jun 122015
 

 

flores

 

 

A declaração de amor fora de hora é um dos grandes clichês da dramaturgia. Os seriados americanos, principalmente os de comédia, sempre têm um episódio em que uma das partes do casal recém-formado diz “eu te amo”, e a outra responde sem jeito com um “obrigado” – um desencontro que serve de partida para piadas sobre o constrangimento de quem se revelou e a insegurança de quem não conseguiu responder com um mísero “eu também”.

Gabriel era conhecedor do chavão, mas não era uma declaração apressada que o martirizava. Ele expressou seu amor e o que escutou de volta foi um “não diga isso”. Gabriel esperara muito, e sua revelação fora tardia demais. Ela já tinha encontrado um outro alguém, e a declaração desencontrada acabou por não ter graça nenhuma.

A tristeza que se abateu sobre o jovem médico foi tanta que ele decidiu mudar de ares. Se juntou a um grupo de idealistas e saiu pelo Brasil afora, tratando de doentes nos rincões mais isolados do país. Alguns amigos elogiavam seu altruísmo, outros condenavam o fato dele desistir de uma promissora carreira na cidade grande, mas na verdade ninguém sabia que ele passara a acreditar que o amor era o que sobrava do choque entre as expectativas e a realidade, pelo que refugiar-se em lugares de possibilidades próximas a zero parecia ser a saída perfeita para não criar novas ilusões.

Foi numa dessas campanhas que ele conheceu aquela moça. Ela chegou reclamando de febre e dores pelo corpo, mas mesmo adoecida era uma mulher encantadora. Gabriel teve que se esforçar para se manter como apenas médico enquanto a consultava.

– Qual o seu nome? – perguntou ele.

– Clamídia – respondeu ela.

– Como?

– Clamídia, doutor. Como a flor!

Seu Florentino, o pai da moça, era uma pessoa muito boa, mas sem nenhuma cultura ou instrução. Quando Firmina, sua esposa, foi levada às pressas para dar à luz no hospital da cidade vizinha ele ouviu as enfermeiras falando sobre clamídia e achou que aquele fosse o nome da flor que adornava o quarto aonde sua mulher estava internada.  Como ela não sobreviveu, Florentino quis homenageá-la dando à filha o suposto nome da flor do cômodo aonde Firmina passou seus últimos dias.

Para azar da criança, a ignorância era um mal endêmico daquelas paragens, por isso ninguém nunca esclareceu que ela na verdade tinha o nome de uma doença venérea.

Apesar de ter estranhado, Gabriel tratou da moça com especial cuidado e poucos dias depois ela retornou, já bem melhor. E eles voltaram a se encontrar em outras oportunidades, tendo o pretexto do interesse médico sido substituído pela vontade cada vez mais forte de se verem.

A questão do nome, todavia, incomodava Gabriel. Parecia ser errado que ele, um médico formado por uma das mais importantes faculdades do país, não esclarecesse Clamídia do equívoco cometido pelo pai. Ao mesmo tempo, nem conseguia imaginar quanta tristeza aquela poderia informação causar.

Sua inquietação aumentava na medida em que seus sentimentos por ela também cresciam. Sentia-se inseguro por não saber o que dizer, por não saber como poderia se expressar da forma e na hora corretas.

Foi numa tarde de setembro, quando caminhavam pela praça e conversavam sobre a primavera que chegava, que Clamídia perguntou a Gabriel se ele já tinha visto a flor da qual seu pai emprestou o nome. O médico, sem titubear, respondeu que sim, que era a flor mais bela de todas, e que ela tinha mesmo o poder de transformar o mundo em volta daqueles que a conheciam.

Ambos sorriram. Ela, contente pela resposta que recebeu,  e ele, por compreender que existem outras formas de dizer “eu te amo” que independem do momento ou do jeito tido como certos.

 

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