jul 042019
 

OU: DO TEMPO EM QUE EU GANHAVA MILHÕES

 

Meu pai olhava da porta do quarto, com indignação, o filho que ainda estava na cama apesar de já ter passado das 9h da manhã:

– Muita moleza isso aí. Você poderia levantar e sair pra procurar um trabalhinho, que tal?

E assim foi, pois era 1990, eu tinha quase dezesseis anos e até aquele tempo eu não contrariava meu pai. Batemos de frente poucas vezes, na verdade, o que até lamento. Gostaria de ter tido mais tempo com ele para que eventualmente nos estranhássemos mais.

Como não tinha experiência com nada, achei que o mais fácil seria encontrar uma vaga como vendedor. Saí pela cidade e passei por várias lojas, começando pelas maiores: Casas Bahia, Lojas Cem, Ponto Frio, Arapuã. Nas menores procurava por algum anúncio ou por alguém conhecido que pudesse me ajudar.

Na Arapuã eu poderia ter vendido essa máquina de escrever, que custava 61.990,00 à vista ou 151.176,00 à prazo. Uma pechincha!

Não tive sucesso nos primeiros dias. Eu estudava em São Silvestre na época e tinha outros amigos na mesma situação, então decidimos procurar emprego juntos. A estratégia mudou para a busca através de agências, tanto de Jacareí quanto de São José dos Campos. Preenchíamos fichas e éramos informados que entrariam em contato quando surgisse uma possibilidade. Nunca surgiu.

Certo dia o Adriano, um topetudo baixinho que tinha o apelido de Tatu, me perguntou se eu sabia usar máquina de escrever e pediu para ver minha letra, pois havia uma vaga no escritório de contabilidade em que ele trabalhava. Como eu havia feito curso de datilografia na escola Olivetti e tinha uma letra razoável, estava credenciado para fazer uma entrevista com o Fermin, um espanhol muito alto e de vasta cabeleira branca.

O Fermin me contratou mas disse que não era para eu me apegar muito ao escritório, já que ele estava cansado daquela vida e pretendia largar tudo em pouco tempo e ir morar na praia com a Dona Maria, sua esposa. Passados quase trinta anos, creio que ele ainda diz a mesma coisa aos novos funcionários.

O meu trabalho era fazer a escrituração fiscal. Num grande livro eu lançava os dados das notas fiscais dos clientes do escritório, registrando tanto as entradas quanto as saídas de mercadorias. Como no livro não poderia haver rasuras, escrevia com uma caneta tinteiro que usava nanquim diluído e que poderia ser apagado com um pouco de aguarrás. Também preenchia formulários, de muitos tipos e tamanhos, usando papel carbono na máquina de escrever para garantir a exatidão de cada via – mesmo faltando cerca de dez anos para 2001, eram tempos de burocracia analógica. Quando o primeiro computador foi instalado no escritório parecíamos os primatas em volta do monólito.

Eu gostava do Fermin e dos meus colegas de trabalho. Trabalhávamos bastante, mas éramos todos meio moleques naquele tempo – só havia homens no escritório, por exigência da Dona Maria. As guerras de dardos de papel eram inacreditáveis, e as brincadeiras com os office boys às vezes passavam da conta, mas as brigas eram raras e nos dávamos bem.

Além do Adriano Tatu havia o Chico, que é filho do Fermin e trabalha com ele até hoje; o Dito, sempre à espera do pior; o romântico Renato e o Adriano Sacomani, que era um bom amigo cujo contato perdi depois que entrei na faculdade. Muitos caras legais passaram por lá, como o Lázaro, o Gerson, o Luciano, o Droopy e outros. A  rotatividade entre os office boys era grande, principalmente porque o salário não era grande coisa.

     O office boy era a cara do Droopy

Ah, o salário! Os mais jovens não sabem a emoção de receber mais de um milhão por mês! Milhões de cruzeiros, que não valiam nada, e que graças a inflação descomunal perdiam valor a cada dia. O momento de receber era sempre um suspense: a inflação fazia com que o salário tivesse que ser renegociado a cada pagamento. Íamos um a um na sala do Fermin, e a pergunta para quem saía de lá era “E aí, com está o homem hoje? Generoso?”. Nunca estava.

Os milhões que recebíamos não davam para muita coisa. Como eu estudava em escola pública, o dinheiro era gasto com roupas que comprava na Rosvaldo e na Infinity, com HQ’s e nos finais de semana na New Wave e no Banana Split, as danceterias que marcaram nossa época. Quando a grana estava mais curta, íamos à Eclipse e às domingueiras do Elvira, geralmente para nos arrependermos no dia seguinte.

