set 182018
 

 

 

 

O telefone tocou às 3h55. Muito antes da hora programada para o alarme, pouco depois que Luiz se deitara. O quarto foi iluminado pela claridade da tela do celular, que vibrava e emitia um som repetitivo, transformando o cômodo numa pequena boate para o homem que acordou assustado.

– Alô? Alexandre? O que houve? – Perguntou Luiz,com uma voz que denunciava que o álcool ainda não fora devidamente processado pelo organismo.

– Cabeça, me diz uma coisa, quem ganhou a Copa de 82?

– Como é que é?

– A Copa de 82… Quem ganhou?

Breve silêncio.

– Puta que pariu, Alexandre! Cê viu que hora são? Eu tô dormindo, cacete, quase morri do coração!

– Responde pra mim, Cabeça, por favor.

– Você está mais bêbado que eu, é isso?

Luiz morava a mais de seiscentos quilômetros de São Paulo, e não sabia o que tinha acontecido com seu amigo dos tempos de colégio. Era chamado pelos colegas de Cabeça graças ao seu conhecimento enciclopédico sobre futebol, e sempre era consultado quando surgia uma discussão acerca de algo fundamental como o nome do zagueiro central da Portuguesa de 96 ou o placar do jogo entre Santos e Corinthians no Paulistão de 87.

Seu interesse por esportes o levou a cursar educação física em Presidente Prudente, e por lá ficou depois da pós-graduação, tornando-se professor na faculdade que frequentou. Agora ele estava ao telefone com Alexandre, um amigo querido, mas de quem não tinha notícias há algum tempo, e que lhe estava fazendo uma pergunta ridícula no meio da madrugada.

– Cabeça, aconteceram umas coisas, eu não sei se você está sabendo, mas eu preciso que você me diga sobre a Copa.

– O Brasil perdeu em 82, Alê… Todo mundo sabe, o mundo inteiro sabe, você sabe, conversamos sobre isso várias vezes… O que está acontecendo?

Alexandre fez silêncio por uns instantes e respirou fundo antes de responder:

– Eu tive um acidente, Cabeça… Fiquei em coma por uns dias mas agora eu estou recuperado.

– Cara, eu não sabia – disse Luiz, já de pé e a caminho da cozinha, aonde foi buscar um copo de água – Você está bem? O que aconteceu?

– Eu estou bem, mas… O Brasil não ganhou aquele jogo da Itália nos pênaltis? Eu tinha certeza que o Brasil tinha passado pela Itália, depois da Holanda, e vencido a Alemanha na final, por dois a zero.

– Putz, que confusão! O Brasil perdeu da Itália: três a dois, com três gols do Paolo Rossi. A Holanda nem jogou aquela Copa!

– Meu Deus! Eu me lembro claramente dos gols da final… O goleiro soltando a bola nos pés do Zico…

– O goleiro alemão soltou a bola nos pés do Ronaldo, em 2002. Você está fazendo uma salada futebolística: a Itália perdeu nos pênaltis pro Brasil na final da Copa de 94, a Holanda perdeu na semifinal em 98 e a Alemanha perdeu em 2002.

A seleção de 82 entrou para a história justamente por ter sido formada por uma geração de craques que não venceu, mas não era disso que Alexandre se lembrava. Pouco antes de fazer a ligação ele resolveu acessar a internet, coisa que não tinha feito desde que deixara o hospital. Abriu as redes sociais e leu várias das mensagens que tinham sido deixadas em seu perfil, mas eram tantas que logo se cansou. Começou a navegar pelos sites e se deparou então com uma entrevista de Falcão, o Rei de Roma, na qual ele falava sobre as causas do fracasso da seleção na Copa da Espanha.

Alexandre ficou sem compreender, afinal, a alegria pela conquista daquela Copa tinha sido um momento mágico de sua infância. Ele se lembrava de comemorar abraçado com seu pai e seus irmãos, do seu tio chorando, da sua mãe vestida de amarelo na casa da rua do morro.

De repente, tudo aquilo não era mais verdade, tudo se tornou estranho.

Sem pensar muito no que fazia, ligou para o amigo que mais confiava acerca de memória do futebol, e se sentiu mais confuso ainda. Mesmo depois de confirmada a notícia da derrota, foi difícil aceitar. Não havia motivos para duvidar do Luiz Cabeça, mas suas lembranças eram tão firmes e detalhadas que era difícil não crer que eram reais.  Uma parte feliz da sua infância lhe foi arrancada repentinamente, causando não só um vazio difícil de explicar, como também uma séria preocupação com a própria sanidade.

