ago 122014
 

 

 

Ontem foi o Dia do Advogado. Essa data costumava ser mais festiva para mim, mesmo antes de passar pelo Exame da Ordem.

Durante a faculdade o 11 de agosto era comemorado com o Dia do Pendura. Geralmente o tradicional calote era aceito pelos donos dos estabelecimentos, mas às vezes dava errado e virava caso de polícia, como quando eu e o Helton fomos jantar uma pizza de camarão em um restaurante próximo à Praça do Itaú.

Fomos levados até a delegacia em carro de polícia, com o giroflex ligado, e achamos aquilo o máximo. O delegado também achava graça, mas tinha que disfarçar e nos dizia “paguem o homem, meninos!”.

Acabamos pagando apenas os 10% do garçom, pois fomos muito bem atendidos pelos funcionários – até o momento que anunciamos o pendura, claro.

***

Depois que comecei a trabalhar as festas do dia 11 em Jacareí aconteciam na Casa do Advogado, com churrascos que iam até altas horas. Eram eventos animados, nos quais praticamente todos participavam.

Com o tempo esses churrascos foram minguando, muito em razão da desunião da própria classe. Hoje conheço poucos advogados novos e a Subsecção tem se demonstrado mais preocupada em servir de palanque para alguns do que unir todos colegas.

Mas não importa. Como mostra a foto abaixo, que não está muito boa, tenho muitos amigos com quem vale a pena comemorar o nosso dia.

 

almoço dia dos advogados

 

E dessa vez não penduramos a conta.

 

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ago 132013
 

 

juri

 

No velho salão do júri, Dr. Feliciano, o promotor de justiça, apresentava seus argumentos de forma categórica, com segurança e domínio sobre o assunto, enquanto o advogado parecia estar mais interessado nas mensagens que trocava pelo telefone celular.

Aquele pouco caso, porém, era fachada. Doutor Gregório, defensor experiente e matreiro, estava atento a cada palavra dita pela acusação. Sua dissimulação tinha como objetivo apenas não expor aos jurados sua preocupação com o bom desempenho do outro debatedor – de fato, antes do começo dos trabalhos o advogado achava que teria poucos bons argumentos para apresentar, e a dificuldade de sua missão cresceu graças a exposição tão convicta do promotor.

Depois de uma hora e meia de explanação a acusação encerrou sua parte inicial, e o juiz suspendeu o julgamento por alguns minutos antes que o advogado fizesse a defesa. Todos dentro do salão estavam curiosos para saber como o Dr. Gregório iria refutar os argumentos tão bem sustentados pelo promotor, enquanto o réu já parecia desconsolado.

O advogado aproveitou aquela pausa parar ir ao banheiro. Depois de lavar o rosto ficou algum tempo encarando o espelho, pensativo. Caminhou de volta ao salão lentamente, torcendo uma das pontas do cordão de sua beca com as mãos, e então viu algo que talvez não despertasse a atenção dos demais presentes, mas que para ele foi o suficiente para fazer voltar o sorriso em sua face.

O promotor Feliciano estava conversando com uma bela moça, chamada Lúcia, que aparentava ser um pouco mais jovem que ele. Pela maneira que ela estava vestida e pelos livros que carregava estava claro que era uma estagiária do Ministério Público. Gregório ficou observando os dois e viu que para falar com ela o acusador inclinava a cabeça para o lado, colocava a mão levemente sobre o braço da moça e terminava cada frase com um sorriso. O advogado então chegou mais perto e percebeu também que o tom de voz que o Feliciano usava com a estagiária era outro, bem como era diferente o olhar.

Quando o juiz pediu que todos retomassem os seus lugares Gregório passou pelos dois, fez um cumprimento discreto à mulher e antes de se sentar foi até o promotor. Com uma mão no ombro de Feliciano, fez um gesto com a cabeça, deu um sorriso maroto e disse em voz baixa: “Hmmmm…”. Olhou novamente para a moça e foi para a sua mesa para começar de lá sua exposição.

Feliciano ficou claramente incomodado com aquilo. “Que coisa despropositada!”, pensou ele. “Que acinte! Que ousadia! De onde será que ele tirou a ideia de fazer isso? Será que… será?”

