas. Experimentou várias marcas, vários tipos, diferentes fragrâncias. Não gostava de sabonete pois achava que o perfume mascarava o sabor, e dava preferência para os glicerinados, que eram mais do seu agrado.

Fernandinho tornou-se amargurado, e as pessoas estranhavam seu jeito e seu hálito. Sua família suspeitou que estivesse usando drogas, e sua mãe não compreendia como o consumo de material de limpeza em sua casa tinha aumentado tanto.

A verdade só foi descoberta quando Fernandinho tomou porre de detergente líquido e foi flagrado cheirando sapólio.

Foram necessárias várias sessões de terapia, e ele passou as férias todas em tratamento.

Depois da alta voltaram as aulas, e Fernandinho evitou o velho trajeto da escola por uns tempos, até que se achou forte o suficiente e decidiu ir novamente por onde a mulher ruiva passava.

O coração de Fernandinho voltou a acelerar quando a avistou, e ele pensou em um monte de coisas que deveria dizer pra ela. Imaginou xingá-la, humilhá-la, ou, quem sabe, comovê-la – sim, pois quem sabe se aquela mulher, ao conhecer sua história, descobre que seu amor é puro e merece ser correspondido…

Fernandinho nem teve tempo de dizer nada. Ao chegar perto da mulher ela olhou pra ele com desprezo e disparou:

– Vá a merda, moleque!

E aí então a face de Fernandinho ruborizou, seus olhos se encheram de lágrimas e ele ficou tão transtornado que…