jun 172013
 

 

No começo dos anos 90, quando eu estava no ensino médio, cheguei a participar de atos pelo transporte público gratuito para os estudantes de Jacareí. O movimento durou pouco, mas lembro de uma grande passeata que saiu da Praça Conde de Frontin e deu a volta na cidade. Quando chegamos na Praça dos Três Poderes aconteceram vários discursos, e até o Senador Suplicy apareceu para dar seu apoio e falar sobre seu programa de renda mínima.

Foi o primeiro movimento político de que de certa forma fiz parte, e a manifestação foi um grande evento: teve palavras de ordem, cantos, cartazes, bandeiras e até paquera. Tudo foi muito tranquilo e a polícia acompanhou sem incomodar.

No dia seguinte, porém, a notícia que virou manchete não foram os centenas de milhares de estudantes que reclamavam pela cidade, mas sim uma banca de jornais que teria sido vandalizada durante a passeata. Eu nem vi o ocorrido, mas por culpa de uma meia dúzia de manés  todo o movimento foi taxado de desordeiro e criminoso.

A reinvidicação feita em São Paulo de transporte gratuito para todos não é, portanto,  uma novidade, embora seja mais ampla (e irreal) do que o pedido de passe livre para estudantes que fizemos em Jacareí. Mas não acredite que é só por isso que as pessoas estão reclamando – tampouco é pelos R$ 0,20 de aumento das passagens. Existe algo a mais no ar.

O interessante é que no começo da semana quase toda a opinião pública era contra a “arruaça” que era mostrada na tv (pois a manifestação era apresentada como se fosse somente isso), mas a reação da PM na última quinta-feira foi tão desproporcional e covarde que a população começou a simpatizar com aqueles que estão nas ruas. Também ajudou a mudar o tom das reportagens sobre assunto o fato da polícia ter atacado jornalistas, e a forte repressão aos protestos próximos aos jogos da Copa das Confederações possivelmente dará mais força ao movimento.

Protestar é saudável e necessário para uma sociedade, e é muito bom que tenhamos pessoas dispostas a lutar por suas causas, embora não devamos romantizar e achar que todos os que estão nas ruas são heróis. Muitos que estão ali são incapazes de dialogar porque sonham que estão começando a revolução que derrotará o capitalismo e a terminará na tomada do poder pelo proletariado camponês, e outros tantos querem apenas ver o circo pegar fogo. Todavia, ainda assim acredito que a maioria vai legitimamente para protestar pelo que acha certo.

Seja como for, não é permitido a um Estado Democrático que qualquer movimento seja sufocado por cassetete, bomba e bala de borracha, seja qual for a bandeira levantada.

As manifestações causam algum incômodo? Certamente, mas se não fosse assim não seriam notadas. Faz parte de jogo.

As depredações têm que ser evitadas ? Claro, mas sem o abuso da força.

O único jeito de não causar transtorno, de fazer tudo mansa e pacificamente, é continuar a tentar mudar o mundo teclando “verdades” pela internet. Acho, porém, que é um método pouco produtivo.

E como alguém lembrou, se não fossem os radicais a Bastilha estaria aí até hoje…

 

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  2 Responses to “Protejam os radicais livres”

  1. Wagner.

    Não sei se estou entendo mal essas manifestações, mas a impressão que tenho e que a manifestação do saco cheio, as pessoas não aguentam mais determinadas situações e estão indo pra ruas apresentarem as mais diversas e variadas reinvidicações. O que eu acho interessante e estranho é isso: as reclamações de uns não são as reclamações de outros, fora que as vezes os protestos chegam a ser contraditórios entre si, Não tenho a menor idéia de onde isso vai dar. Abraços. Leo.

    • Léo, ninguém está entendendo nada dessas manifestações. Acho que a maioria que está indo pras ruas agora nem sabe o motivo pelo qual saiu de casa. O problema é que quem reclama de tudo, na verdade não reclama de nada.
      Ou não…

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