O jovem promotor tinha atração por Lúcia há tempos, mas sempre tentou ser muito discreto em relação a isso. Ele ouvira dizer que ela tinha um namorado e que era apaixonada, embora ninguém soubesse quem seria esse homem. A fidelidade de Lúcia ao rival misterioso sempre foi uma barreira para investidas contundentes, mas mais importante ainda para a discrição de Feliciano era o fato dele já ser casado.

Enquanto o promotor tentava decidir se Gregório tinha ou não dado alguma indireta, o advogado começou sua parte no debate fazendo os tradicionais cumprimentos ao juiz, aos jurados, aos policiais e ao público, deixando para citar o representante do Ministério Público por último. Quando então se dirigiu ao promotor fez sua saudação com um sorriso cúmplice no rosto, o que deixou o jovem ainda mais desconfortável.

A tese da defesa, para surpresa de todos, teve como introdução uma explanação sobre o amor e traição. Embora não tivesse muita relação com o caso que estava sendo julgado o advogado teve habilidade para adequar o discurso, contextualizando os fatos como se fossem parte de um quadro amoroso.

Gregório foi ainda mais hábil ao jogar as palavras como tijolos na direção do acusador, que se sentia exposto e mal podia se conter na cadeira.

O promotor tinha trabalhado muito antes do júri para compensar sua falta de experiência, e aquela situação inusitada, de se ver como réu da própria consciência, prejudicou sua concentração e seu foco no julgamento. Ele sentia – com razão – que cada gesto feito pelo defensor era uma forma de apontar para a sua direção e para Lúcia, que tudo observava sem de nada desconfiar.

Terminado o trabalho da defesa, o juiz perguntou à acusação se gostaria de fazer a réplica, no que consentiu o promotor. Contudo, toda a convicção e segurança que ele exibira na primeira parte de seu discurso haviam sumido. A sensação de ter sido descoberto misturava-se com o medo de ser desmascarado, por isso ele não conseguiu repetir a firmeza de antes, fazendo que agora seus argumentos soassem frágeis e confusos.

Voltando para a tréplica, o advogado sustentou para os jurados que a tese da defesa era tão boa que o próprio promotor perdera a convicção em suas palavras.

 

***

 

À noite, entre os lençóis a mulher diz:
– Poxa, você foi ótimo hoje, amor, mas eu fiquei com pena do Dr. Feliciano. Eu nem ia subir para assistir o julgamento, mas você me mandou a mensagem…
– É que você é mais que uma musa pra mim, Lu… Agora venha cá e me dê um beijo que eu quero comemorar…

 

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fev 222012
 

 

 

Depois de dias de estudos, o jovem advogado chegou ao fórum conhecendo cada linha daquele processo tão importante. Além de ser a sua estreia perante o júri, era um caso de grande repercussão na mídia, e o réu jurara não ser culpado pelo homicídio.

A promotora de justiça apresentou uma acusação muito dura, mas o defensor achava-se pronto para rebatê-la. Mais inquietante que as palavras da representante do Ministério Público era a dor na barriga que começara de manhã e que teimava não passar.

Quando chegou sua vez de apresentar os argumentos começou com a voz vacilante, mas foi ganhando firmeza ao falar aos jurados sobre sua importância para realização da justiça. Explicou então sobre a supremacia da Constituição, discorreu sobre o devido processo legal e alertou para o princípio da inocência. Ressaltou a necessidade de provas para condenação criminal, apontou as falhas da inquérito e bradou que é um absurdo que o réu, que se chamava Clodoaldo, fosse apontado como autor do crime uma vez que as informações no inquérito davam contam que foi um tal de Claudinho o verdadeiro responsável. Frisou por várias vezes que nenhuma prova havia contra Clodoaldo, e que nada havia sido feito para localizar esse Claudinho.

A promotora foi para réplica e foi muito ríspida, o que fez o advogado voltar para a tréplica possesso. Embora os debates tenham sido muito inflamados, o júri demonstrou boa aceitação à tese do defensor.

