nov 282011
 

 

O casal entra na sala escura e senta-se nas duas cadeiras postas à frente de uma pequena mesa redonda, coberta com uma toalha branca, aonde repousavam uma caneta, poucas folhas de papel e uma caixa de madeira.

Ambos estão ansiosos: ela, para saber sobre o futuro, ele para ir embora o mais rápido possível.

Entra pela porta dos fundos um homem vestido todo de branco,

com cabelos castanhos repartidos ao meio e usando um medalhão dourado com um jacaré em alto-relevo ao centro.

– Boa tarde, amigos, o quê os traz à morada de El Gigio?

– Aff! Se fosse vidente mesmo não precisaria fazer essa pergunta! Vamos Cidinha, vamos embora daqui!

O anfitrião olha serenamente e diz:

– As respostas El Gigio já conhece todas, meu filho, eu quero saber agora é se vocês conhecem as perguntas.

– Viu, Chicão, tomô? Fique quieto e sente aí! O senhor nos desculpe, é que estamos nervosos! Nós estamos com alguns planos e queremos ouvir do senhor se eles vão dar certo.

-Não se preocupe, minha filha, El Gigio está acostumado com a incredulidade.

Chicão sentou-se bravo e ficou quieto. Não queria estar ali e não queria palpite de ninguém. E também não se conformava por ser chamado de “filho” por alguém que parecia ser mais novo do que ele.

El Gigio acomodou-se lentamente na cadeira, pegou a caixa que estava sobre a mesa e tirou de dentro uma faixa branca que amarrou em volta de sua cabeça. Nessa faixa havia um tosco desenho de um olho, feito à caneta e pintado com marca texto amarelo.

– Meus filhos – disse El Gigio – este é aquele que tudo vê. Este é o honorável Terceiro Olho!

– Terceiro Olho? Terceiro olho pra mim é o…

– Calaboca, Chicão! – interrompeu Cidinha – Olha o respeito! El Gigio, o quê o senhor vê?

O vidente olhou fixamente para Chicão antes de fechar os olhos. Depois de alguns segundos, respirou fundo, passou a ponta dos dedos no olho desenhado na faixa, como se estivesse limpando uma lente, e disse:

-Eu vejo que você, minha filha, um dia vai morrer.

-Oh! – surpreendeu-se Cidinha.

-“Oh” por quê? – indignou-se Chicão.

-Shhhhh! Deixe ele terminar! Vai ser logo? Vai demorar?

-O tempo vai ser aquele necessário, nem mais, nem menos. Será contado a partir de agora até o momento final, transcorridos todos os entrementes, os intermédios e as intercorrências naturais e excepcionais que ocorrem no cotidiano, excluídos sempre aqueles outros que sucedem no dia-a-dia, ainda que de noitinha. O tempo sofrerá influência daquilo que é o foco, que é obrigatório, e não o que é supérfluo, sendo que o que é supérfluo não deve ser focado, ou desfocado, na mesma medida ou desmedida daquilo que é obrigatório. Ou não.

– Ah, entendi! – disse ela, pensativa.

– Entendeu?!? – disse ele, surpreso.

-Entendi sim… supérfluo… – disse ela em voz baixa, mas olhando firmemente para ele.

Cidinha se levanta, põe um dinheiro debaixo da caixa de madeira sobre a mesa e sai apressando Chicão, dizendo que precisam ter uma conversa. Ela estava muito satisfeita com a consulta, sua serenidade era completamente diferente do nervosismo da chegada.

Chicão, por sua vez, estava completamente desorientado, mais ansioso do que antes da consulta. Pensou em dizer alguns palavrões para El Gigio antes de sair, mas, depois que olhou para o vidente, as palavras não saíram de sua boca.

A partir daquele instante uma dúvida passaria a lhe assombrar por toda a vida: foi apenas sua imaginação, ou aquele olho mal desenhado à caneta realmente teria dado uma piscadela?

  2 Responses to “O Vidente”

  1. Há tempos, dediquei-me à leitura das linhas das mãos das francanas, a fim de traduzir as intempéries que o destino lhes reservava, com o único intuito de auxiliar na condução de suas pacatas vidas! Pobres integrantes de uma sociedade feudal tardia que, particularmente, insistia em não permitir a inserção dos unespianos em seu "contexto". Portanto, como El Gigio, já enfrentei a incredulidade na busca pela abertura de algumas "mentes".(LÍNGUA)

  2. […] histórias do El Gigio aqui, aqui, aqui e […]

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