nov 192015
 

 

 

Tijolos

 

 

O advogado recebeu o telefonema tarde da noite e se dirigiu para a delegacia:

– Boa noite, Dr. Coimbra. O que está acontecendo?

– Boa noite. Dr. Gregório! Pode ser algo grave, então resolvi chamá-lo com urgência. Eu cheguei agora à pouco e encontrei o suspeito dentro da carceragem, com a roupa encharcada de água e o algo que parece ser sangue. Ele disse que tem algo para contar, mas que só falaria se o senhor viesse representá-lo.

– Qual o nome dele, doutor?

– Ele não disse. Só ficou repetindo que queria a sua presença. Eu não estava aqui quando o prenderam, e o único escrivão do plantão saiu para lanchar sem me falar nada.

– Deixe-me então conversar com esse meu cliente misterioso. Peço apenas que nos deixe a sós.

O delegado apontou o já conhecido caminho entre pilhas de inquéritos, antigos móveis de madeira e computadores de gerações passadas. Nos fundos do imóvel havia uma pequena sala fechada com grades de aço. O homem lá dentro esperava sentado em um banco de alvenaria, com a cabeça abaixada, e se levantou enquanto o advogado dizia:

– Boa noite! Sou eu, Gregório, advogado, em que… Você!?

– Boa noite, Gregório. Finalmente nos falamos.

O advogado não esperava encontrar aquele homem, muito menos naquele estado, com a roupa e os cabelos molhados e a camisa suja de sangue e barro.

– O que aconteceu? Por que você me chamou aqui?

– Conheço a sua fama, doutor. Aliás, as suas famas… E pelo que vejo, sabe também quem sou eu.

– Claro que sei quem você é!

– O importante é que eu preciso dos seus conhecimentos, e eu sei que pode ajudar.

– O que você fez?

– Enquanto não chegava eu estava aqui pensando justamente em tudo o que fiz na vida. Me lembrei de quando era pequeno e caçava passarinhos pelas estradas de terra. Era tudo tão mais simples quando eu era criança… Eu tinha uma mira boa, acertava aqueles passarinhos com minha espingardinha de chumbo até que um dia comecei a ter remorso e passei a errar tiros fáceis.

– Do que você está falando?

– Estou falando que o remorso atrapalhou a minha mira, doutor. Mas acho que falar de remorso é algo estranho para um advogado… Ainda mais para você…

– Cadê a Amélia?

– Sabia que iria perguntar dela… Sei de muitas coisas, na verdade… Sei que você nunca parou de pensar nela, não é mesmo?

– O que fez com a Amélia?

– Eu a amo, sabia? Mesmo agora. Mesmo depois de tudo. Eu era louco por ela.

– Eu sei que você é um desequilibrado!

– Deve doer então que ela tenha me escolhido, não é?

O advogado respirou profundamente antes de continuar a conversa:

– Cadê a Amélia?

– A Amélia mudou, sabia? Coincidentemente, isso aconteceu depois que você voltou para a cidade. As pessoas não enxergam, mas eu sei que nem tudo fica do mesmo jeito para sempre. Ninguém se dá conta que o tijolo, antes de ser tijolo, era barro.

– Que merda é essa que você está falando?

O advogado se aproximou da grade, mas o suspeito não se moveu e disse com os dentes cerrados:

– Eu sempre te odiei!

– Você ficou com Amélia. Vocês se casaram. Por que então que me odeia, eu que deveria…

– Sim, eu me casei com ela, ela me escolheu… Mas porque VOCÊ não quis! Porque você não teve coragem de largar tudo pra ficar com ela, como EU fiz!

– Eu não te devo explicações.

– Você é um filho da puta, doutor. Tão filho da puta que fez ela continuar a pensar em você mesmo estando comigo esses anos todos.

– Eu não fiz nada, você que é doente!

– Sou, é? Pois eu sei que vocês se falavam! Então confesse! Confesse que você se encontrou com ela! Confesse que vocês estavam saindo! DIGA QUE ELA ESTAVA ME TRAINDO COM VOCÊ!