Em julho de 1993 disse para o meu pai queria deixar o escritório, que queria me dedicar aos estudos para a faculdade e ele aceitou sem ressalvas (quando anunciei que precisávamos ter uma conversa séria ele imaginou que seria sobre ser avô, então a notícia não foi tão dramática quanto ele temeu).

Pouco tempo depois, numa sexta-feira, meu pai veio me avisar sobre o fim das inscrições para o vestibular na Unicamp, mas isso é uma outra história.

 

De pé: Renato e Adriano Sacomani Sentados: Luciano e Adriano Tatu

 

Lázaro e eu, em Campos do Jordão

 

dez 132011
 
Fiz uma atualização no texto O Velório para incluir a imagem do famoso cheque do motoboy – que é de R$ 150,00, e não de cem, como constou originalmente.

***

Esse cheque foi dado por um colega nosso a uns caras estranhos que estavam no D.A. da faculdade e que disseram precisar de uns trocados para pegar um mototáxi. Esse amigo, que ficava muito generoso quando bebia um pouco, tornava-se extremamente caridoso quando bebia muito, e por isso deu um cheque de R$ 150,00 para os figuras. 
Sorte desse colega que um certo alguém, que não estava tão bêbado, chegou em tempo de ver a besteira e tomou o cheque da mão dos caras.
Só pra que se tenha uma ideia, os R$ 150,00 de junho de 1998 equivalem hoje a R$ 354,28 – apenas com correção monetária, sem acréscimo de juros.

***

Vi o filme OPERAÇÃO PRESENTE e gostei muito. É um daqueles desenhos que dá pra se divertir junto com as crianças. No começo me assustei com uma possível propaganda da eficiência militarista, mas não é nada disso. A história é boa o 3D é muito bem utilizado.
***

Já o trailer do relançamento em 3D do Episódio I de Guerra nas Estrelas – A Ameaça Fantasma – não me comoveu. Os efeitos não pareceram bons o suficiente para me levar outra vez ao cinema pra ver aquele filme, que é bem fraquinho.




nov 222011
 

 

– Oi.

– Oi, cara.

– Triste isso, hein?

– Ninguém esperava.

– Olha pra ele, até morto ficou bonitão.

– Não é a toa que diziam que, apesar de careca, ele era um gato.

– Mas também, quando abria a boca…

– Vixi, nem fale!

– Vai fazer falta. Menos nas peladas de terça, seja jogando no gol, seja apitando.

– Como juiz era um ladrão sem-vergonha. Como goleiro era só sem-vergonha.

– Verdade, ele só jogava porque era bonito.

– Só! Ele aproveitava do fato de parecer com o Gigio.

– Vem cá, você acha que ele era?

– Atleticano? Sim, apenas disfarçava que era flamenguista.

– Não, não isso… É que, você sabe, morando tantos anos ali naquela região, frequentador do Shopping Frei Caneca…

– Ah, isso! Acho que não, ele era casado.

– Isso não quer dizer nada, eu mesmo…

(23 segundos de silêncio constrangedor.)

– Oi, gente.

– Oi, cara, graças a Deus você chegou!

– Ãh?

– Nada não. Nós estávamos falando da falta que ele vai fazer.

– Sim, sim. É uma pena. Mas eu estou curioso pra saber como é que eles fizeram para acomodar aquele cabeção dentro do caixão.

– Ele tinha que ter um cabeção, senão não caberia aquela língua dentro da boca.

– Só! Falava pra caramba esse japonês! Lembra aquela vez que ele saiu numa sexta à noite, com um livro debaixo do braço, e quis nos convencer de que ia estudar?

– Também, depois que ele se atracou com a Godzila na frente de todo mundo, não podia mais dar bandeira!

– Foi naquele dia que ele subiu que nem o homem-aranha na parede do banheiro do bar, né?

– Ah, é! E quando os caras começaram a falar ele pegou aquela Brasília que ele tinha e saiu todo nervoso, dizendo “nessa quem se fudeu fui eu, nessa quem se fudeu foi eu”!

(Os três riem alto, alguém no fundo faz “shhhhh”.)

– Depois ele trocou a Brasília por aquele Lada vermelho, que ele trouxe lá da casa dele, em Ribeirão Preto.

– O famoso Lada no qual só se ouvia Ramones! Acho que o curso de Serviço Social inteiro andou naquele carro!

– Mas ele só levava pra passear, não comia ninguém.

– Que nem eu…

– Que nem eu…

– Que nem eu…

(Os três suspiram simultaneamente).

– Vamos tomar uma antes do enterro?

– Vamos sim. Podem deixar que eu pago.

– Tá cheio de grana assim?

