set 182012
 

 

 

Era uma terça-feira, eu acho.

O despertador tocou pontualmente às 6 horas. Armindinho sentou na cama, esticou os braços, alongou o pescoço – primeiro para a direita, depois para a esquerda, para frente e para trás – depois se levantou e calçou as havaianas rumo ao banho.

Na mesa de café preparou uma porção de granola com uma xícara de leite, que comeu à contragosto. Ele não suportava a granola e odiava o leite, mas o médico lhe receitou aquele desjejum e ele não iria contrariar o especialista.

Voltou ao banheiro e levou cinco minutos para escovar os dentes. Gastou bem menos tempo para pentear os cabelos, que cada vez mais rareavam.

Pensando bem, acho que era uma quarta-feira. Mas tanto faz, todos os dias a rotina dele era a mesma.

Eu sei que agora você vai reclamar do clichê, mas não é culpa minha o Armindinho ser funcionário público. Contador formado, passara no concurso há 18 anos e desde então sempre exercera o mesmo cargo, na mesma repartição, no mesmo local. Era visto como um servidor exemplar, que não faltava nunca e que tudo sabia sobre o seu ofício, mas a falta de brilho e ambição não permitiram que ele recebesse as promoções que outros mais jovens e menos talentosos tiveram.

Armindinho não pensava nisso, só queria fazer o seu trabalho, e naquela manhã de quarta-feira (ou terça, sei lá) entrou em seu carro e saiu pela avenida, mantendo a velocidade permitida e guardando a distância segura do veículo da frente, até que, ao mudar de faixa, percebeu que não tinha dado o sinal prévio com a seta para avisar os outros motoristas dessa manobra.

Assustado, o contador ficou esperando por uma freada mais forte, por algum xingamento, por alguém que buzinasse, mas nada aconteceu.

Nada aconteceu.

Armindinho ficou intrigado. Ele não fez com intenção, mas desobedeceu uma regra, cometeu um erro, coisa que jamais se permitira. O mundo, contudo, sequer percebera o ocorrido e aquele momento foi transformador.

Você deve estar reclamando do exagero, eu sei, mas dentro da lógica cartesiana da cabeça de Armindinho as regras sempre existiram para serem cumpridas, e quando não cumpridas, têm consequências. Ele passara a vida fazendo o que é certo, do jeito certo, mas de repente ele percebeu que nem sempre tudo é tão exato.

Armindinho começou a pensar que o seu rigor talvez não fizesse sentido, talvez não valesse a pena. Mas não imagine você que a partir daquele dia ele aprendeu a beber, deixou o cabelo crescer e decidiu parar de trabalhar. Seria radicalismo demais só por causa de uma seta. Armindinho ainda era um medroso, um verdadeiro cagão, se me permite a falar claramente. O máximo que ele se passou a fazer foi deixar de dar seta toda vez que mudava de faixa com o seu carro, um gesto que para ele já era uma grande demonstração de desobediência civil.

Com os dias os colegas de trabalho perceberam que Armindinho estava menos rigoroso, mas leve. Seu jeito mais maleável o tornara uma pessoa mais fácil de conviver, e ele mesmo se sentia mais jovem, mas disposto a cometer outros gestos de rebeldia. Pensou até em tentar conversar com a secretária do chefe, uma bela morena que solenemente o desprezava, mas que talvez agora pudesse se interessar por aquele homem mais intrépido.

Foi mais ou menos um mês depois daquela terça-feira (ou quarta, não sei) que ele se decidiu a falar com a morena. Fez todo o seu ritual matinal com mais esmero, caprichando no banho e perfume, quando então antes de sair viu na porta de sua casa várias correspondências com o brasão do Estado estampado.

Eram notificações de multas. Várias. Todas emitidas em razão da falta de sinalização quando da mudança de faixas. Para azar de Armindinho, um outro funcionário público tão obstinado quanto ele, só que lotado no departamento de trânsito, fazia o mesmo trajeto que o contador e anotara todas as infrações cometidas.

Armindinho sentiu-se desolado. Enfrentar o Estado não é para qualquer um, ele pensou. Vencer o Sistema era algo apenas mais os mais afortunados, e ele não passava de um mero preenchedor do tabelas. Se ele não tinha sorte nem para livrar-se das multas, que chances teria com a morena? Cabisbaixo, ele pegou as correspondências para levá-las ao banco já que só lhe restava arcar com as consequências de seus atos.

Antes de sair, porém, ele parou em frente a porta, tirou de sua pasta uma das notificações, rasgou e jogou pela janela. Ele ainda não era um Che Guevara, mas havia uma semente de rebeldia que ele achou que valia a pena continuar a alimentar.

 

 

 

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