Terminados os trabalhos da acusação e da defesa, o juiz perguntou aos jurados se eles precisavam de algum esclarecimento. Um deles fez uma pergunta por escrito, que foi repassada pelo magistrado:

– Senhor Clodoaldo, o jurado gostaria de saber se o senhor tem algum apelido.

– Tenho sim, senhor.

– Qual?

– Claudinho.

Ao receber a notícia da condenação por quatro votos a três o advogado estava tão bravo que quase lamentou a pena ter sido de apenas 6 anos de cadeia. E ao avisar seu cliente, foi bastante enfático quanto as chances de uma apelação: por mais que seja permitido espernear, não existe nenhum recurso legal que dê jeito em burrice.

 

nov 102011
 

 

Ao passar pela porta ele foi recepcionado por uma mulher alta e muito bela, de seios grandes e sorriso discreto, que confirmou que o esperavam para a entrevista e pediu para que ele esperasse na sala de reuniões.

O rapaz lamentou não poder ficar no mesmo recinto que ela. Havia algo naquela mulher que ia além de sua beleza, mas no mesmo momento ele se deu conta de que não poderia desviar a atenção de seu objetivo. Aquela não era hora para um flerte. “Quem sabe, no futuro…”, pensou.

Entrou na sala, recusou que lhe servissem água e voltou a se concentrar naquela que seria a primeira entrevista de emprego de sua vida. Para não errar, seguiu todos os conselhos: vestia um terno escuro bem alinhado, a gravata vermelha era bela e discreta, o cabelo estava bem cortado. Havia se preparado para responder as perguntas mais prováveis e, embora não tivesse muito currículo para defender, contava com os anos de esforço em uma faculdade de ponta para impressionar o entrevistador.

A sala tinha paredes claras e a grande mesa de madeira escura ocupava quase todo o espaço. O ar condicionado não fazia qualquer barulho e mantinha a temperatura do ambiente perfeita. Sobre a mesa repousava um porta lápis e um bloco de anotações com capa de couro, personalizado com o nome dos sócios do escritório em letras douradas.

Quinze minutos se passaram e a sua aflição crescia . “Faz parte do teste isso. Devem até estar me filmando”. Passou então a procurar por câmeras apenas com os olhos, fingindo tranquilidade e segurança.

Depois de mais algum tempo um homem alto e de fartos cabelos castanhos entrou. Seu terno cinza era elegante e a gravata escura parecia ser fina e cara.

– Boa tarde, meu nome é Renato.

– Boa tarde, Dr. Renato,meu nome é Tomas.

O entrevistado reconheceu o nome. Dr. Renato era quem emprestava o nome do meio para o escritório Coelho, Lapolina & Leite Advogados Associados.

O experiente advogado acomodou-se na cadeira,arcou o corpo para frente, pôs os cotovelos sobre a mesa e tirou os óculos. Passou lentamente as mãos na testa enquanto mantinha os olhos cerrados, até que respirou fundo, virou para o candidato e perguntou:

– Me diga então, Tomas…

“Tomas? Ele me chamou pelo nome, sem ‘Doutor’, sem ‘Senhor’. Isso é bom ou é ruim?”

-… o quê você quer da vida?

O entrevistado ficou confuso, não esperava uma pergunta assim, tão direta, logo de cara.

– Bem, tenho aspiração de ascender no mundo da advocacia e me tornar um grande jurista, pretendo construir uma carreira sólida…

– Não, não – O entrevistador interrompeu – Quero saber quais seus sonhos, quais seus desejos…

– Eu desejo ser uma grande advogado, me preparei muitos anos estudando na…

– Não! – interrompeu novamente Dr. Renato – Eu quero saber dos seus desejos, não essa ladainha profissional de merda!

– Hã?!?

-Quais os seus desejos, rapaz? Por exemplo, você viu a nossa recepcionista. O que você gostaria de fazer com uma mulher como ela?

– E-E-Eu…

– Vai me dizer que nãog ostaria de enfiar o rosto entre aqueles melões e fazer blu-blu-blu-blu– enquanto emitia o som, chacoalhava a cabeça entre as mãos.