– Mais ou menos. Tô com um cheque de cento e cinquenta reais que ele me deixou pra pegar um mototáxi…

 


– 



* O texto acima é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com pessoas reais é mera coincidência. Agora, se a semelhança for com um bando de caras escrotos, então é sacanagem mesmo.


nov 102011
 

 

Ao passar pela porta ele foi recepcionado por uma mulher alta e muito bela, de seios grandes e sorriso discreto, que confirmou que o esperavam para a entrevista e pediu para que ele esperasse na sala de reuniões.

O rapaz lamentou não poder ficar no mesmo recinto que ela. Havia algo naquela mulher que ia além de sua beleza, mas no mesmo momento ele se deu conta de que não poderia desviar a atenção de seu objetivo. Aquela não era hora para um flerte. “Quem sabe, no futuro…”, pensou.

Entrou na sala, recusou que lhe servissem água e voltou a se concentrar naquela que seria a primeira entrevista de emprego de sua vida. Para não errar, seguiu todos os conselhos: vestia um terno escuro bem alinhado, a gravata vermelha era bela e discreta, o cabelo estava bem cortado. Havia se preparado para responder as perguntas mais prováveis e, embora não tivesse muito currículo para defender, contava com os anos de esforço em uma faculdade de ponta para impressionar o entrevistador.

A sala tinha paredes claras e a grande mesa de madeira escura ocupava quase todo o espaço. O ar condicionado não fazia qualquer barulho e mantinha a temperatura do ambiente perfeita. Sobre a mesa repousava um porta lápis e um bloco de anotações com capa de couro, personalizado com o nome dos sócios do escritório em letras douradas.

Quinze minutos se passaram e a sua aflição crescia . “Faz parte do teste isso. Devem até estar me filmando”. Passou então a procurar por câmeras apenas com os olhos, fingindo tranquilidade e segurança.

Depois de mais algum tempo um homem alto e de fartos cabelos castanhos entrou. Seu terno cinza era elegante e a gravata escura parecia ser fina e cara.

– Boa tarde, meu nome é Renato.

– Boa tarde, Dr. Renato,meu nome é Tomas.

O entrevistado reconheceu o nome. Dr. Renato era quem emprestava o nome do meio para o escritório Coelho, Lapolina & Leite Advogados Associados.

O experiente advogado acomodou-se na cadeira,arcou o corpo para frente, pôs os cotovelos sobre a mesa e tirou os óculos. Passou lentamente as mãos na testa enquanto mantinha os olhos cerrados, até que respirou fundo, virou para o candidato e perguntou:

– Me diga então, Tomas…

“Tomas? Ele me chamou pelo nome, sem ‘Doutor’, sem ‘Senhor’. Isso é bom ou é ruim?”

-… o quê você quer da vida?

O entrevistado ficou confuso, não esperava uma pergunta assim, tão direta, logo de cara.

– Bem, tenho aspiração de ascender no mundo da advocacia e me tornar um grande jurista, pretendo construir uma carreira sólida…

– Não, não – O entrevistador interrompeu – Quero saber quais seus sonhos, quais seus desejos…

– Eu desejo ser uma grande advogado, me preparei muitos anos estudando na…

– Não! – interrompeu novamente Dr. Renato – Eu quero saber dos seus desejos, não essa ladainha profissional de merda!

– Hã?!?

-Quais os seus desejos, rapaz? Por exemplo, você viu a nossa recepcionista. O que você gostaria de fazer com uma mulher como ela?

– E-E-Eu…

– Vai me dizer que nãog ostaria de enfiar o rosto entre aqueles melões e fazer blu-blu-blu-blu– enquanto emitia o som, chacoalhava a cabeça entre as mãos.

– Ahhh, eh, bem…- “Pense,idiota, pense! Isso é um teste!” – Não, Dr. Renato, eu jamais faria isso com uma funcionária do escritório, isso renderia um processo de assédio e…

– Processo, processo, processo! Eu não aguento mais falar em processo! – O advogado levantou e afrouxou a gravata – Eu quero é falar da vida, de sonhos, de desejos! Sabe qual era o meu sonho, rapaz? Meu sonho era ser igual ao Clóvis, mas nunca pude nem tentar!

O candidato ainda tentou retomar a conversa:

– Clóvis? Ah, sim, Clóvis Beviláqua foi um grande jurista, grande nome do Direito Civil…

– Não, não! Não esse Clóvis! Eu queria ser como o Clóvis Bornay, rapaz! Meu sonho não era usar terno, mas sim viver no mundo do luxo cheio de plumas e paetês – enquanto falava o advogado subiu na mesa e começou a desfilar como se estivesse em um concurso de fantasias de carnaval.

