out 172012
 

 

 

 

 

Ele entrou no quarto procurando pelas garrafas de licor feitas pelo seu avô, que vieram para sua casa junto com várias caixas e tralhas antigas deixadas pelos seus pais. Já havia bebido muito, o que não era de seu costume, mas sentia que após a desilusão de poucas horas antes nada mais restava a fazer.

A chuva que batia na janela deixava a noite mais melancólica. Seus pensamentos estavam confusos graças ao álcool e à tristeza, ao ponto dele não saber por que trazia em suas mãos o cd com músicas que gravara especialmente para ela e que não tivera a chance de entregar. Foi quando jogou o disco em um canto que viu uma pequena caixa de madeira para qual não tinha dado atenção anteriormente.

Na caixa havia papéis amarelados, com inscrições feitas à bico de pena e tinta nanquim. Eram as cartas enviadas durante a época da guerra pelo seu avô, e que contavam dos anos de preparativos e de luta daquele soldado.

Os papéis tinham sofrido a ação do tempo e muito do que estava escrito estava ilegível, mas foi possível reconhecer as menções ao quartel em Caçapava, à solidão da espera no Rio de Janeiro, ao sofrimento do navio e à chegada na Itália. Fornovo, Montese, Collecchio, Monte Castello… locais aonde houve frio, medo, fome e dor.

Em um certo trecho seu avô contava como escapou da morte em um bombardeio noturno, e em outro comentava que prendeu uns alemães e que o capitão falou em lhe dar uma medalha. Mas embora falassem da guerra, aquelas não eram cartas de um guerreiro orgulhoso. Eram cartas cartas de amor, escritas por um agricultor que durante muito tempo foi afastado da mulher que amava, mas que se agarrava firmemente a um sentimento para continuar enfrentando a realidade. Eram palavras simples, ingênuas até, mas que descreviam a história de um homem apaixonado que tinha paciência e fé na chegada de dias melhores.

“O amor não tem pressa”, sussurou o homem com as cartas nas mãos e os olhos cheios de lágrimas, sem se lembrar, contudo, de onde conhecia aquela citação. Ficou então parado olhando para chuva na janela, pensando em nada por todo o resto da noite.

Ao amanhecer ele se levantou, pegou o cd que tinha jogado no chão e colocou junto com as cartas que acabara de ler. Após guardar tudo na caixa, providenciou que esta ficasse em lugar seguro, para que alguém, um dia, fizesse bom uso de tudo o que ela guardava.

 

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

 (Clique para ouvir o áudio)

 

 Leave a Reply

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

(required)

(required)

Loading Facebook Comments ...

Warning: require_once(/home/rebostej/public_html/wp-content/plugins/gplus-comments/includes/templates/partials/.php) [function.require-once]: failed to open stream: No such file or directory in /home/rebostej/public_html/wp-content/plugins/gplus-comments/includes/templates/container.php on line 103

Fatal error: require_once() [function.require]: Failed opening required '/home/rebostej/public_html/wp-content/plugins/gplus-comments/includes/templates/partials/.php' (include_path='.:/usr/lib/php:/usr/local/lib/php') in /home/rebostej/public_html/wp-content/plugins/gplus-comments/includes/templates/container.php on line 103