– Alê, Alê… Cara você está aí?

Alexandre ouviu o chamado do amigo e olhou para o telefone, desolado. Deu um sorriso triste e disfarçou:

– Ei, Cabeça, são esses remédios que eu ainda estou tomando. Eles me deixam sem dormir direito e aí eu fico meio xarope. Faz três dias que eu saí do hospital e ainda deve ter muita porcaria no meu sangue! Cara, me desculpe por ligar a essa hora, eu devo ter sonhado com esses jogos aí que eu falei pra você e aprontei essa presepada, tô até com vergonha!

– Alê, você está bem mesmo? Eu estou em época de provas na faculdade mas posso me planejar pra ir pra São Paulo em breve, assim você me coloca em dia com todos esses acontecimentos.

– Vai ser muito legal te receber aqui – mentiu Alexandre – Eu estou bem, pode ficar tranquilo – mentiu de novo.

– Tá bom, meu irmão, a gente se fala. Fiquei preocupado com você.

– Não precisa não, Cabeça. Eu estou bem. Vou acordar achando que essa conversa que estamos tendo agora é um sonho, depois vai me bater uma ressaca moral quando confirmar no histórico do celular que eu te liguei mesmo.

– Nem me fale de ressaca que já começo a sentir os efeitos da minha. Fica com Deus.

– Grande abraço!

Luiz desligou o telefone e não sabia se ficava preocupado ou se dava risada do amigo, que parecia estar mais chapado do que ele. Decidiu que voltaria a pensar nisso depois que estivesse recuperado, se ajeitou na cama para voltar a dormir, e então lhe veio um pensamento à cabeça: “Se Alexandre pensava que o Brasil venceu a Copa de 82, o que será que aquele maluco lembra da Copa de 2014?”

 

.

set 212016
 

 

figurinhas-copa

 

A Santa Terezinha é uma rua que inicia plana, mas depois de uns trezentos metros começa a subir de um jeito que me cansa só de lembrar. A escola ficava ainda nessa parte baixa, de fronte a uma outra via em que até hoje às quintas acontece a feira livre do bairro. Todas as ruas próximas terminam em morros, e quase todos nós morávamos no alto, então ir para a aula era sempre mais fácil que voltar para casa, o que não me impedia de chegar sempre atrasado.

Mas eu morei próximo à escola apenas nos primeiros meses de aula. Em setembro, no feriado do dia 7, nos mudamos para a rua Santa Cecília, e embora estivesse mais longe nunca mais perdi a hora: o motorista da Kombi que me levava era nosso vizinho e eu era o primeiro a embarcar e o último voltar para casa.

Era 1982. Ano da Guerra das Malvinas, da Copa da Espanha e da primeira série C com a professora Vera, no Centro Educacional Sesi nº 160.

Antes das aulas, nos dias mais quentes, íamos buscar água que saía de uma bica incrustrada no quintal de um dos vizinhos da escola. A água era fresca e cristalina, de um jeito que hoje é impossível conseguir em pleno centro da cidade.  Com as garrafinhas das lancheiras abastecidas, aguardávamos o sinal para fazer fila e entrar na sala de aula trocando figurinhas dos álbuns do chiclete Ping Pong. As coleções das Copas de 82 e 86 e da Fórmula Um faziam tanto sucesso com a molecada quanto com os dentistas.

O pátio da escola era um pouco maior do que uma quadra de vôlei, único esporte que se praticava nas aulas de educação física (também havia o mini-vôlei, que os meninos jogavam com bolinhas de papel ensacadas em embalagens de pipoca, numa rede improvisada entre os mastros das bandeiras, mas isso era atividade extracurricular, assim como o pega-pega, o cinco-corta, a competição de aviões de papel, etc.). O chão da quadra era de cimento crespo, o que proporcionava maior emoção a cada tombo, mas isso não nos impedia de correr e pular o tempo todo.

Eu e alguns outros garotos aprendemos a jogar vôlei de verdade no Esporte Clube Elvira, e isso favoreceu o crescimento de uma rivalidade com o pessoal mais velho, que se formaria em 1988. Tenho certeza que os maiores jogos do esporte mundial foram travados naquela quadra cimentada do Sesi, pois já disse o poeta que nenhuma partida foi mais bela do que aquelas que ocorreram na minha aldeia (ou algo assim).

As meninas sempre foram mais maduras que os meninos, tanto emocional quanto fisicamente. Isso promoveu alguns desencontros amorosos nunca remediados: enquanto elas se espelhavam na Madonna e suas polainas e começavam a “gostar” dos garotos, nós só queríamos ter um carro igual a Super Máquina e jogar Atari para chegar ao fim do River Raid. Quando então passamos a gostar delas, elas só queriam saber dos caras mais velhos, e assim rivalidade cresceu para além das quadras, chegando aos bailinhos que tinham dança da vassoura e ponche de frutas.