O candidato procurava por câmeras escondidas sem mais disfarçar, até que resolveu sair da sala lentamente enquanto o Dr. Renato acenava e mandava beijos para uma plateia inexistente. Na saída encontrou a recepcionista, que lhe perguntou de forma ríspida:

– Você viu o que você fez?

– Mas eu não fiz nada!

– Você é um tonto! Deu a resposta errada, agora não vai poder fazer blu-blu-blu-blu aqui – disse a recepcionista apontando para o peito antes de vestir uma máscara de colombina e sair jogando confetes pelo corredor.

 

 

 

nov 012011
 
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sala-de-comissão1
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A luz que vinha das amplas janelas não era capaz de aquecer o recinto, grande demais para o evento. Apenas quatro pessoas estavam no antigo salão: três sentadas atrás de uma mesa de madeira, e o autor do texto, que aguardava de pé a demorada leitura dos documentos.

Já fazia algum tempo que os únicos sons na sala eram de papéis remexidos e do relógio de parede, adiantado em cinco minutos. O Homem de Gravata Borboleta então levantou a vista e começou o interrogatório:

– Sr. Bacaro…

– É Baccaro – corrigiu a pronúncia, dando ênfase à tonalidade da primeira sílaba.

– Se fosse proparoxítona teria acento, mas não vejo nenhum – retrucou o Homem de Gravata Borboleta sem olhar para o interlocutor.

– É um nome italiano, e na Itália quando essas consoantes dobradas…

– Sr. Wagner – interrompeu bruscamente a Mulher de Óculos Redondos – vamos direto ao assunto: o senhor quer fazer o favor de nos explicar aonde queria chegar com isso?

A hostilidade estava finalmente escancarada.

– Isso aí é uma piada que eu vou encaminharaos meus amigos, por email, só isso.

– Uma piada? – perguntou o Homem de Gravata Borboleta?

– Sim, uma piada – disse o autor, já nervoso. É que tem um contexto…

-Hmmm, Uma piada que precisa ser explicada… – disse com cara de desdém a Mulher de Óculos Redondos, interrompendo novamente. O interrogado continuou:

– É que em 2010 eu levei a minha família para passar o final de ano com meus colegas em Franca. Acontece que agora a minha esposa está grávida, então escrevi esse email para dizer a eles que não iria pra lá novamente porque eu não quero correr o risco da minha filha nascer francana.

– Isso é um absurdo! – a mulher ficou de pé para falar – Isso é completamente discriminatório, ofensivo e ultrajante!

– Como? É só uma provocaçãozinha…

– O senhor tem noção de como ofende as mulheres? Quer dizer então que é o marido, o machão, quem determina aonde a família pode ou não pode ir nas férias? Quer dizer então que a mulher grávida é uma incapaz, que não pode fazer aquilo que outras mulheres não-grávidas fazem? – A Mulher de Óculos Redondos quase espumava, e precisou ser contida pelos Homem de Gravata Borboleta, que acrescentou:

– A piada faz referência ao final de ano, que é quando comemoramos as festas natalinas e a confraternização universal. O senhor com essa chamada “piada” está ofendendo o espírito cristão da fraternidade e da indulgência que deve vigorar nesses dias!

– Mas não é nada disso – disse o perplexo autor – eu nem pensei…

– Diga-me uma coisa, senhor Zácaro – questionou o Homem de Bigode Ralo, que até então mantivera-se quieto – Esse seus amigos têm filhos?

– É Baccaro, e sim, eles têm filhos maravilhosos. Por um milagre todas as crianças saíram como as respectivas mães.

-Sr. Ácaro – continuou o inquisidor – o senhor não tem vergonha de fazer uma brincadeira de tão baixo nível com os infantes?

– Mas meus amigos não iriam levar a sério! Já estão acostumados a essetipo de brincadeira, ninguém liga! E é BACCARO, com “bê” de bola!

O Homem de Gravata Borboleta então foi incisivo:

– O senhor tem que entender que o mundo atual não tolera mais essas gracinhas, Sr.Bacabo. Acabou o tempo da piada politicamente incorreta. Isso que o senhor fez pode dar cadeia! Ou o senhor faz as correções ou enviaremos os documentos às autoridades competentes!

– Não, não, a piada nem era tão boa assim! – disse o autor. Quer saber, me devolvam isso pois não vou mandar mais nada.

O autor pegou suas coisas e antes de sair questionou a comissão:

– Os senhores perceberam que criaram um monte de problemas absurdos na piada, mas não disseram nada sobre os francanos, que são justamente aqueles que eu queria sacanear?

– Ora, Sr. Baccaro – respondeu o Homem de Bigode Ralo, agora acertando a pronúncia do nome do autor – Os francanos são muito escrotos, não dá pra defender, né?