fev 132013
 

 

lei de gerson

 

Alguns pais não têm idéia do que estão fazendo com os filhos quando escolhem seus nomes. O caso do pobre Jerson é exemplar e merece ser lembrado.

A vida inteira ele teve que explicar e corrigir os outros que insistiam em escrever seu nome do jeito usual.  “É com jota, e não com gê”, disse ele praticamente todos os dias de sua vida desde que aprendeu a escrever.

Talvez o pai pudesse ter impedido aquela extravagância ortográfica, mas como Jerson nunca sou soube quem foi seu progenitor, jamais pôde reclamar. A culpa daquele nome simples mas de grafia diferente deveria ser atribuída apenas à mãe, que se justificava: “Gerson tem um monte por aí, agora, Jerson, com jota, é um só. Meu filho é único e exclusivo, e um dia o mundo inteiro vai saber que ele é especial”.

Possivelmente a Dona Maria pensasse assim por ter ela um nome muito comum, mas é inegável que ela tinha grandes sonhos para o seu único filho. Ela fez muitos sacrifícios para que o menino tivesse bons estudos e fosse alguém na vida, e morreu acreditando que ele estava no caminho certo.

Mas a verdade é que Jerson nunca correspondeu plenamente às expectativas.

Veja bem, não estou falando mal do rapaz, que sempre foi muito abnegado a tudo o que fez. Quando moleque estudava com dedicação e esforçava-se mais do que todos os outros nos campos de pelada (como todos os garotos, ele sonhava ser diferente dentro dos gramados), mas nunca passou disso: um estudante esforçado e um peladeiro dedicado.

Depois que desistiu de ser jogador foi para a faculdade e tornou-se um homem que não poderia ser classificado com o feio, mas que também não poderia ser considerado bonito. Conseguiu um bom emprego e era respeitado pelos colegas, mas não tinha aquele algo a mais para ser um líder.

Jerson era uma boa pessoa, porém, comum, e isso o incomodava. Vivia angustiado por não ter cumprido a profecia de sua mãe, mas a culpa não era dele – as expectativas eram altas demais para um mero jota dar conta. Se para a Lei de Gerson o importante era levar vantagem em tudo, parecia que quem vivia sob a Lei de Jerson era fadado a não levar vantagem alguma.

Numa manhã, todavia, a grande chance de ser conhecido por todos apareceu. Jerson estava indo para o trabalho quando viu uma menina desgarrar da mãe e sair para o meio da rua, ficando indefesa ao ônibus que vinha em sua direção. Ele não vacilou: correu e deu um salto cinematográfico para empurrar a criança e tirá-la da frente do veículo, colocando-a em segurança. Infelizmente ele não conseguiu se safar e foi atingido violentamente.

Uma multidão testemunhou aquele ato e muitas pessoas foram acudí-lo. Um senhor o pôs a cabeça do herói sobre o seu colo e disse que ele era muito corajoso, que havia feito algo que jamais tinha presenciado, e perguntou ao rapaz qual era seu nome:

– É Jerson… – disse ele, num último suspiro antes de morrer.

As imagens do ocorrido foram captadas pela câmera de segurança de um prédio e o país inteiro ficou emocionado com aquelas cenas. Não demorou nada até que o prefeito mandasse homenagear o herói, e naquela esquina hoje é possível encontrar uma placa com os dizeres: “Aqui o nobre cidadão Gerson deu sua vida para salvar uma criança”.

Sim, desafortunadamente o nome na placa está grafado com gê, e não com jota, pois não havia mais ninguém para lembrar que aquele era o Jerson especial.

 

  4 Responses to “A lei de Jerson”

  1. Pois é… Entendo muito bem o que o pobre Jerson (com “jóta”, não “gê”) passou a vida inteira…

    Um grande abraço, caríssimo Wagner (com “dábliu”, não com “vê”)!

    Deste seu amigo, Adauto (com “u”, não com “éle”).

    😀

    • Pois é, amigo Adauto, e eu ainda tenho que explicar que Baccaro tem dois “cês”, não tem acento no primeiro “a” e não é um sobrenome japonês…

  2. Wagner.

    Ontem a noite encanei que o Botafogo teve um jogador chamado Jerson nos anos 80. Bom, não achei nada no google referente a ele, mas em compensação descobri um Jerson que fez um rebuliço no futebol potiguar.
    Abraços.
    Leo.
    PS – pensar que Wagner se escreve com V é normal, afinal existem vários Vagners com V, agora Adalto com L é brincadeira.

    • Léo

      Se o Botafogo teve um Jerson eu não sei, mas sei que teve um Gerson, cujo ápice da carreira foi jogar no São Paulo. Depois ele jogou na Seleção do Tri, mas aí já era um atleta consagrado.
      Quanto ao “Adalto”, não me espanta nada. Se você soubesse quantas vezes tive que explicar que, além de ter o dábliu, o “g” é mudo…

      Vaguiner, digo, Wagner

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