nov 102011
 

 

Ao passar pela porta ele foi recepcionado por uma mulher alta e muito bela, de seios grandes e sorriso discreto, que confirmou que o esperavam para a entrevista e pediu para que ele esperasse na sala de reuniões.

O rapaz lamentou não poder ficar no mesmo recinto que ela. Havia algo naquela mulher que ia além de sua beleza, mas no mesmo momento ele se deu conta de que não poderia desviar a atenção de seu objetivo. Aquela não era hora para um flerte. “Quem sabe, no futuro…”, pensou.

Entrou na sala, recusou que lhe servissem água e voltou a se concentrar naquela que seria a primeira entrevista de emprego de sua vida. Para não errar, seguiu todos os conselhos: vestia um terno escuro bem alinhado, a gravata vermelha era bela e discreta, o cabelo estava bem cortado. Havia se preparado para responder as perguntas mais prováveis e, embora não tivesse muito currículo para defender, contava com os anos de esforço em uma faculdade de ponta para impressionar o entrevistador.

A sala tinha paredes claras e a grande mesa de madeira escura ocupava quase todo o espaço. O ar condicionado não fazia qualquer barulho e mantinha a temperatura do ambiente perfeita. Sobre a mesa repousava um porta lápis e um bloco de anotações com capa de couro, personalizado com o nome dos sócios do escritório em letras douradas.

Quinze minutos se passaram e a sua aflição crescia . “Faz parte do teste isso. Devem até estar me filmando”. Passou então a procurar por câmeras apenas com os olhos, fingindo tranquilidade e segurança.

Depois de mais algum tempo um homem alto e de fartos cabelos castanhos entrou. Seu terno cinza era elegante e a gravata escura parecia ser fina e cara.

– Boa tarde, meu nome é Renato.

– Boa tarde, Dr. Renato,meu nome é Tomas.

O entrevistado reconheceu o nome. Dr. Renato era quem emprestava o nome do meio para o escritório Coelho, Lapolina & Leite Advogados Associados.

O experiente advogado acomodou-se na cadeira,arcou o corpo para frente, pôs os cotovelos sobre a mesa e tirou os óculos. Passou lentamente as mãos na testa enquanto mantinha os olhos cerrados, até que respirou fundo, virou para o candidato e perguntou:

– Me diga então, Tomas…

“Tomas? Ele me chamou pelo nome, sem ‘Doutor’, sem ‘Senhor’. Isso é bom ou é ruim?”

-… o quê você quer da vida?

O entrevistado ficou confuso, não esperava uma pergunta assim, tão direta, logo de cara.

– Bem, tenho aspiração de ascender no mundo da advocacia e me tornar um grande jurista, pretendo construir uma carreira sólida…

– Não, não – O entrevistador interrompeu – Quero saber quais seus sonhos, quais seus desejos…

– Eu desejo ser uma grande advogado, me preparei muitos anos estudando na…

– Não! – interrompeu novamente Dr. Renato – Eu quero saber dos seus desejos, não essa ladainha profissional de merda!

– Hã?!?

-Quais os seus desejos, rapaz? Por exemplo, você viu a nossa recepcionista. O que você gostaria de fazer com uma mulher como ela?

– E-E-Eu…

– Vai me dizer que nãog ostaria de enfiar o rosto entre aqueles melões e fazer blu-blu-blu-blu– enquanto emitia o som, chacoalhava a cabeça entre as mãos.

– Ahhh, eh, bem…- “Pense,idiota, pense! Isso é um teste!” – Não, Dr. Renato, eu jamais faria isso com uma funcionária do escritório, isso renderia um processo de assédio e…

– Processo, processo, processo! Eu não aguento mais falar em processo! – O advogado levantou e afrouxou a gravata – Eu quero é falar da vida, de sonhos, de desejos! Sabe qual era o meu sonho, rapaz? Meu sonho era ser igual ao Clóvis, mas nunca pude nem tentar!

O candidato ainda tentou retomar a conversa:

– Clóvis? Ah, sim, Clóvis Beviláqua foi um grande jurista, grande nome do Direito Civil…

– Não, não! Não esse Clóvis! Eu queria ser como o Clóvis Bornay, rapaz! Meu sonho não era usar terno, mas sim viver no mundo do luxo cheio de plumas e paetês – enquanto falava o advogado subiu na mesa e começou a desfilar como se estivesse em um concurso de fantasias de carnaval.

O candidato procurava por câmeras escondidas sem mais disfarçar, até que resolveu sair da sala lentamente enquanto o Dr. Renato acenava e mandava beijos para uma plateia inexistente. Na saída encontrou a recepcionista, que lhe perguntou de forma ríspida:

– Você viu o que você fez?

– Mas eu não fiz nada!

– Você é um tonto! Deu a resposta errada, agora não vai poder fazer blu-blu-blu-blu aqui – disse a recepcionista apontando para o peito antes de vestir uma máscara de colombina e sair jogando confetes pelo corredor.

 

 

 

 Leave a Reply

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

(required)

(required)

Loading Facebook Comments ...

Warning: require_once(/home/rebostej/public_html/wp-content/plugins/gplus-comments/includes/templates/partials/.php) [function.require-once]: failed to open stream: No such file or directory in /home/rebostej/public_html/wp-content/plugins/gplus-comments/includes/templates/container.php on line 103

Fatal error: require_once() [function.require]: Failed opening required '/home/rebostej/public_html/wp-content/plugins/gplus-comments/includes/templates/partials/.php' (include_path='.:/usr/lib/php:/usr/local/lib/php') in /home/rebostej/public_html/wp-content/plugins/gplus-comments/includes/templates/container.php on line 103