abr 042012
 

 

 

A velha senhora ia à feira-livre como fazia em todas as quartas-feiras. Ela acordou bem cedo para fugir do calor e não tomou seu café da manhã para comer seu sagrado pastel de queijo com guaraná – uma ofensa semanal à sua rigorosa dieta que lhe trazia mais benefícios do que todos os remédios que era obrigada a tomar.

Ao atravessar a ponte ela pensava no cadeado do portão, tentando lembrar se o trancara devidamente. Também estava em dúvida se fechou o gás do fogão e se desligou o ferro de passar roupa. Sua mente estava tão distante que tomou um grande susto ao ver o homem sentado no gradil, de frente para o trânsito e com as costas viradas para o rio.

Seu coração disparou e ela tentou falar para o homem descer dali porque era muito perigoso, mas o olhar dele estava tão distante que não conseguiu dizer nada.

***

Já havia uma aglomeração olhando para o homem sentado no gradil quando o carro da polícia chegou. Enquanto um dos policiais afastava as pessoas para garantir a segurança, o outro foi lentamente em direção do causador do tumulto.

Alguns transeuntes já haviam tentado conversar com o homem, mas ele se mantivera impassível, como se sua mente não estivesse ali. O sargento, policial com muitos anos de experiência, chamou pelo sujeito rapaz com a voz mais gentil possível, mas não teve resposta. Deu então alguns passos em direção ao gradil mas parou quando o homem virou o rosto e olhou fixamente para o militar, saindo bruscamente de seu aparente transe para adotar uma postura defensiva

***

A ponte ficou cheia de curiosos. As pessoas que iam ao trabalho ou à feira-livre esqueceram de seus compromissos para acompanhar o drama do homem na ponte. As crianças que estavam a caminho da escola eram as mais excitadas, e algumas começaram um coro de “pula, pula, pula” até serem repreendidas pelos adultos.

As capivaras que tomavam sol à margem do rio continuavam alheias ao que ocorria alguns metros acima.

***

Os bombeiros chegaram preparados para o resgate. Antes de alguma ação mais brusca, entretanto, tomaram medidas efetivas para estabelecer contato com o homem, que até aquele momento não havia dito palavra alguma. Profissionais treinados para momentos de crise, aproximaram-se com cuidado e firmeza, ainda que o homem mantivesse seu olhar desafiador a cada passo dado.

Perguntaram seu nome, de onde ele era, qual o motivo que o levara até ali. Disseram que tudo poderia ser resolvido, qualquer que fosse o problema, e que eles estavam ali para ajudar. Apesar dos esforços, ele nada respondeu, e enquanto os homens em cima da ponte buscavam ganhar a confiança do sujeito, outros colocavam no rio um bote e se preparavam para o caso dele cair na água.

***

Alguns têm certeza que ele perdeu o equilíbrio, outros acham que ele simplesmente se jogou, mas há consenso de que todos gritaram quando o homem pendeu para trás. Os bombeiros e policiais ainda tentaram agarrá-lo, contudo só puderam observar o corpo caindo de costas no rio, numa cena que pareceu em câmera lenta para os que a presenciaram.

Os mergulhadores que aguardavam no bote pularam imediatamente na água e procuraram exaustivamente pelo homem, mas nada encontraram. Depois de alguns dias de busca os profissionais deram por terminados os trabalhos sem ter encontrado corpo algum.

***

Dizem que em todo 4 de abril, entre as pontes Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora da Conceição, é possível ver um boto subindo e descendo o Rio Paraíba do Sul, sem saber para onde ir.

Nunca acreditei nessa história, mas não deixo de ir todo ano até o gradil, à procura de um sinal.

 

  One Response to “Lenda urbana”

  1. […] A primeira Lenda Urbana você encontra aqui. […]

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