– Eu não vou dizer nada disso, seu doente desgraçado! Você quer o quê, que eu justifique seus atos? Eu não tenho nada para tratar contigo, seu demente! Vou chamar o delegado aqui e você que se acerte com ele!

– Não! Não! Eu preciso de você! Eu nunca imaginei que iria parar no fundo do poço, muito menos que você iria me ajudar a sair, mas tem que ser você!

– Você a matou, seu filho da puta? Você matou Amélia?

– Eu ainda a amo, e tudo o que fiz até então foi por esse sentimento. E agora que não tenho mais salvação, o que sinto é tão forte que me faz chamar o velho amor para ajudá-la…

O homem encarcerado abaixou a cabeça novamente:

– De tudo o que senti… De toda a paixão, de todo ódio, ciúme, remorso… Tudo o que ficou foi confusão… E a ironia de juntá-los novamente…

– Cadê ela, porra? Diga aonde ela está!

– Dizem que você é inteligente, Gregório. Que é perspicaz. Eu já dei todas as dicas de onde encontrá-la. Você tem que fazer a sua parte também.

– Dicas? Que dicas? Você ficou falando um monte de bobagens sobre passarinhos e…

O advogado parou e pensou nas palavras que o suspeito dissera, e então saiu correndo pela delegacia. O delegado estava na calçada fumando, e ele se assustou ao ver Gregório tão afobado, chamando-o para ir ao carro:

– Vamos, vamos, rápido, ela está em perigo!

– Mas que porra…

– Eu te explico no caminho, vamos rápido, talvez possamos salvá-la!

O delegado entrou correndo na delegacia, pegou as chaves da viatura e ao sair deu de cara com o escrivão, que voltava da pausa para o lanche.

– Homero, entre em contato com o resto de pessoal e coloque-os em alerta. Eu vou dar mais notícias pelo rádio do carro. Não deixe o preso da carceragem sair de jeito nenhum!

– Mas que pr…

Não foi possível ouvir a pergunta do escrivão, o delegado já estava entrando no carro e saindo em disparada antes que a frase terminasse. Com o giroflex ligado, a viatura correu pelas ruas da pequena cidade chamando a atenção dos poucos que transitavam àquela hora. Em instantes, já tinha se distanciado do centro e tomado a via de terra conhecida como Estrada dos Pássaros, em direção à velha olaria.

A porteira estava aberta e o carro entrou sacolejando, até parar próximo a um automóvel parado ao lado de um barracão abandonado. Os faróis da viatura iluminavam um poço, a cerca de trinta metros de distância, e havia alguém sentado na borda.

Gregório parou de correr quando viu Amélia. Ela estava chorando, nas mãos havia uma arma:

– Eu não queria, ele que tentou… Eu lutei…

O choro ficou mais forte e ela parou de falar ao abraçar o velho conhecido.

O delegado usou uma lanterna para procurar pelos arredores, até que chegou no poço. Ao ver o corpo do homem mergulhado na água, sentiu um frio na espinha.

Aquela seria a ocorrência mais difícil para relatar em toda sua carreira.

 

.

  One Response to “O suspeito”

  1. Ghost?…

 Leave a Reply

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

(required)

(required)

Loading Facebook Comments ...

Warning: require_once(/home/rebostej/public_html/wp-content/plugins/gplus-comments/includes/templates/partials/.php) [function.require-once]: failed to open stream: No such file or directory in /home/rebostej/public_html/wp-content/plugins/gplus-comments/includes/templates/container.php on line 103

Fatal error: require_once() [function.require]: Failed opening required '/home/rebostej/public_html/wp-content/plugins/gplus-comments/includes/templates/partials/.php' (include_path='.:/usr/lib/php:/usr/local/lib/php') in /home/rebostej/public_html/wp-content/plugins/gplus-comments/includes/templates/container.php on line 103