abr 262017
 

 

 

Das três companheiras de caminhada, Pérola era a mais falante. Desinibida por natureza, fazia a alegria de Ágata, que muito ouvia e pouco se manifestava, e de Safira, que estava sempre um passo atrás, tanto no trajeto quanto na conversa.

Pérola contava suas histórias, sobre a própria vida e sobre vidas alheias, com exageros e trejeitos que deixavam tudo mais divertido. Ágata sorria de forma discreta, e às vezes olhava de soslaio quando a narrativa ganhava tons inacreditáveis. Já Safira de tudo ria desbragadamente, mesmo quando não entendia muito bem qual era graça. Às vezes, aliás, era na sua própria lentidão para perceber as coisas que estava o mais engraçado de tudo.

As amigas caminhavam quase todos os dias bem cedo, cerca de cinquenta minutos, o que correspondia a uma volta completa em torno da lagoa. Estavam firmes na intenção comum de perder peso e ganhar saúde, objetivo esse que era rotineiramente sabotado pelos exageros cometidos na hora do almoço.

Naquele dia, no final do verão, uma nova colega se juntou ao grupo. Esmeralda já era conhecida, também queria entrar em forma, e foi recebida sem qualquer objeção.

Além de ser uma nova companhia, Esmeralda era o pretexto perfeito para Pérola fazer as duas coisas que mais gostava: recontar suas histórias e exibir Alfonso, seu namorado. Em vez de caminharem pela lagoa, Pérola sugeriu então que fizessem outro caminho, dando a oportunidade de mostrar às amigas a bela casa em que ele morava.

Como costuma acontecer nessas situações, porém, algo deu errado.

Logo após ter apontado para a grande casa azul, Pérola e suas companheiras viram a porta se abrir. Ao invés de Alfonso, quem saiu foi uma bela mulher loira, não muito alta, mas de corpo esguio e bem torneado.

Pérola tentou disfarçar e continuar a caminhada normalmente, mas em pouco tempo suas galhofas se tornaram mais raras, até sumirem totalmente. Ágata, que quase não falava, emudeceu de vez. Esmeralda ficou tão constrangida que teve vontade de ir para casa. E Safira só quebrou o silêncio quando pediu para as amigas andarem mais devagar.

Mais do que a traição, o que doía era a vergonha das companheiras terem presenciado a cena. Embora já tivesse tido muitas paixões, Pérola nunca chorou de verdade por homem nenhum, e Alfonso tampouco seria um alguém que valesse mais que duas noites de fossa. Todavia, ela via nele virtudes que compensavam o compromisso e estava entusiasmada com o que ele proporcionava.

O flagrante, porém, exigia uma atitude. Algo deveria ser feito para remediar aquela situação tão constrangedora. Talvez uma vingança. Talvez um escândalo. Talvez uma sova. Talvez tudo isso e algo mais a se pensar.

Pérola ponderou muito, e ao final adotou a solução que lhe pareceu mais prática: em vez de mudar de namorado, mudou de esporte. Deixou as companheiras de caminhada e começou a fazer hidroginástica. Afinal, aquela moça poderia ser uma prima de Afonso, por que não? E certamente seria mais trabalhoso arranjar um novo namorado do que novas amigas na piscina…

No final das contas, tudo se acertou. Esmeralda se firmou nas caminhadas, e assim se manteve como trio o grupo de amigas que se exercitava de manhã em volta da lagoa. Embora Pérola tenha dado algumas desculpas, elas guardavam certo ressentimento da colega pois era óbvio o verdadeiro motivo do afastamento.

Óbvio exceto para Safira, pois essa até hoje não entendeu nada do que se passou.

 

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