mar 072017
 

Jonas acordou num sobressalto.

Estava caindo de altura incomensurável, por um tempo infinito, até que despertou de súbito. Apesar de uma sensação incômoda, a rotina lhe era tão dominante que quando se deu conta já estava na rua, correndo para chegar ao metrô; para chegar ao trabalho; para passar o dia enclausurado; para voltar tarde; para dormir mal; e para acordar incomodado novamente na manhã seguinte.

O céu estava limpo e o clima era agradável, mas Jonas não percebia nada a sua volta. As pessoas passavam e ele não via, não notava. A única coisa que chamou sua atenção foi um zumbido no ouvido que começou repentinamente.

A princípio, ele achou que era do mal-estar que sentia, mas o barulho aumentava cada vez mais, fazendo que procurasse a origem do som até que visse nos céus a cena mais impressionante: centenas de aviões se aproximavam. Não, recalculou ele, talvez fossem milhares. Era uma quantidade absurda de aeronaves voando em formação.

Quando as primeiras passaram por sobre sua cabeça, em uma altura tão baixa que era possível ver claramente as pinturas na fuselagem, a surpresa deu lugar ao terror: eram antigos aviões de guerra de modelos e marcações variados.

Em um instante Jonas se deu conta do absurdo da situação, mas logo em seguida as bombas começaram a zunir nos céus enquanto caíam lentamente sobre a cidade.

Milhares de aviões, de repente, soltavam milhões de bombas.  E Jonas estava bem no centro de tudo.

O barulho foi tanto que de repente sumiu completamente – a cacofonia era ensurdecedora. A terra tremeu a ponto de jogar tudo o que estava sobre o solo para o alto. O céu escureceu e tornou-se negro de fumaça e poeira.

No meio do caos absoluto, o silêncio e a escuridão.

Jonas esteve no ar, caiu no chão, e foi jogado para cima novamente. Foram tantas e tantas vezes que pareceu ser algo interminável. E durante o tempo todo Jonas esteve consciente, sentindo e repetindo em todas as vezes as dores e agonia de cada impacto.

Quando as explosões cessaram, não havia nada em pé sobre a terra. Fogo, fumaça e pó era o que se via por todo lado.

Não era mais possível reconhecer ruas ou prédios naqueles escombros. Montanhas de entulho bloqueavam a vista para o horizonte e o céu sumira graças à fumaça. E não havia mais ninguém em lugar algum. Jonas era o único que restara.

Ele vagou sem destino por muito tempo até que se deu conta de que tudo era tão irreal que só poderia ser um sonho. Pensou então em acordar, mas nada ocorreu. Beliscou o próprio braço, mas sem resultado.

“Se não estou sonhando, só posso estar morto” – pensou ele – “Ninguém poderia sobreviver àquilo”.

Enquanto filosofava sobre a própria mortalidade algo vibrou no seu bolso. Era o celular que carregava sempre consigo. Talvez fosse o alarme que o despertaria de vez e o tiraria daquele inferno, imaginou, mas ao olhar para a tela viu que se tratava de uma chamada de um número desconhecido.

Ter o aparelho funcionando naquele caos era apenas mais uma entre tantas coisas impossíveis que se sucediam, então atender a chamada era a única atitude sensata a ser tomada. A voz do outro lado foi lacônica:

– Olhe para sua esquerda, ache o toco de árvore e siga no seu sentido até encontrar.

Jonas viu o toco, seguiu na sua direção e foi adiante. Caminhou por um tempo incalculável pelo cenário desolado e enxergou ao longe um prédio alto, aparentemente intacto, única edificação visível em um raio de quilômetros.

O prédio era conhecido. Tratava-se da sede do Tribunal Trabalhista, local em que Jonas já estivera algumas vezes. Era uma edificação grandiosa, reconhecível pela sua suntuosidade e pelos seus corredores vazados.

Para surpresa de Jonas, um trecho da avenida de acesso ao prédio estava também intacto. E repousavam no final daquela via, logo na entrada do edifício, dois aviões iguais aos que atacaram a cidade. Era possível ver que no mais distante estava um piloto; a cabine da aeronave mais próxima estava vazia.

O piloto fez um sinal, deu partida no motor e seguiu pela pista da avenida até tomar os ares novamente. Jonas seguiu até o avião vazio, entrou na cabine com dificuldade e ajeitou-se perante os instrumentos que lhe pareceram simples e familiares. Ligou o motor, taxiou a aeronave e também percorreu a avenida para decolar suavemente.

Antes de seguir o caminho do avião que decolou primeiro, Jonas deu uma volta no prédio do Tribunal, uma torre que agora se tornara magnífica no meio de toda destruição que ia além do horizonte. Ao passar bem próximo da edificação, foi possível ver que havia pessoas lá dentro, aparentemente iguais a ele.

Jonas fez o avião subir e rumou para o oeste. Primeiro avistou a aeronave que havia lhe esperado, depois, viu a gigantesca esquadrilha que sobrevoara a cidade. Na formação, dois espaços estavam vagos, e o piloto à sua frente rumou para se encaixar em um deles. Jonas então seguiu para o outro, certo de que aquele ali seria o seu lugar para sempre.

 

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