ago 222014
 

 

braveheart 2

 

Como os exércitos medievais, as duas torcidas estavam paradas frente a frente, separadas por uma centena de metros, esperando o momento do confronto. Armados de paus, pedras e bombas caseiras, os torcedores aguardavam a ordem dos líderes, que se aproximaram para um último diálogo:

– Mano, é melhor ocês dexá a rua pa nóis. Dá a volta e sai na boa.

– Cê tá me tirando? É melhor ocês saí de fininho, que agente vamo passá.

– Truta, é o seguinte, nóis que vamo reto e ocêis vão abri o caminho, tá ligado?

– Deixa de sê loki e sai de banda, senão vamo tê que tirá oceis da frente, véio.

– Neguinho, cês são folgado. Tô vendo que vão precisá aprendê uma lição hoje…

– Não adianta ficá com conversinha não que nóis num tem sangue de banana!

– Sangue de banana?

– Sangue de banana, véio! Num tá ligado?

– Nunca ouvi falá de sangue de banana!

– É uma jeito de falá, uma expressão, que significa que a pessoa não tem sangue frio. “Num tenho sangue de banana porque num aceito desaforo”, tá ligado?

– Eu tô ligado na  expressão, mas num é assim que fala! É sangue de batata. “Num tenho sangue de batata por isso num fico quieto”, entendeu?

– Cê tá zoado? Nada a ver sangue de batata! Batata nem tem sangue!

– E banana tem?

– Vixi, véio, danou-se. Banana tamém não tem sangue não…

Um torcedor que tem cara de bandido de filme de faroeste gritou do meio da turba:

– E aí, maluco, vai ter o quebra ou num vai? – e bateu com um taco de beisebol a palma da mão esquerda.

– Segura a onda aí, chegado, que nós tá num impasse aqui! – respondeu o líder antes de perguntar ao seu rival:

– Mas e aí, truta, é sangue de batata ou sangue de banana?

– Cara, eu tinha certeza que era sangue de banana, mas depois que ocê falou já num tenho certeza.

– A língua portuguesa é complicada, né não, véio? Mas acho que isso é fruto da diversidade cultural do povo, que faz surgir expressões idiomáticas cujos significados variam de acordo com a região, tá ligado?

– Cê tá certo, véio. As expressões surgem do contato direto com a língua, na socialização dos indivíduos, certo? É necessário observar o contexto do uso para se obter o significado de cada expressão, com os valores nela expressos.

– Só!

– Só!

Nesse momento chegou a polícia militar, que veio para intervir no conflito. Montado em seu cavalo, o oficial comandante foi até os líderes e disse:

– Ei, vocês, vamos dispersar! Não quero quebra-quebra aqui hoje não! Não vai ter briga  nenhuma aqui!

– Autoridade, fica tranquilo que nóis tá de boa. Acho até que já perdi a vontade de entretá hoje, cê me desculpa mano – disse isso para o seu rival.

– Fica sussa. Tamém perdi a vontade de socá os nego. Essa história do sangue aí me deixô encafifado.

– Sangue? Que sangue? – perguntou o policial.

– É que nóis ficôu aqui discutindo se o certo é falá sangue de batata ou sangue de banana, senhor, e num chegamo nos finalmente. Nóis ficô nesse impasse aí e até perdemo o tesão de brigá, me desculpe a expressão, senhor.

– Você dois estão errados. A expressão correta é sangue de barata!

– Eita, autoridade, tem certeza que é sangue de barata, senhor?

– Absoluta.

– Oxi, quem diria que é barata! Até faz sentido, que barata tem sangue! – disse o torcedor ao seu rival.

– Pois é, véio. Sangue de barata é mais manero até de falá!

– Aí,  zé ruela, fica ocê então sabendo que nóis não tem sangue de barata!

– Então, cozido, ocê fica também sabendo que nóis tamém não tem sangue de barata!

– Num tem mesmo? Então pega nóis, mardito!

– É fácil, maluco, cai dentro, desgraçado!

E naquele momento começou uma das maiores brigas já vistas entre duas torcidas e a polícia, e que teve como  única vítima inocente a coitada da  língua portuguesa.

 –

 

 

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