– Ahhh, eh, bem…- “Pense,idiota, pense! Isso é um teste!” – Não, Dr. Renato, eu jamais faria isso com uma funcionária do escritório, isso renderia um processo de assédio e…

– Processo, processo, processo! Eu não aguento mais falar em processo! – O advogado levantou e afrouxou a gravata – Eu quero é falar da vida, de sonhos, de desejos! Sabe qual era o meu sonho, rapaz? Meu sonho era ser igual ao Clóvis, mas nunca pude nem tentar!

O candidato ainda tentou retomar a conversa:

– Clóvis? Ah, sim, Clóvis Beviláqua foi um grande jurista, grande nome do Direito Civil…

– Não, não! Não esse Clóvis! Eu queria ser como o Clóvis Bornay, rapaz! Meu sonho não era usar terno, mas sim viver no mundo do luxo cheio de plumas e paetês – enquanto falava o advogado subiu na mesa e começou a desfilar como se estivesse em um concurso de fantasias de carnaval.

O candidato procurava por câmeras escondidas sem mais disfarçar, até que resolveu sair da sala lentamente enquanto o Dr. Renato acenava e mandava beijos para uma plateia inexistente. Na saída encontrou a recepcionista, que lhe perguntou de forma ríspida:

– Você viu o que você fez?

– Mas eu não fiz nada!

– Você é um tonto! Deu a resposta errada, agora não vai poder fazer blu-blu-blu-blu aqui – disse a recepcionista apontando para o peito antes de vestir uma máscara de colombina e sair jogando confetes pelo corredor.

 

 

 

out 212011
 

 

– Bem amigos, voltamos mais uma vez ao vivo para o octógono montado na Praça João Mendes, aonde ocorre o primeiro evento no Brasil de MMA – Martial Mix Advocates. Já tivemos nessa noite vários combates interessantes, nos quais advogados de diferentes especialidades puderam se enfrentar em busca do cinturão dourado e dos honorários de 30 porcento, mas esse último confronto está complicado, hein, Caio?

– Pois é, Galvão, e a noite prometia muito depois que o Trabalhista usou bem das suas características protetivas, ouviu as orientações jurisprudenciais e dominou o Tributarista, que se achava imune, mas que mesmo com toda sua parafiscalidade não suportou a força da ultrapetição.

– Essa luta foi mesmo muito boa, Caio, mas a grande polêmica veio do combate entre o Criminalista e o Empresarial. Aquela citação da Convenção de San José foi uma verdadeira apelação!

– Concordo, Galvão. Quando o Criminalista ficou acuado ele demonstrou bem o que é amplitude de defesa, e basicamente o que ele fez foi confundir os jurados que, in dubio, decidiram pro reo. O Empresarial não endossou a derrota, vai entrar com protestos, mas ele deveria saber que a sua estratégia de aplicar golpes em duplicata não funcionaria sem a devida cartularidade.

– Polêmica, amigo! Quanta polêmica! Bom, aqui na luta principal nós tivemos um início forte do Constitucionalista, que é reconhecido por ser um homem de princípios, e que tentou definir rapidamente usando a cartada magna. Mas o Processualista usou de agravos, embargos e de medidas inominadas, e agora as coisas estão totalmente paradas. Parece que a tática do Processualista é protelar ao máximo para ganhar tempo, e o Juiz não consegue tomar uma decisão. Pode isso, Arnaldo?

– O problema, Galvão, é que a regra não é clara, cada um interpreta de um jeito. É muita coisa pro Juiz decidir, isso gerou um acúmulo que ele não deu causa.

– Sei, Arnaldo, sei… E o Promotor do evento, Arnaldo? O Promotor não é o Fiscal da Lei? Ele não pode ajudar pra que a definição ocorra de forma mais rápida?

– O Promotor, Galvão? E você já viu alguma intervenção de Fiscal da Lei que fez a coisa andar melhor?

– Tá certo, Arnaldo. Ih, rapaz, o Processualista aplicou um golpe com efeito suspensivo, agora que a coisa não tem data pra acabar mesmo. Nós vamos então seguir com a programação normal e a qualquer hora voltaremos com as novidades, se é que elas ocorrerão ainda neste ano, pois parece que se aproxima uma greve da Justiça. Fórum, a gente se vê por aí.