Antes da hora do recreio, saíamos da aula para a merenda, trazida da Cozinha Piloto e servida pela Dona Isabel e pela Dona Maria em pratos de alumínio e canecas de plástico. Achocolatado, sopa de macarrão, sopa de macarrão com caldo de feijão, canjica, pão com salsicha. O cardápio era limitado e talvez sem grande valor nutricional, mas não éramos exigentes.

A escola tinha apenas 8 salas de aula, a cantina, a direção, os banheiros e uma oficina, aonde éramos introduzidos aos ofícios da cerâmica e da madeira. Era um prédio velho e todos os móveis escolares também eram antigos. Durante vários anos estudei em grandes carteiras de madeira e ferro, aonde sentávamos em duplas, e o cheiro daquelas salas ainda sobrevive em um canto qualquer da memória.

A memória, aliás, me prega peças. Recordo de conversar na porta da oficina com o Robson sobre Smells Like Teen Spirit, do Nirvana, mas essa música só foi lançada em 1991, depois que eu já tinha perdido o contato com esse amigo que nunca mais vi.

Pouco depois que me formei na oitava série, em 1989, o Sesi construiu instalações novas com salas e móveis modernos, além de quadras de verdade, piscina e campos de futebol. O prédio em que estudei hoje abriga uma outra escola, mas aquele mundo ficou lá atrás, num outro século, numa vida tão diferente que só existe em fotos de baixa resolução e em lembranças embaralhadas pelo tempo.

 

sesi-14

 

Centro Educacional SESI nº 160

Jacareí, 21 de setembro de 2016

Hoje o dia está nublado.

 

***

Quem Eu Sou e Como Vim a Ser (I)

Quem Eu Sou e Como Vim a Ser (II)

 

 

 

 

 

 

 

jun 092014
 

 

figurinhas ping pong

 

De vez em quando ouço alguém dizer que não vai torcer para o Brasil durante a Copa porque isso beneficiaria a Dilma. Já escutei até que, se ganharmos, vai ser porque o PT comprou o título.

Além de ser uma especulação ridícula, dizer que o resultado da Copa do Mundo influencia no resultado das eleições é papo-furado que não tem sequer fundamento histórico.

Em 98, por exemplo, o Brasil perdeu mas FHC não teve problemas para se reeleger já no primeiro turno. Em 2002 fomos campeões, mas o candidato da situação, José Serra, perdeu para o Lula, que se reelegeu quatro anos depois apesar do vexame na Alemanha. Em 2010 aconteceu outra derrota nos campos, mas a situação fez sua sucessora.

Somente em 94 ocorreu da vitória na Copa coincidir com a vitória do candidato do governo, mas no caso o grande cabo eleitoral não foi o futebol, mas sim o Plano Real.

O Brasil ganhou uma Copa durante a ditadura (1970), perdeu outras quatro (1966, 1974, 1978, 1982) e ainda assim o regime durou mais de 20 anos. Não foi a vitória do time de Pelé, Gerson e Jairzinho que deu sobrevida aos militares, como não foram as derrotas dos outros selecionados que trouxeram de volta a democracia.

É certo que este ano temos como diferencial o fato da competição acontecer aqui no nosso país, pelo que é possível que as eleições sofram reflexos de eventuais problemas na organização. Os governos (federal, estaduais e municipais) podem ter suas imagens arranhadas se o desenrolar da Copa for comprometido pelos atrasos das obras e confusões administrativas.

Mas será o extra-campo que poderá servir como parâmetro de avaliação pelo eleitorado, e não o que acontecerá com o time do Felipão, por isso vou torcer pelo Brasil como fiz em todas as Copas desde 1982, a primeira da qual tenho lembranças.

E  espero, é claro, para que tudo dê certo. Isso não significa que estou de acordo com os gastos realizados, ou que o importante é fazer bonito para os gringos que virão assistir aos jogos. Entendo que muita coisa errada foi feita e que é preciso tomar as providências para cobrar as responsabilidades judiciais e eleitorais daqueles que se aproveitaram indevidamente do momento, mas  torcer para que as coisas se compliquem é coisa de gente pequena.

O “quanto pior, melhor” é burrice, e eu não sou nem burro, nem alienado. Sou apenas um cara que gosta de futebol  e que não misturo o meu divertimento com o meu voto.

 

.