jan 212012
 

 

O rapaz de olhos verdes esperava na sala há algum tempo, e cada vez ficava mais injuriado. Na mesa à sua frente havia apenas um cálice, que ele afastou com uma das mãos para não derrubar, e uma folha de papel na qual estavam escritos vários nomes de mulheres: Carolina, Yolanda, Joana, Bárbara… Antes que ele terminasse de ler, contudo, El Gigio entrou e foi logo se desculpando pelo atraso:

– Mil perdões! Sai pela cidade para olhar as vitrines e perdi a hora vendo a banda passar… Estava tão bonito que quando ela foi embora parece que levou um pedaço de mim… Mas diga-me, Julinho, o que você precisa?

– Não, eu não sou Julinho, meu nome é…

– Não é Julinho ainda. – interrompeu o vidente.

O rapaz não entendeu, mas decidiu ir direto ao assunto:

– É que eu sou universitário, faço arquitetura, mas estou pensando em largar tudo pra ser jogador de futebol. Não sei o que fazer! Eu sou bom de bola, mas largar a faculdade… Estou tão confuso… Estou me sentindo… Como posso dizer?

– Como quem partiu ou morreu.

– Isso! Eu sempre fui muito seguro, sempre tive muita certeza do que fazer, mas agora estou perdido. Estou com tantas dúvidas que se tiver mais uma…

– Pode ser a gota d’água.

– Isso!

– Pois é, vejo que você desatinou, mas não se afobe não que nada é pra já. Isso vai passar e amanhã há de se outro dia.

– Espero que passe, El Gigio, mas o que eu faço?

O vidente levantou-se e ofereceu ao jovem um calmante. Pegou no armário um excitante, que tomou com um copo de gim, e pôs na cabeça a faixa branca com olho desenhado que estava atrás da porta. Sentou-novamente, passou a mão na testa e falou:

– Terceiro olho, quero ver o que você diz.

Houve um silêncio que pareceu durar horas, até que El Gigio voltou a falar:

– Escute. Para furar esse filó como você sonha, só se fosse o Rei. Por outro lado… Não, também não vejo você numa construção planejando tijolo por tijolo, num desenho mágico.

– Mas El Gigio! Isso me faz entender que meu futuro não está nem no futebol, nem arquitetura! O que será de mim então?

– Calma, meu guri! Se dizem que Deus dá, Deus dará.

O rapaz então mirou o olho desenhado na faixa e percebeu que ele estava verde, mais verde do que os olhos dele próprio. De repente sua cabeça pareceu fervilhar e aquele momento transformou a sua vida:

– El Gigio, você me deu umas ideias… Tome, esse é quase todo dinheiro que eu tenho! O que me sobrou vou investir num violão! Muito obrigado mesmo!

– Deus lhe pague! Quem te viu, quem te vê, hein! Mas não precisa agradecer, meu caro amigo!

E então o jovem Francisco saiu, batendo o portão sem fazer alarde, tão aliviado que se pegou cantando, sem mais nem por quê.

 

 Leave a Reply

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

(required)

(required)

Loading Facebook Comments ...

Warning: require_once(/home/rebostej/public_html/wp-content/plugins/gplus-comments/includes/templates/partials/.php) [function.require-once]: failed to open stream: No such file or directory in /home/rebostej/public_html/wp-content/plugins/gplus-comments/includes/templates/container.php on line 103

Fatal error: require_once() [function.require]: Failed opening required '/home/rebostej/public_html/wp-content/plugins/gplus-comments/includes/templates/partials/.php' (include_path='.:/usr/lib/php:/usr/local/lib/php') in /home/rebostej/public_html/wp-content/plugins/gplus-comments/includes/templates/container.php on line 103